Pesquisa mostra inversão em relação a 2022: preferência por menos tributos passou de 46% para 50%, no mesmo momento em que o país bate recorde de brasileiros pagando plano de saúde particular
O brasileiro paga uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo em relação ao tamanho da economia na gestão do governo Lula — e, ainda assim, uma nova pesquisa do Datafolha mostra que ele prefere pagar menos, não mais. Pela primeira vez desde 2022, a maioria da população diz não estar disposta a trocar imposto mais alto por promessa de serviço público gratuito. O dado aparece ao lado de outro sintoma do mesmo problema: mesmo já financiando o SUS via impostos, um número recorde de brasileiros paga, à parte, por plano de saúde privado. A arrecadação bate recorde histórico, a reforma tributária começa a sair do papel, e o país discute, mais uma vez, quanto o Estado deveria cobrar — e o que deveria entregar em troca.
Resumo
- 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos, mesmo que isso signifique não ter acesso gratuito a serviços como saúde e educação — segundo pesquisa Datafolha.
- 44% preferem pagar mais impostos em troca de serviços públicos gratuitos.
- Em 2022, o cenário era o oposto: 48% queriam pagar mais impostos por serviços gratuitos, contra 46% que preferiam pagar menos.
- Entre homens, 56% preferem pagar menos impostos; entre mulheres, a distribuição é mais equilibrada (44% x 50%).
- O recorte por intenção de voto mostra a maior divergência: 65% dos eleitores de Flávio Bolsonaro preferem pagar menos impostos, contra 35% dos eleitores de Lula.
- A pesquisa ouviu 2.004 pessoas presencialmente, em 139 municípios, nos dias 17 e 18 de junho de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais.
O que mostra a pesquisa Datafolha sobre impostos e serviços públicos
Segundo levantamento do instituto Datafolha, 50% dos brasileiros afirmam preferir pagar menos impostos, mesmo que isso signifique não contar com serviços públicos gratuitos de qualidade em áreas como saúde e educação. Outros 44% dizem preferir o caminho inverso: pagar mais tributos para ter acesso gratuito a esses serviços.
O dado chama atenção por representar uma inversão de tendência. Em uma pesquisa semelhante feita em 2022, o resultado era o oposto: 48% da população preferia pagar mais impostos em troca de serviços gratuitos, contra 46% que já defendiam pagar menos tributos. Ou seja, em quatro anos, a preferência por uma carga tributária menor cresceu 4 pontos percentuais, enquanto o apoio à troca de mais imposto por serviço gratuito caiu 4 pontos.
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Recorte por gênero e por intenção de voto
A pesquisa também traz recortes que ajudam a entender onde essa preferência é mais forte:
| Grupo | Prefere pagar menos impostos | Prefere pagar mais impostos (serviço gratuito) |
|---|---|---|
| Homens | 56% | — |
| Mulheres | 44% | 50% |
| Eleitores de Lula | 35% | 59% |
| Eleitores de Flávio Bolsonaro | 65% | 29% |
O maior contraste aparece no recorte eleitoral: entre quem declara voto em Lula, a maioria (59%) prefere pagar mais impostos por serviços públicos gratuitos — praticamente o espelho do resultado entre eleitores de Flávio Bolsonaro, dos quais 65% preferem pagar menos tributos.
Ficha técnica da pesquisa
A pesquisa foi realizada de forma presencial nos dias 17 e 18 de junho de 2026, com 2.004 eleitores de 16 anos ou mais, em 139 municípios brasileiros. A margem de erro máxima para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95% — o intervalo de erro é maior nos recortes específicos da população (por gênero, região ou intenção de voto). O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09956/2026.
Por que essa mudança de opinião importa para quem acompanha a economia
A preferência por pagar menos impostos não surge no vácuo: ela aparece em um momento em que a carga tributária brasileira está em patamar recorde. Segundo o Tesouro Nacional, a carga tributária bruta do governo geral (União, estados e municípios) chegou a 32,4% do PIB em 2025, o maior valor da série histórica iniciada em 2010. Em metodologias que incluem FGTS e Sistema S, o índice se aproxima de 34% do PIB — patamar que coloca o Brasil entre as maiores cargas tributárias do mundo em proporção ao tamanho da economia, à frente de países como Estados Unidos e Coreia do Sul.
Na prática, esse peso tributário significa que boa parte do ano de trabalho do brasileiro médio é destinada só ao pagamento de tributos — cálculo que instituições como o IBPT vêm divulgando anualmente e que costuma superar 140 dias de trabalho “dedicados ao Fisco”.
Esse é o pano de fundo em que a pesquisa do Datafolha aparece: o crescimento da rejeição a mais impostos ocorre justamente quando a arrecadação bate recorde, e coincide com o início do debate público sobre a implementação da reforma tributária (CBS e IBS) do governo Lula, que deve entrar em vigor de forma gradual a partir de 2026 e ainda gera incerteza sobre se, na prática, vai reduzir ou apenas reorganizar a carga.
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“Gratuito” nem sempre significa “acessível”: o que mostram os dados sobre filas no SUS
Um fator que ajuda a contextualizar a preferência por pagar menos impostos é a distância entre o serviço público formalmente gratuito e o serviço efetivamente acessado quando o cidadão precisa dele. No caso da saúde, dados do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), do Ministério da Saúde, mostram que o tempo médio de espera por cirurgias eletivas subiu de 31 dias em 2019 para cerca de 51 a 52 dias nos anos recentes. Em especialidades específicas, a espera é bem maior: levantamentos de imprensa com base nesses dados mostram médias de até 188 dias para cirurgias oncológicas em alguns estados, e a fila para cirurgias de catarata chega a ficar na casa de dois anos em parte do país. A fila de espera por cirurgias no SUS como um todo cresceu 26% em 2024, segundo dados hospitalares.
Vale registrar o contraponto oficial: o Ministério da Saúde afirma ter reduzido filas em iniciativas recentes e destaca que 2025 fechou com mais de 14 milhões de procedimentos eletivos realizados — alta de 37% em relação a 2022. Ou seja, o sistema tem entregado mais volume de atendimento, mesmo que o tempo médio de espera para parte dos procedimentos ainda seja alto. As duas informações não se anulam: é possível haver recorde de atendimentos e, ao mesmo tempo, fila crescente, quando a demanda represada cresce mais rápido que a capacidade de atendimento.
O paradoxo do plano de saúde: pagar duas vezes pelo mesmo tipo de serviço
Esse hiato entre gratuidade formal e acesso na prática ajuda a explicar outro dado relevante para quem pensa em termos financeiros: mesmo já financiando o SUS via impostos, um número recorde de brasileiros paga, do próprio bolso ou por meio do empregador, um plano de saúde privado. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Brasil chegou a 53 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares em 2025/2026 — o maior patamar da série histórica, iniciada em 2000. Ou seja, cerca de um quarto da população paga por um serviço que, em tese, já é coberto pelos tributos que também recolhe.
É importante fazer uma ressalva estatística: parte desse crescimento vem de planos coletivos empresariais, oferecidos como benefício por empregadores — modalidade que hoje responde por mais de 73% dos vínculos ativos e vem crescendo junto com a geração de empregos formais. Isso significa que nem todo o aumento reflete uma escolha individual e consciente de “pagar duas vezes” para fugir da fila do SUS: parte é reflexo do mercado de trabalho aquecido, que amplia o acesso a esse benefício via emprego CLT. Ainda assim, o tamanho da base de beneficiários — e o fato de ela crescer mesmo com a carga tributária em recorde — é um dado consistente com a ideia de que parte da população não considera o SUS uma alternativa suficiente quando surge uma necessidade de saúde, preferindo ter, adicionalmente, a opção de pagar por atendimento mais rápido.
Duas leituras possíveis para o resultado
Como em qualquer pesquisa de opinião sobre tema fiscal, o resultado admite mais de uma interpretação, e por isso vale apresentar os dois lados do debate:
- Para quem defende menos tributação, o resultado reflete a percepção de baixo retorno do dinheiro público: o brasileiro pagaria uma das maiores cargas tributárias relativas do mundo, mas teria acesso a serviços de saúde, educação e segurança considerados aquém do que economias com carga semelhante entregam — leitura à qual os dados de fila do SUS e o crescimento recorde de planos de saúde privados, apresentados acima, dão algum lastro factual.
- Para quem defende a manutenção ou elevação da arrecadação, o resultado pode refletir menos uma rejeição ao Estado de bem-estar social e mais um efeito de curto prazo ligado à pressão do custo de vida no orçamento das famílias, em um cenário de arrecadação recorde e debate público intenso sobre reforma tributária.
Nenhuma das duas leituras é comprovada isoladamente pelos números da pesquisa, que medem apenas a preferência declarada, não as razões por trás dela.
Perguntas frequentes
Quantos brasileiros preferem pagar menos impostos, segundo o Datafolha?
De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada em julho de 2026, 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos, mesmo sem acesso gratuito a serviços públicos como saúde e educação. Outros 44% preferem pagar mais impostos em troca desses serviços.
Esse resultado mudou em relação a pesquisas anteriores?
Sim. Em 2022, o resultado era o oposto: 48% preferiam pagar mais impostos por serviços gratuitos, contra 46% que já preferiam pagar menos tributos.
Existe diferença de opinião entre eleitores de diferentes candidatos?
Sim. Entre eleitores de Lula, 59% preferem pagar mais impostos por serviços gratuitos. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 65% preferem pagar menos impostos — um padrão praticamente invertido entre os dois grupos.
Qual é a carga tributária atual do Brasil?
Segundo o Tesouro Nacional, a carga tributária bruta do governo geral atingiu 32,4% do PIB em 2025, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Em metodologias mais amplas, o índice chega perto de 34% do PIB.
Qual a margem de erro da pesquisa Datafolha?
A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%, considerando os 2.004 entrevistados no total da amostra. Os recortes por subgrupo (gênero, intenção de voto) têm margem de erro maior.
Fontes: Datafolha; Tesouro Nacional; Agência Brasil; TSE (registro BR-09956/2026); Sistema Nacional de Regulação (Sisreg)/Ministério da Saúde; Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Matéria produzida com base em dados públicos de pesquisa de opinião e estatísticas oficiais. Resultados de pesquisas eleitorais estão sujeitos a margem de erro e podem não se repetir em levantamentos futuros.



