A pressão popular no Brasil já é clara — e agora começa a ganhar dimensão global.
Pesquisa da RealTime Big Data mostra que 79% dos brasileiros defendem que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva classifique o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O dado revela mais do que insatisfação:
indica um desalinhamento crescente entre percepção interna e estratégia do governo — enquanto o tema avança no radar internacional.
Quantos brasileiros querem PCC e CV como terroristas?
79% são favoráveis, segundo pesquisa nacional realizada entre 17 e 19 de março de 2026 (1.500 entrevistas, margem de erro de 3 p.p., confiança de 95%).
Segurança pública: rejeição estrutural
Os números mostram um quadro consolidado:
- 46% avaliam o combate ao crime como “péssimo”
- 34% como “ruim”
- Apenas 20% enxergam desempenho positivo
Na prática:
8 em cada 10 brasileiros desaprovam a condução da segurança pública.
Esse nível de rejeição costuma aparecer quando o problema é percebido como estrutural — e não mais episódico.
O estudo foi realizado entre os dias 17 e 19 de março de 2026, com 1.500 entrevistas em todo o país. A margem de erro é de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Além do apoio majoritário à classificação das facções como terroristas, os dados mostram uma avaliação negativa do desempenho do governo na área de segurança pública.
Violência no Brasil: base factual do descontentamento dos brasileiros ignorada por Lula
A percepção captada pela pesquisa encontra respaldo em dados estruturais de segurança:
- o Brasil ainda registra taxas elevadas de homicídios por 100 mil habitantes
- facções ampliaram presença em rotas logísticas e fronteiras
- há avanço sobre economias paralelas (tráfico, lavagem, controle territorial)
O Atlas da Violência 2024, aponta que, pela primeira vez desde o início da série histórica (2016), o Amazonas apresentou a segunda maior taxa de homicídios do Brasil. Com 43,5 casos a cada 100 mil habitantes, o Estado fica atrás apenas da Bahia, que possui uma taxa de 46,8. A média do país é de 24,5.
Um relatório de inteligência da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senapen) mostra que a facção Comando Vermelho (CV) continua em expansão, 45 anos após seu surgimento no Rio. Segundo o estudo, o grupo criminoso em 2024 atuava em 23 estados – três a mais do que no ano anterior.
Em 2023, Amapá, Pernambuco e Espírito Santo passaram a constar na relação de estados onde a facção atua. A organização criminosa só não tem representantes no Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e São Paulo – onde atua o PCC. A quadrilha paulista, segundo o relatório é a única que tem integrantes em mais estados que o CV, com 24.
O estudo revelou que o CV tem hoje 134 homens com posições de comando espalhados em presídios do país, o que representa 21% de todos os chefes de facções presos. O CV controla, também, 125 pavilhões no país.
“Essa expansão do Comando Vermelho, em alguns estados, principalmente pra região norte e nordeste é uma tendência por ser uma organização criminosa que se caracteriza por ser territorialista. Há talvez um interesse nessas regiões por serem regiões de fronteira com outros países, fronteira seca mas também pegando ali a costa do nosso Oceano Atlântico”, diz o diretor de Inteligência Penitenciária da Senapen, Antônio Glautter.
O Comando Vermelho comanda o tráfico em 24 dos 27 estados do Brasil. Em São Paulo, esse domínio é do PCC, embora em Rio Claro a facção não esteja consolidada como em outros municípios segundo a polícia.
Outro estudo produzido pela pesquisadora Camila Nunes Dias para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) produz uma espécie de censo para quantificar não apenas os membros de suas fileiras, mas também de siglas rivais. E se esforça para repeti-lo a cada 15 dias, segundo Dias.
O estudo de Dias foi feito inicialmente com base em dados obtidos nos Estados da região Norte e mostra a intenção do PCC em saber quantos membros existem em cada facção e ainda as distinguem entre “amigas”, “inimigas” ou “neutras”. A intenção é logística e estratégica, para distribuir recursos e planejar sua expansão.
“Eu nunca ouvi falar em algo parecido. Isso demanda uma organização, o que os outros grupos não têm. Para isso, é necessário que cada integrante do PCC, responsável por cada Estado, responda e mande informações para essa central, a sintonia (liderança, no jargão do PCC) dos Estados e Países, que reúne todas as informações de cada Estado brasileiro e países onde a facção tem negócios”, disse a pesquisadora, á bbc
Autora do livro PCC: Hegemonia nas prisões e monopólio da violência, a pesquisadora explica que a facção paulista e o CV mantinham um pacto para a compra de drogas e armas em regiões de fronteira e para a proteção de seus integrantes em prisões controladas pelos grupos.
Esse estudo faz parte da primeira fase do projeto Dinâmicas da Violência nas Regiões Brasileiras, produzido pelo Ipea.
“Se você tem alguém que vai para o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD ou castigo), ele é transferido de prisão e fica em isolamento. Isso vai impactar nas atividades da facção naquela unidade durante algum tempo até repor essa pessoa. O que consegui identificar é que há pelo menos a intencionalidade de uma periodicidade quinzenal”, diz a pesquisadora.
O argumento internacional: PCC e CV já operam fora do Brasil
O levantamento também testou a percepção dos brasileiros sobre uma possível influência internacional no tema. Para 66% dos entrevistados, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump deveria considerar PCC e CV como organizações terroristas, enquanto 34% discordam.
A pesquisa abrangeu eleitores de todas as regiões do país, com predominância do Sudeste (42%), seguido pelo Nordeste (28%) e Sul (15%). O perfil dos entrevistados é equilibrado entre homens (47%) e mulheres (53%), com maior concentração na faixa etária de 35 a 59 anos (46%).
O debate muda de escala quando entra o fator externo.
Relatórios de segurança e análises internacionais apontam que o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho:
- atuam em diversos países da América Latina
- operam em rotas internacionais de tráfico
- mantêm conexões com redes criminosas transnacionais
- aparecem em investigações com ramificações fora do Brasil
Um levantamento inédito do Ministério Público de São Paulo (MPSP) em 2025, revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) está presente em ao menos 28 países distribuídos por quatro continentes.
A facção atua de maneira organizada no exterior, utilizando prisões estrangeiras para recrutar novos membros e articulando operações de tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
A maior parte dos integrantes do PCC fora do Brasil concentra-se na na América Latina, especialmente em países da América do Sul. Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai lideram em número de membros da facção, sendo áreas estratégicas para a expansão do tráfico de drogas e armas, devido às fronteiras com o Brasil e pela produção de cocaína, principal produto exportado para a Europa pela organização.
A facção também atua em vários países ao redor do mundo, como Alemanha, Argentina, Bélgica, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Guiana Francesa, Guiana, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Itália, Japão, Líbano, México, Peru, Portugal, Sérvia, Suíça, Suriname e Turquia, demonstrando a ampla abrangência internacional de suas operações criminosas.
Facção instala residências e recruta novos membros em presídios
O relatório, que tem sido apresentado a representações diplomáticas brasileiras, visa reforçar a cooperação internacional no combate ao crime organizado. De acordo com o documento, os países estrangeiros não são utilizados apenas como pontos de passagem ou para negociações pontuais.
Há evidências de que membros do PCC mantenham residências fixas nesses locais, estabelecendo estruturas estáveis e ampliando sua rede criminosa.
A infiltração em presídios internacionais tem se tornado uma tática constante do grupo, considerada, inclusive, uma “marca registrada” da facção. Essa estratégia possibilita que a organização recrute novos membros, além de fortalecer parcerias no mundo do crime e expandir suas atividades ilícitas em território estrangeiro.
O levantamento foi elaborado com base em informações de inteligência produzidas a partir do monitoramento de setores internos do grupo, como a “Sintonia dos Estados” e a “Sintonia dos Países”, núcleos responsáveis por coordenar a expansão da facção fora de São Paulo e do Brasil. As investigações envolveram quebras de sigilo telefônico e telemático, além da troca de dados com autoridades internacionais.
Segundo os promotores responsáveis, a consolidação do PCC em diferentes países representa um avanço significativo da facção no cenário do crime organizado transnacional e exige uma resposta coordenada entre os sistemas de Justiça e segurança pública de diversos governos.
PCC: de São Paulo para o mundo
O Primeiro Comando da Capital (PCC) foi fundado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. Inicialmente, o grupo reunia menos de 10 presos que se uniram para se proteger da perseguição de outros detentos e evitar abusos dentro dos presídios, especialmente após o Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992.
O grupo rapidamente se estruturou como uma facção criminosa com forte hierarquia, e ao longo dos anos, ampliou suas atividades para além dos presídios, envolvendo-se em tráfico de drogas, armas, contrabando e lavagem de dinheiro. Atualmente, é considerado uma das maiores organizações criminosas do Brasil, com ramificações em diversos estados e países.
Com mais de 30 anos de atuação, o grupo criminoso já reúne cerca de 40 mil integrantes e fatura aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, de acordo com o Ministério Público de São Paulo, principalmente por meio do tráfico internacional de drogas. Conforme relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), o PCC está presente em cadeias de 24 estados brasileiros, estando ausente apenas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.
Segundo a PF, o PCC tem recrutado mergulhadores experientes para tentar despistar os investigadores e conseguir entrar com cocaína na Europa. Um integrante considerado relevante na estrutura internacional do PCC é Gabriel Martinez Souza, conhecido como Fant, alvo de uma investigação da Polícia Federal, em Santos, pela suspeita de coordenar um grupo de mergulhadores para esconder cargas de cocaína no casco de navios cargueiros. Depois, esses mesmos mergulhadores iam para a Europa pegar a droga.
Em uma viagem à Europa no fim do ano passado, o responsável pela inteligência do Centro de Inteligência da Polícia Militar de SP, Coronel Pedro Sousa Lopes, afirmou também que o traficante André do Rap, foragido da Justiça, se escondeu por pelo menos um ano em Portugal antes de se mudar para a América Central. Durante a mesma comitiva, o secretário de segurança pública de SP, Guilherme Derrite, informou ao Jornal O Público, impresso português, que o PCC também tem usado o país europeu para lavar dinheiro do crime.
Foco no tráfico de armas e alerta para o terrorismo
O mapeamento de inteligência que têm sido usado por embaixadas e consulados apresenta países que colocaram em foco investigações sobre tráfico de drogas e alerta para o contato do PCC com outras organizações criminosas internacionais que se especializaram na lavagem de dinheiro para o financiamento do terrorismo.
A Sérvia é um deles. Apontada como uma rota para tráfico de armas, segundo o promotor do Lincoln Gakiya, a presença do PCC na região possivelmente se deve a algum tipo de acordo para facilitar a também logística de compra e venda de armas, que nem sempre é feita por italianos. Segundo ele, há muita logística também feita por sérvios e por albaneses.
Já o Líbano não é visto como um país fornecedor ou mesmo destino final de drogas. Por isso, a presença do PCC é vista como uma possibilidade de conexão com lavagem de dinheiro, chamado por analistas de “convergências criminais de grupos criminosos”.
“Embora não tenham os mesmos interesses, o PCC tem um interesse, sobretudo, no narcotráfico. Então isso pode indicar que operadores financeiros estejam atuando ali naquela região, facilitando a lavagem, tanto para o PCC quanto para organizações que financiam o terrorismo. Isso que a gente chama de convergência criminal”, segundo Gakiya.
A leitura adotada por setores ligados a Donald Trump é direta:
se a atuação é transnacional, o enquadramento precisa ser internacional.

O que muda se forem classificados como terrorismo
Esse é o ponto que ajuda o Brasil mais o governo Lula trata como problema.
A classificação ativa mecanismos como:
- bloqueio internacional de ativos conseguindo asfixiar as facções
- cooperação jurídica ampliada
- rastreamento global de transações, ajuda a identificar as lideranças que ninguém conhece
- enquadramento em legislações antiterrorismo
Na prática:
o tema sai da segurança pública e entra no sistema financeiro global.
Bastidores: governo Lula tenta conter a iniciativa americana
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva atua para evitar esse enquadramento fora do país.
- Mauro Vieira — responsável pela diplomacia brasileira — disse que discutiu o tema com Marco Rubio, chefe da política externa americana
- O pedido foi direto: adiar qualquer decisão internacional
- Lula também disse que tratou do tema com Gustavo Petro, líder colombiano e peça-chave na articulação regional contra o crime organizado, com participação de Celso Amorim, principal conselheiro internacional do governo.
Leitura técnica:
o governo tenta evitar que o problema seja “reclassificado” fora do país — onde perde controle sobre as consequências.
Classificação de organização terrorista pode atrair — ou afastar investidores. Entenda
Aqui está o ponto central que o debate ignora.
Classificar facções como terrorismo não tem efeito único. Depende de uma variável crítica:
capacidade real de execução do Estado.Ou seja, do governo Lula, que não a demostrou até então.
Curto prazo: risco pode subir
Se a classificação vier (especialmente de fora), o mercado tende a reagir com cautela:
- aumento de exigências sobre bancos
- maior escrutínio em transações internacionais
- reprecificação de risco país
Resultado possível:
crédito mais caro e capital mais seletivo no curto prazo. (é um pequeno efeito colateral, para um benefício permanente para o futuro)
Médio e longo prazo: efeito deve inverter, dependendo do governo
Se houver execução consistente:
- enfraquecimento financeiro das facções
- redução de economias paralelas
- melhora de previsibilidade institucional
Resultado:
mais segurança → mais investimento → menor custo de capital
O que o mercado realmente precifica
O erro comum é achar que a classificação resolve o problema.
O mercado lê assim:
classificação + execução eficaz → queda de risco
classificação sem execução (possível com Lula) → aumento de risco
A pesquisa é apenas o gatilho.
O que está em jogo é maior:
se o Brasil vai conseguir transformar o combate ao crime organizado em redução de risco estrutural — ou se enfrentará um choque externo que encarece o custo do dinheiro antes de qualquer melhora real.
O impacto silencioso: pode chegar ao seu dinheiro
Se a classificação vier de fora, os efeitos não ficam na política.
Podem atingir diretamente:
- bancos brasileiros, com maior vigilância internacional sobre transações de facções limpando o sistema deste controle criminoso
- transferências financeiras, sujeitas a bloqueios ou filtros mais rígidos para as facções e com mais segurança para o brasileiro comum
- investimentos estrangeiros, podem ser facilitados após a certeza de um sistema financeiro livre de organização criminosa
- custo do crédito, pode cair com o tempo, a medida que o risco Brasil reduzir no quesito das organizações criminosas, que se apresentam atualmente em todos os setores.
O resultado esperado no longo prazo
Se a classificação como terrorismo vier acompanhada de execução efetiva do governo, o efeito tende a ser:
- desarticulação financeira de facções (bloqueio de ativos, cooperação global)
- redução de economias paralelas (tráfico, extorsão, controle territorial)
- melhora de previsibilidade institucional
- queda do prêmio de risco estrutural
Tradução de mercado:
ambiente mais previsível → maior fluxo de capital → custo de capital menor
Isso já ocorreu em outros contextos onde o crime organizado foi pressionado de forma coordenada internacionalmente.
Na prática:
o custo do dinheiro no Brasil pode cair com o tempo — mesmo sem mudança na economia doméstica.
O conflito central
O cenário está definido:
- população pressiona por endurecimento e busca segurança pela qual paga e não recebe
- governo Lula tenta ignorar a vontade popular, para manter o sistema atual.
- atores internacionais avaliam agir, para não serem contaminados como está o Brasil atualmente
Se a decisão vier de fora:
o Brasil sob lula, mostra quem optou por ignorar o problema — e passa a reagir às regras do sistema global.
Conclusão (ponto de atenção)
A pesquisa é o gatilho — não o fim da história.
Ela sinaliza um movimento mais profundo:
o risco de o crime organizado brasileiro deixar de ser um problema doméstico e passar a influenciar diretamente risco país, fluxo de capital e custo do dinheiro.


