O novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, assumiu o comando da Corte Eleitoral defendendo a urna brasileira e o sistema eletrônico brasileiro como o mais avançado do mundo — justamente em um momento em que cresce no mundo o debate sobre transparência, verificabilidade pública e auditoria física do voto.
Durante sua cerimônia de posse, o ministro afirmou que o modelo brasileiro é “o mais avançado do mundo” no recebimento, apuração e divulgação dos votos, além de classificar as urnas eletrônicas como um “patrimônio institucional” da democracia brasileira.
“O sistema eletrônico de votação brasileiro constitui patrimônio institucional da nossa democracia. No tocante à recepção, à apuração e à divulgação dos votos, nosso sistema é o mais avançado do mundo”, declarou.
Nunes Marques também afirmou que uma das missões da Justiça Eleitoral será “preservar, aperfeiçoar e fortalecer continuamente a confiança pública” na urna brasileira e no sistema eleitoral brasileiro.
A fala ocorre em meio ao avanço global de discussões sobre segurança digital, Inteligência Artificial, desinformação eleitoral e mecanismos independentes de auditoria do voto — temas que passaram a ganhar protagonismo em diversas democracias nos últimos anos.
Ao lado do vice-presidente do TSE, André Mendonça, Kassio Nunes comandará a Corte durante as eleições presidenciais de 2026.
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O centro da discussão global não é velocidade — é verificabilidade e transparência ao eleitor da urna brasileira
O modelo brasileiro é frequentemente elogiado por autoridades eleitorais que o controlam pela rapidez da totalização, pela logística nacional e pela digitalização completa da votação.
Mas em várias democracias desenvolvidas, o debate tomou outro rumo:
não basta que o sistema seja rápido ou tecnologicamente sofisticado.
Ele também precisa permitir verificação pública independente.
É justamente nesse ponto que críticos do modelo brasileiro concentram seus questionamentos.
Hoje, o eleitor brasileiro vota eletronicamente, mas não possui um comprovante físico individual verificável do próprio voto.
Na prática, toda a confiança do sistema depende:
- da integridade do software, que comumente falha e é substituído no meio da votação;
- da segurança dos códigos;
- das assinaturas digitais;
- dos protocolos internos;
- das auditorias conduzidas por técnicos autorizados;
- da estrutura centralizada da Justiça Eleitoral;
- da apuração sem participação e presença popular direta e transparente.
O eleitor comum, porém, não consegue verificar materialmente a contagem do próprio voto.
Para críticos, isso cria um problema estrutural de transparência pública:
a sociedade é obrigada a confiar integralmente em um sistema técnico que não pode ser auditado diretamente pela população.
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Alemanha virou referência mundial no debate sobre urnas eletrônicas
O caso mais emblemático dessa discussão ocorreu na Alemanha.
Em 2009, a Corte Constitucional alemã decidiu que o uso de urnas eletrônicas violava princípios constitucionais de transparência porque os cidadãos não conseguiam compreender e fiscalizar plenamente o processo eleitoral sem conhecimento técnico especializado.
A decisão não afirmou que existiam fraudes.
O ponto central foi outro:
em uma democracia, as etapas essenciais da eleição precisam ser verificáveis pelo cidadão comum — e não apenas por programadores, especialistas em criptografia ou autoridades institucionais.
Após a decisão, a Alemanha retornou majoritariamente ao voto em papel.
O caso passou a ser frequentemente citado por defensores de sistemas híbridos com auditoria física independente.
O avanço dos modelos híbridos e transparentes no mundo
Nos últimos anos, diversos países passaram a adotar modelos que combinam tecnologia eletrônica com rastreabilidade física do voto.
Nos Estados Unidos, muitos estados utilizam sistemas eletrônicos acompanhados de comprovantes físicos auditáveis.
Na Índia, considerada a maior democracia do planeta em número de eleitores, urnas eletrônicas passaram a incorporar mecanismos físicos de conferência em parte significativa do sistema.
Já a França restringiu fortemente o uso de urnas eletrônicas após debates envolvendo segurança e transparência.
O princípio por trás dessas mudanças é relativamente simples:
a eleição precisa ser não apenas segura, mas verificável publicamente.
O argumento do TSE
O TSE sustenta que o sistema brasileiro possui múltiplas camadas de segurança:
- criptografia;
- lacração física;
- testes públicos de invasão;
- auditorias;
- fiscalização por partidos;
- boletins de urna;
- rastreamento digital;
- verificação institucional.
A Corte também argumenta que não há histórico comprovado de fraude eleitoral envolvendo alteração direta do resultado das urnas eletrônicas brasileiras.
Defensores do modelo atual afirmam ainda que a introdução de comprovantes físicos poderia:
- aumentar custos;
- ampliar judicializações;
- elevar riscos logísticos;
- abrir espaço para coerção eleitoral;
- criar novas vulnerabilidades operacionais.
O debate que deve crescer a cada período eleitoral
Apesar da defesa institucional do sistema, a discussão sobre auditabilidade eleitoral tende a ganhar força nos próximos anos.
O avanço da Inteligência Artificial, da manipulação digital de conteúdo, dos deepfakes e da polarização política global aumentou a pressão internacional por mecanismos eleitorais mais transparentes e facilmente auditáveis pela sociedade civil.
No centro do debate está uma questão que ultrapassa tecnologia ou ideologia:
Em democracias modernas, a população deve apenas confiar que o sistema funciona — ou precisa conseguir verificar diretamente que ele funciona?
É justamente essa discussão que volta ao centro do cenário político brasileiro após a posse de Kassio Nunes no comando da Justiça Eleitoral.







