Novidades do caso do Banco Master, registros oficiais da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo comprovam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, utilizou ao menos oito voos em jatos executivos associados a empresas ligadas ao empresário Daniel Vorcaro ao longo de 2025 — período em que o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, recebeu cerca de R$ 80,2 milhões do Banco Master.
A combinação desses elementos — voos, estrutura empresarial e fluxo financeiro — cria um ponto de crítico que vai além da narrativa política: entra no campo de governança, conflito de interesse e rastreabilidade econômica, e da necessidade segundo especialistas do afastamento imediato de Moraes do STF, para investigações.
Os dados, publicados pela Folha de S.Paulo, apontam compatibilidade entre horários, aeronaves e registros de embarque no terminal executivo do Aeroporto Internacional de Brasília.
LEIA: Banco Central coloca sigilo absoluto em conversas com Moraes da Suprema Corte sobre Banco Master
Linha do tempo dos voos de Moraes e esposa
- 16 de maio de 2025: Moraes e sua esposa embarcam como únicos passageiros em aeronave da empresa Prime Aviation (prefixo PR-SAD), com destino ao Aeroporto de Congonhas.
- 22 de maio de 2025: Moraes viaja sozinho, novamente em aeronave da mesma operadora, com destino ao Aeroporto Executivo Catarina.
- 29 de maio de 2025: novo registro do casal, desta vez com outros passageiros, em aeronave prefixo PT-PVH.
- 9 de julho de 2025: embarque no mesmo horário de outros passageiros — incluindo Ronaldo Caiado — embora em aeronaves distintas; o voo subsequente disponível segue vinculado ao mesmo grupo empresarial.
- Agosto de 2025 (dias 1 e 20): dois deslocamentos adicionais rumo a São Paulo, em jatos operados pela Prime Aviation.
- 7 de agosto de 2025: voo em aeronave Falcon 2000 pertencente a empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Esse ponto é sensível: a empresa não possui autorização formal para operar como táxi aéreo, portanto não poderia ser contratada por terceiros, como afirmou a esposa de Moraes.
- 16 de outubro de 2025: último voo identificado, em aeronave prefixo PP-BIO, com destino ao aeroporto Catarina.
SAIBA: Vorcaro procurou Moraes para tentar salvar o Banco Master horas antes da prisão, mostram mensagens
O ponto crítico: conexão indireta com o Banco Master
Os voos ocorreram meses antes da liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025 — evento que reposicionou o caso no radar do mercado devido a alegação do BC de fraude financeira.
No mesmo período, o escritório de Viviane Barci de Moraes recebeu aproximadamente R$ 80,2 milhões por supostos serviços jurídicos prestados à instituição ao longo de 22 meses, conforme contratos tornados públicos a partir de dezembro.
Aqui está o núcleo do escândalo institucional e regulatório:
- Uso de aeronaves associadas a um grupo empresarial ligado ao banco em investigação
- Prestação simultânea de supostos serviços jurídicos relevantes à mesma instituição, com recebimento de somas financeiras vultuosas “fora da curva” da história da advocacia brasileira.
- Ausência de clareza imediata sobre a natureza comercial vs. relacional dessas operações, e sem apresentação de documentação que comprove os pagamentos como manda a legislação brasileira.
Não há, por si só, ilegalidade automática nesses elementos — mas o conjunto cria um vetor clássico de escrutínio de conflito de interesse percebido.
AINDA: Moraes da Suprema Corte também tentou interferir na PF sobre fraude do Banco Master
O ponto mais sensível: negação com contradição versus evidência direta da ANAC
O gabinete de Moraes afirma:
“O ministro jamais viajou em avião de Daniel Vorcaro”
Já o escritório de sua esposa:
- confirma uso de táxi aéreo, incluindo a Prime Aviation
- afirma que os voos foram contratados
- nega relação com os proprietários das aeronaves
Onde está a fricção
Os registros indicam:
- embarques coincidentes de Moraes e sua esposa com documentação da ANAC, se não embarcou com a esposa no avião de Vorcaro, embarcou em qual aviação, onde estão as provas que rebatam a ANAC?
- uso recorrente de aeronaves associadas a empresas com participação de Daniel Vorcaro, durante período de investigação do Banco e conforme apontam mensagens obtidas pela Polícia Federal.
Isso cria um alerta objetivo:
- Moraes nega ter viajado em aviões ligados ao empresário, mas não diz em que avião viajou no mesmo dia e horário, visto que a ANAC documentou seu embarque.
- O escritório da esposa admite contratação de voos dessas operadoras, mas não apresenta documentos que comprovem o contrato e o pagamento.
- Os documentos indicam presença do ministro nos mesmos deslocamentos da esposa, eles não tem provas contrárias aos documentos obtidos pela Folha.
Tecnicamente, não é a mesma afirmação — mas também não são versões plenamente alinhadas, e carecem de documentos para rebater os documentos da Folha.
LEIA: “Conseguiu bloquear?”: CPMI liga mensagens a número do STF e pressiona por afastamento de Moraes
Onde surge a inconsistência técnica
O problema não é necessariamente a presença física do empresário — e sim a estrutura econômica por trás das aeronaves.
- As aeronaves utilizadas estão associadas a empresas com participação de Vorcaro
- O escritório admite contratação da operadora
- O ministro nega ligação com o empresário
Em termos práticos:
É possível não viajar “com” o empresário, mas ainda assim utilizar ativos economicamente ligados ao grupo dele, configurando fato gravíssimo.
O que sustenta a gravidade dos fatos
O escritório afirma que os voos foram pagos.
Mas até aqui, o escritório não apresenta:
- valores individuais dos voos
- contratos específicos dessas operações
- forma detalhada de pagamento (além da menção genérica a compensação de honorários, empresas sérias não realizam compensações sem documentação fiscal adequada)
Em qualquer análise de governança — ainda mais envolvendo um ministro do STF — isso abre uma lacuna crítica:
a comprovação material da natureza comercial da relação
Leitura de mercado e dos brasileiros
Esse tipo de caso raramente é sobre o fato isolado — é sobre assimetria de informação.
O que operadores experientes olham aqui:
- Estrutura de propriedade das aeronaves
Em aviação executiva, é comum o uso de holdings e empresas intermediárias. Isso dilui a rastreabilidade direta — e complica a distinção entre “serviço contratado” e “ativo vinculado a um grupo econômico”. - Regulação de táxi aéreo vs. uso privado
O voo em aeronave sem autorização para táxi aéreo é um ponto técnico relevante. Se confirmado, desloca a discussão de narrativa para possível infração operacional, onde uma autoridade da Suprema Corte está envolvida. - Timing com evento de crédito
A liquidação do Banco Master não é detalhe. Em mercado, timing é sinal. Relações anteriores ao evento passam a ser reinterpretadas sob lente de risco. - Materialidade financeira
R$ 80,2 milhões em honorários não é cifra trivial. Isso eleva o nível de diligência das autoridades brasileiras esperado sobre qualquer interação paralela.







