Novas mensagens obtidas pela investigação da Polícia Federal revelam que um empresário ligado ao lobista Antonio Carlos Camilo Antunes — conhecido como “Careca do INSS” — teria atuado para ocultar sua participação em uma empresa potencialmente utilizada na estrutura operacional do esquema de descontos indevidos em aposentadorias.
Os diálogos indicam que o empresário Tiago Schettini Batista discutiu estratégias para evitar que seu nome aparecesse formalmente na composição societária de uma empresa de call center ligada ao grupo investigado. A medida, segundo os investigadores, teria como objetivo blindar juridicamente a operação e reduzir exposição a investigações, mecanismo recorrente em estruturas empresariais usadas em esquemas de fraude.
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O caso integra o avanço das apurações sobre o sistema que ficou conhecido como “farra do INSS”, investigação que analisa o uso de associações e empresas intermediárias para realizar descontos automáticos em benefícios previdenciários sem autorização dos aposentados.
A estratégia de ocultação societária
Mensagens interceptadas indicam que Schettini demonstrava preocupação direta com a exposição de seu nome no novo empreendimento.
Nos diálogos analisados pelos investigadores, ele sugere a criação de estruturas indiretas de participação, utilizando terceiros ou empresas intermediárias para figurar formalmente como sócios.
No mercado corporativo, esse tipo de mecanismo é conhecido como “sócio oculto” — quando um investidor ou controlador exerce influência econômica no negócio sem aparecer oficialmente nos registros societários.
Essa prática, embora possa ocorrer em estruturas privadas legítimas, torna-se sensível do ponto de vista jurídico quando utilizada para ocultar participação em atividades investigadas, especialmente em casos envolvendo contratos públicos ou captação de recursos vinculados ao Estado.
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Call center no centro da engrenagem
A investigação aponta que a empresa discutida nas conversas seria a ACDS Call Center (Truetrust Call Center), estrutura que poderia atuar como peça operacional na comunicação com beneficiários do sistema previdenciário.
Segundo os investigadores, empresas desse tipo podem desempenhar papéis críticos em esquemas dessa natureza, como:
- contato direto com aposentados
- oferta de filiação a associações
- intermediação de contratos de serviços
- operacionalização de autorizações de desconto
O modelo investigado envolve associações que registravam aposentados como filiados, permitindo a cobrança automática de mensalidades diretamente nos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social.
Em muitos casos, os beneficiários afirmam nunca ter autorizado a adesão às entidades, o que desencadeou uma avalanche de reclamações e investigações administrativas.
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Histórico empresarial pesou na tentativa de blindagem
Outro elemento que aparece nas investigações é o histórico empresarial de Schettini.
Uma empresa ligada ao empresário, a Business to Technology Consultoria e Análise de Sistemas (B2T), já havia sido punida pela Controladoria-Geral da União por irregularidades em contratos públicos.
Entre as sanções aplicadas estão:
- multa milionária
- declaração de inidoneidade
- proibição temporária de contratar com a administração pública
Apesar disso, relatórios de investigação apontam que empresas relacionadas ao esquema investigado teriam transferido mais de R$ 16 milhões para a B2T, levantando suspeitas sobre o fluxo financeiro entre as companhias.
Mandado de prisão e saída do país
No avanço das investigações, Schettini chegou a ser alvo de mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça.
Segundo informações do processo, o empresário estaria atualmente fora do Brasil, nos Estados Unidos, enquanto sua defesa tenta reverter as medidas cautelares no Supremo Tribunal Federal.
Ele também deixou de comparecer a depoimento em uma comissão parlamentar que investiga o caso após obter habeas corpus que o desobrigou de prestar esclarecimentos.
O escândalo bilionário do INSS
O esquema investigado envolve uma rede complexa composta por:
- associações de aposentados
- operadores financeiros
- empresas de telemarketing
- intermediários políticos e empresariais
Segundo estimativas preliminares de investigadores e órgãos de controle, os descontos indevidos podem ter movimentado bilhões de reais ao longo dos últimos anos, atingindo aposentados e pensionistas em todo o país.
A investigação busca mapear toda a cadeia empresarial utilizada para captar recursos, distribuir pagamentos e ocultar beneficiários finais do esquema.
Risco institucional e padrão recorrente
Casos como o investigado pela Polícia Federal revelam um padrão comum em grandes esquemas envolvendo recursos públicos ou benefícios sociais:
- criação de empresas operacionais (telemarketing, serviços administrativos)
- uso de associações ou entidades intermediárias para legitimar cobranças
- adoção de estruturas societárias indiretas para ocultar controladores
- fragmentação do fluxo financeiro entre diversas empresas
Essa arquitetura dificulta o rastreamento do dinheiro e dilui responsabilidades jurídicas — razão pela qual as investigações passaram a concentrar esforços não apenas nos operadores diretos, mas nas estruturas empresariais por trás das operações.
Com o avanço das apurações policiais e parlamentares, a expectativa é que o foco se amplie para os beneficiários econômicos finais do esquema, etapa considerada crucial para dimensionar o alcance real do caso.



