Os desdobramentos da operação Compliance Zero, que apura o escândalo do Banco Master, colocam em evidência a relação política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com a Amapá Previdência (Amprev). A autarquia, responsável pela previdência dos servidores públicos do estado, investiu cerca de R$ 400 milhões no banco de Daniel Vorcaro, hoje sob investigação por supostas irregularidades.
Alertas ignorados
Uma ata de reunião de 30 de julho de 2024 mostra que conselheiros da Amprev alertaram o então presidente da instituição, Jocildo Lemos — aliado político e indicado de Alcolumbre — sobre os riscos do investimento. Os conselheiros Gláucio Bezerra e Alexandre Flávio Monteiro destacaram problemas de governança, riscos políticos e recomendaram consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU) antes da aplicação. Mesmo assim, a proposta foi aprovada por unanimidade.
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Envolvimento de familiares
O irmão do senador, Alberto Alcolumbre, atuou como representante do governo no Conselho Estadual de Previdência em 2023 e 2024, e em 2025 passou a integrar o Conselho Fiscal da Amprev, responsável por fiscalizar a gestão financeira. Embora não seja investigado até o momento, sua presença reforça críticas sobre possível conflito de interesses e fragilidade na governança do fundo.
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Vínculos de Alcolumbre e Amprev
- O senador Davi Alcolumbre é apontado como tendo influência direta na Amapá Previdência (Amprev), presidida por Jocildo Lemos, seu aliado político.
- O irmão do senador, Alberto Alcolumbre, integra o Conselho Fiscal da Amprev, responsável por fiscalizar os investimentos.
- O fundo aplicou R$ 400 milhões em títulos do Banco Master, mesmo após alertas internos sobre os riscos.
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Investimentos e riscos
Em julho de 2024, a Amprev aplicou R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master, sem proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que representou cerca de 5% do patrimônio do fundo em papéis sem lastro. O caso tornou a Amprev o segundo fundo mais exposto à quebra do Master, atrás apenas do RioPrevidência (R$ 970 milhões). Decisões judiciais têm garantido o pagamento de aposentados e pensionistas enquanto o processo segue.
Defesa e posicionamentos
A assessoria de Davi Alcolumbre nega qualquer envolvimento direto nas indicações ou decisões da Amprev, classificando como “falsa e irresponsável” qualquer tentativa de vinculá-lo ao caso. Em nota oficial, a Amprev afirmou que os investimentos seguiram normas do Sistema Financeiro Nacional e da política de investimentos do RPPS. Após a liquidação extrajudicial do Master em novembro de 2025, a autarquia obteve decisão judicial para proteger os recursos, mantendo depósitos em conta específica no Banco do Brasil.
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Contexto político
O caso ganha contornos políticos porque cabe a Alcolumbre, como presidente do Congresso, autorizar ou barrar a instalação de uma CPMI para investigar o Banco Master. Uma decisão do ministro Dias Toffoli no STF chegou a colocar dados sigilosos do banco sob guarda exclusiva da Presidência do Senado, alimentando críticas da oposição sobre possível blindagem. Parlamentares como Carlos Viana (Podemos-MG) e Mauricio Marcon (PL-RS) apontam indícios de proteção política.
Escândalo ampliado
O escândalo do Master envolve cerca de R$ 1,9 bilhão aplicados por 18 fundos previdenciários estaduais e municipais. A oposição, liderada por nomes como Eduardo Girão (Novo-CE) e Carlos Jordy (PL-RJ), pressiona pela instalação da CPMI, vista como inevitável diante da dimensão do caso. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou dificuldades para abrir a comissão devido à fila de outros pedidos.
Investigação e possíveis responsabilizações
O Ministério Público do Amapá (MP-AP) abriu inquérito para apurar os investimentos e a compatibilidade com a política de previdência. Especialistas alertam para riscos de responsabilização civil e criminal por gestão temerária ou corrupção. A Polícia Federal, no âmbito da operação Compliance Zero, investiga a emissão de títulos sem lastro pelo Master e acumula evidências que ainda serão analisadas.
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Episódio anterior com Alberto Alcolumbre
O irmão do senador já havia sido notícia em 2022, quando foi conduzido pela Polícia Militar de São Paulo para explicar a origem de R$ 500 mil em espécie encontrados em um carro. As versões apresentadas foram contraditórias: inicialmente o motorista disse que seria para campanha política, mas Alberto alegou que se tratava de pagamento de honorários advocatícios. Ele negou qualquer ilegalidade, e Davi Alcolumbre afirmou que tomou conhecimento do caso apenas pela imprensa.
O caso Amprev-Master expõe fragilidades na gestão de fundos previdenciários estaduais, levanta suspeitas de ocupação política de estruturas estratégicas e coloca o presidente do Senado no centro de pressões políticas e institucionais. Com investigações em curso e a possibilidade de uma CPMI, o escândalo promete ser um dos principais temas do debate político em 2026.








