Recusa do governo brasileiro em conceder vistos a enviados americanos e atraso na aprovação do novo embaixador indicado por Donald Trump transformaram um impasse diplomático em uma crise sem precedentes recentes entre Brasília e Washington, às vésperas das eleições presidenciais.
A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou nesta terça-feira em um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Agora o Brasil sem embaixadora. O governo do presidente Donald Trump revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em uma decisão apresentada pelo Departamento de Estado como resposta direta à negativa do governo Lula em conceder vistos a dois diplomatas americanos e ao atraso na aprovação do novo embaixador indicado pelos Estados Unidos para atuar em Brasília, Daniel Peres.
Segundo autoridades americanas, a medida segue o princípio da reciprocidade diplomática e havia sido adiada diversas vezes para permitir uma solução negociada entre os dois governos. Como não houve mudança na posição brasileira, Washington decidiu avançar com a revogação do visto. Mas agora o Brasil está sem embaixadora.
Embora autoridades americanas tenham indicado que a medida pode ser revertida caso o Brasil mude sua posição, o episódio representa uma escalada rara na relação entre dois países que tradicionalmente mantêm canais diplomáticos abertos mesmo em períodos de divergências políticas.
A embaixadora não foi expulsa do país, apenas perdeu o visto para desenvolver o trabalho diplomático do Brasil. Poderá ficar no país caso possua outro tipo de visto válido.
Como a crise começou que deixou o Brasil sem embaixadora
Diferentemente da percepção inicial de que a crise teria começado com a decisão do governo Trump, a sequência dos acontecimentos mostra que o impasse diplomático teve origem semanas antes.
O primeiro episódio ocorreu quando o governo Lula negou vistos a Riley Barnes, secretário de Estado adjunto para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e a um de seus principais assessores.
Segundo o Departamento de Estado, a missão tinha como objetivo reuniões com integrantes do governo brasileiro, representantes da sociedade civil e líderes religiosos para discutir temas como integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
O governo Lula, afirmou que a visita poderia representar uma interferência em assuntos internos às vésperas da eleição presidencial, a qual Lula irá buscar reeleição, e decidiu negar os vistos.
O segundo ponto de atrito
Além da negativa aos diplomatas, Brasília também manteve sem aprovação o nome de Danny Perez, indicado por Donald Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Nos bastidores, autoridades americanas afirmaram que aguardaram durante semanas uma definição do governo brasileiro antes de adotar qualquer medida de resposta.
Sem avanço nas negociações, Washington decidiu aplicar o princípio da reciprocidade.
“Reciprocidade é a regra do jogo”, afirmou uma autoridade do Departamento de Estado ao justificar a decisão.
Uma escalada construída passo a passo
A revogação do visto da embaixadora brasileira não ocorre de forma isolada.
Ela se soma a uma série de episódios que elevaram rapidamente a tensão entre os dois governos nos últimos meses:
- aumento das tarifas americanas sobre milhares de produtos brasileiros;
- investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra práticas atribuídas a diversos países e Brasil;
- classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelos EUA;
- negativa brasileira de vistos a diplomatas americanos;
- atraso de mais de ano na aprovação do novo embaixador indicado por Washington;
- resposta americana baseada no princípio da reciprocidade.
O conjunto dessas medidas mostra que a relação bilateral passou a envolver simultaneamente disputas comerciais, políticas e diplomáticas.
O que significa a revogação do visto
Na prática, a decisão representa um endurecimento da posição americana diante do impasse diplomático.
O Departamento de Estado afirmou que a medida poderá ser revertida caso o governo Lula aprove o indicado americano para a embaixada em Brasília e normalize a situação diplomática entre os dois países. Os EUA está sem embaixador no Brasil desde janeiro de 2025 por não liberação do governo Lula até o momento.
Em mais de 200 anos de relações diplomáticas nunca ocorreu nada parecido. Especialistas afirmam que Lula parece querer manter os representantes americanos longe do Brasil até o final das eleições brasileiras, o que levanta muitos questionamentos.
Até lá, a crise permanece aberta e adiciona um novo elemento de tensão ao relacionamento bilateral.
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O contraste com eleições anteriores
O atual impasse também chama atenção pelo contexto político.
Nas eleições presidenciais de 2022, apesar das diferenças entre os governos de Jair Bolsonaro e Joe Biden, não houve uma crise diplomática semelhante envolvendo a negativa de vistos a diplomatas americanos nem um impasse dessa natureza relacionado à chefia das representações diplomáticas.
Agora, a deterioração ocorre a menos de dois meses das eleições brasileiras, ampliando a sensibilidade política de cada movimento adotado pelos dois governos.
A crise deixa de ser apenas um impasse diplomático e passa a afetar canais de negociação entre Brasília e Washington em um momento delicado para a economia brasileira.
A representação brasileira nos Estados Unidos desempenha papel central em negociações comerciais, defesa de interesses empresariais, diálogo político de alto nível e articulação de temas estratégicos, como tarifas, investimentos, cooperação em segurança e acordos bilaterais.
Com o relacionamento institucional deteriorado, qualquer tentativa de reduzir as tensões comerciais ou construir uma agenda comum tende a se tornar mais difícil justamente quando empresas brasileiras ainda enfrentam os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
A cronologia da deterioração
Como a relação chegou a esse ponto
Maio
- Flávio e Eduardo Bolsonaro visitam Washington.
Junho
Julho
Julho
- Brasil nega vistos aos diplomatas americanos.
Julho
- Governo brasileiro mantém pendente a aprovação do novo embaixador americano.
Agosto
- Washington responde revogando o visto da embaixadora brasileira.
Essa linha do tempo ajuda o leitor a entender que o episódio não surgiu de forma isolada.
Quem perde com a crise
- Exportadores brasileiros.
- Empresas que negociam com os EUA.
- Investidores que esperavam redução das tensões.
- O próprio governo brasileiro, que perde margem de negociação diplomática.
- A relação institucional entre as duas maiores economias do continente.
O que pode acontecer agora
Nos bastidores diplomáticos, três cenários são considerados os mais prováveis:
- o governo brasileiro aprova o novo embaixador indicado pelos Estados Unidos e reduz a tensão;
- o impasse permanece até depois das eleições presidenciais brasileiras, e então a credibilidade do processo eleitoral poderá ficar muito prejudicada no Brasil e exterior;
- novas medidas de reciprocidade são adotadas caso não haja avanço nas negociações.
Independentemente do desfecho, a crise já representa um dos episódios diplomáticos mais sensíveis da relação entre Brasil e Estados Unidos nos últimos anos, ao combinar divergências comerciais, eleitorais e institucionais em um momento de elevada tensão política para ambos os governos.







