Primeira-dama levou a Xi Jinping reclamações sobre o TikTok durante viagem à China em 2025 e depois citou como positiva a forte regulação chinesa das redes; agora pede a retirada imediata do Discord do Brasil, enquanto a AGU da gestão de Lula prepara ação judicial contra a plataforma, as vésperas da eleição.
Janja da Silva voltou a colocar o controle das plataformas digitais no centro do debate político brasileiro — mas, desta vez, com uma diferença importante: a discussão deixou de estar apenas no campo da “regulação” e chegou ao pedido explícito para retirar uma plataforma inteira do ar.
A primeira-dama defendeu nesta quinta-feira (6) o bloqueio do Discord no Brasil durante a cerimônia de sanção de uma lei que amplia medidas de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente digital. No mesmo contexto, o advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou que a Advocacia-Geral da União (AGU) pretende ingressar com ação civil pública contra a plataforma, incluindo um pedido de retirada do serviço do país.
O episódio ganha uma dimensão maior quando colocado lado a lado com uma declaração feita por Janja pouco mais de um ano antes.
Em maio de 2025, durante a viagem oficial de Lula à China, Janja interrompeu o protocolo de um jantar com o presidente chinês Xi Jinping para falar sobre o TikTok e os efeitos dos algoritmos sobre crianças e adolescentes. Dias depois, ao explicar o episódio, afirmou que Xi havia mencionado a existência de uma “regulação muito forte” das redes na China.
Janja então questionou por que seria tão difícil discutir algo semelhante no Brasil.
A comparação é relevante não porque os dois casos sejam juridicamente idênticos, mas porque permite observar a evolução de uma mesma discussão política: qual deve ser o limite da intervenção do Estado sobre plataformas digitais quando o objetivo declarado é proteger crianças, adolescentes ou usuários?
O fato é que na China as redes sociais são censuradas pelo governo chinês, e o mundo sabe que o país não é um regime democrático, mas sim comunista. A China é controlada pelo PCC, Partido Comunista Chinês.
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Do TikTok à China ao Discord no Brasil
O episódio de 2025 ganhou repercussão justamente porque Janja não apenas criticou o TikTok em território chinês. Posteriormente, ao relatar a conversa com Xi, ela citou o modelo adotado pela China para justificar a necessidade de discutir a regulamentação das redes no Brasil.
Segundo o relato de Janja, Xi teria mencionado que a China também enfrenta problemas relacionados às redes, apesar de possuir uma regulação considerada por ela muito forte.
A própria primeira-dama descreveu regras chinesas envolvendo o acesso de menores às telas e às redes sociais e afirmou que, naquele modelo, o descumprimento das regras poderia produzir consequências severas, inclusive prisão.
O ponto que merece atenção é que o modelo chinês não representa simplesmente uma política de proteção infantil. A estrutura chinesa de controle da internet envolve supervisão estatal ampla sobre conteúdos e plataformas, com mecanismos de censura e monitoramento de usuários.
É justamente por isso que a fala de Janja provocou, na época, acusações políticas de que ela estaria defendendo um modelo de censura. Janja, por sua vez, sustentou que o debate deveria ser tratado como uma questão de proteção de crianças e adolescentes, e não apenas como uma discussão sobre liberdade de expressão.
Agora, em agosto de 2026, o debate ganhou um componente concreto: uma plataforma específica passou a ser alvo de um pedido de retirada do ar.
O caso Discord muda o patamar da discussão
A defesa do bloqueio ocorre em meio à investigação de casos envolvendo violência e exploração de menores em ambientes digitais.
Janja afirmou que o Discord deveria ser retirado imediatamente do ar e questionou, durante o evento no Palácio do Planalto, quais instrumentos jurídicos poderiam ser utilizados para alcançar esse objetivo.
A AGU também passou a atuar diretamente no caso. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, Jorge Messias determinou o levantamento de informações relacionadas à atuação da plataforma e afirmou que pretende apresentar uma ação civil pública pedindo sua responsabilização e a retirada do Discord do Brasil.
O governo Lula relaciona a iniciativa a investigações envolvendo grupos criminosos e violência contra mulheres e meninas em plataformas digitais.
Há, portanto, um problema real de segurança que não pode ser simplesmente ignorado: plataformas digitais podem ser utilizadas para práticas criminosas e precisam responder quando descumprem obrigações legais.
A questão mais ampla, porém, é outra.
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O calendário eleitoral adiciona uma camada ao debate, e Lula já assinou decreto contra as Big Techs, ainda não foi suficiente?
O avanço dessa discussão ocorre a dois meses das eleições de 2026, justamente depois de o governo Lula ter ampliado por decreto o conjunto de obrigações impostas às plataformas digitais.
Em 20 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou os Decretos nº 12.975 e nº 12.976, que apertaram ainda mais a regulamentação do Marco Civil da Internet e estabeleceram novas obrigações para provedores de aplicações, incluindo plataformas digitais e redes sociais. Entre as medidas estão deveres relacionados à transparência, prevenção e mitigação de riscos, combate a fraudes e golpes e, em determinadas situações, indisponibilização de conteúdos considerados criminosos.
O Decreto nº 12.976, especificamente na explicação do governo Lula, criou diretrizes para proteção de mulheres no ambiente digital e passou a prever obrigações para plataformas diante de conteúdos íntimos não autorizados, violência digital e ataques coordenados. A norma entrou em vigor em julho, 60 dias depois de sua publicação.
O momento político torna a discussão ainda mais sensível. O Brasil entra na reta que antecede uma eleição presidencial com um novo ambiente regulatório para as plataformas justamente quando o governo Lula e seus aliados ampliam o discurso em defesa de maior controle sobre as redes.
Isso não permite concluir que o pedido de bloqueio do Discord tenha motivação eleitoral — não há evidência apresentada nesse sentido. Mas estabelece um contexto que merece ser acompanhado: as mesmas plataformas que terão papel central na circulação de informação, propaganda política e disputa de narrativa durante a eleição passam a operar sob regras mais rígidas e determinadas por uma agência criada e gerida pelo próprio governo Lula, e com maior exposição a medidas de responsabilização e remoção de conteúdo.
A questão, portanto, ultrapassa o caso específico do Discord. Às vésperas de uma eleição, o Brasil está testando até onde pode avançar a responsabilização das grandes plataformas, ao invés de caçar e punir o criminoso.
E é justamente nesse cenário que a trajetória de Janja — da defesa de uma “regulação muito forte” observada na China comunista ao pedido para retirar uma plataforma inteira do ar no Brasil — ganha uma dimensão política que vai além do caso concreto.
Responsabilizar uma plataforma é diferente de desligá-la. Porque não acabar com o criminoso?
A discussão jurídica e institucional começa exatamente neste ponto.
Uma coisa é exigir que uma plataforma remova conteúdo ilegal, coopere com investigações, preserve provas, identifique responsáveis quando houver determinação judicial e implemente mecanismos efetivos de proteção de crianças e adolescentes.
Outra é defender a retirada da própria plataforma do ar.
Essa diferença é fundamental porque um bloqueio não atinge apenas criminosos que utilizam determinado serviço. Ele também alcança milhões de usuários legítimos, empresas, comunidades, desenvolvedores e pessoas que utilizam a ferramenta para comunicação, trabalho, educação ou entretenimento.
Por isso, a pergunta que emerge do caso Discord não é se o Estado deve proteger crianças e adolescentes — deve.
O debate é sobre qual instrumento é proporcional ao problema identificado.
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O que mudou de 2025 para 2026
Há uma sequência que merece ser observada.
Maio de 2025: Janja critica o TikTok durante viagem à China e conversa sobre o tema com Xi Jinping.
Dias depois: ao explicar o episódio, cita a “regulação muito forte” chinesa e pergunta por que o Brasil teria dificuldade de discutir regras semelhantes.
Agosto de 2026: Janja passa a defender publicamente a retirada do Discord do ar no Brasil.
Na mesma semana: a AGU anuncia que pretende levar o caso à Justiça e pedir a responsabilização e a suspensão da plataforma.
Não é correto afirmar, apenas com esses fatos, que exista um plano do governo para implantar no Brasil o modelo chinês de controle da internet.
Mas também seria errado ignorar a mudança de escala da discussão.
A primeira discussão era sobre como regular as plataformas. A atual envolve a possibilidade concreta de retirar uma delas do ar.
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A proteção de menores não encerra o debate
O argumento de proteção de crianças e adolescentes é poderoso — e legítimo.
Mas justamente por envolver um objetivo tão importante, as medidas adotadas pelo Estado precisam ser avaliadas também sob critérios de necessidade, proporcionalidade e eficácia.
Se uma plataforma é utilizada por criminosos, a pergunta não deveria ser apenas se ela deve ser punida.
Também é preciso perguntar:
O bloqueio realmente impede o crime ou apenas desloca os usuários para outra plataforma? Ou munda o crime e criminoso de Lugar?
O combate deve ser ao criminoso ou ao meio usado por ele?
Considerando um exemplo de que criminosos usam o PIX do governo apara aplicar golpes, justificaria desligar o PIX? Ou é necessário punir os criminosos para que desistam de encontrar meios para seus crimes?
Quais mecanismos foram oferecidos à empresa antes de se chegar à suspensão?
Quais obrigações legais foram descumpridas?
O problema está na existência da plataforma ou na ausência de mecanismos suficientes de fiscalização e proteção?
E, principalmente:
quem estabelece o limite para que uma medida excepcional contra uma plataforma não se transforme em precedente para outras?
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O precedente que interessa ao usuário
Esse é o ponto que transforma o caso Discord em algo maior do que uma disputa entre governo e uma empresa de tecnologia.
Se o Judiciário aceitar um pedido de retirada de uma plataforma inteira do ar, será necessário acompanhar quais fundamentos serão utilizados e quais critérios poderão ser aplicados em casos futuros.
Isso porque o precedente pode ultrapassar o Discord.
Hoje, a justificativa é a proteção de crianças e adolescentes. Amanhã, outras plataformas poderão ser questionadas por conteúdos criminosos, desinformação, discurso de ódio, apostas ilegais, pirataria ou outros problemas.
Em todos esses casos, haverá uma pergunta anterior:
o Estado deve exigir que a plataforma cumpra a lei ou pode determinar que a plataforma deixe de existir para os usuários brasileiros? Assim o Estado esta punindo a plataforma e os usuários não o criminoso.
Essa diferença é decisiva para o futuro da internet no país.
Por que isso importa
O episódio também expõe uma contradição que merece ser acompanhada.
A defesa da regulação das redes costuma ser apresentada como uma tentativa de estabelecer responsabilidades para empresas privadas que operam no ambiente digital.
Mas quanto mais a intervenção estatal avança — de regras de moderação para sanções e, finalmente, para pedidos de bloqueio — maior se torna a necessidade de critérios objetivos e controle judicial.
O problema não é apenas quem será punido.
É saber qual poder o Estado estará acumulando para decidir o que pode ou não permanecer acessível aos brasileiros.
Foi exatamente por isso que a referência feita por Janja ao modelo chinês em 2025 chamou atenção. A China possui um dos sistemas de controle digital mais abrangentes do mundo, com forte supervisão estatal sobre plataformas e conteúdos.
No Brasil, evidentemente, o sistema jurídico é outro e qualquer suspensão de uma plataforma depende das regras brasileiras e do controle das instituições competentes.
Mas a comparação feita pela própria primeira-dama em 2025 torna inevitável acompanhar a evolução do debate.
O que observar agora
O próximo capítulo não será apenas político.
Será jurídico e envolve a liberdade dos brasileiros e a segurança jurídicas das empresas no Brasil.
A questão central será saber qual fundamento a AGU apresentará à Justiça para pedir a suspensão do Discord, quais obrigações a plataforma teria descumprido e por que medidas menos abrangentes não seriam suficientes para enfrentar os problemas apontados pelo governo.
Também será importante observar a decisão judicial e, caso o bloqueio seja determinado, quais serão seus limites, duração e condições para eventual retomada do serviço.
É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas uma polêmica envolvendo Janja, que não é eleita pelo povo, e passa a representar um teste para a política brasileira de regulação das plataformas e respeito a Constituição, liberdade de expressão e real combate ao criminoso.
E essa é uma fronteira que interessa não apenas às empresas de tecnologia, mas a qualquer brasileiro que dependa da internet que presa pela liberdade, que busca um pais livre de criminosos e não cheio de barreiras e limites para o cidadão de bem que usa a internet para se comunicar, trabalhar, estudar ou simplesmente acessar informação de sua escolha.







