A revista britânica The Economist publicou nesta semana um alerta contundente sobre a economia brasileira, destacando uma aparente contradição estrutural no desempenho macro do que divulga o governo Lula: embora o Brasil registre crescimento anual próximo a 3%, inflação relativamente estável e desemprego em níveis historicamente baixos, a execução econômica do país estaria sendo sufocada por interesses arraigados e distorções institucionais que travam reformas e dificultam o aproveitamento pleno de seu potencial produtivo e fiscal.
Entraves institucionais: privilégios constitucionais e regimes tributários complexos travam reformas.
The Economist
Segundo a publicação, o desempenho positivo em indicadores de curto prazo convive com uma trajetória fiscal insustentável e uma série de entraves legais e tributários. A dívida pública bruta, em escalada, poderia atingir cerca de 99% do PIB até 2030 — muito acima dos níveis de 2010 e significativamente maior que a média de emergentes — colocando sob pressão a confiança dos mercados e a capacidade de investimento privado.
Especialistas financeiros também alertam para uma recessão iminente. “Não estamos na unidade de terapia intensiva, mas estamos caminhando para isso”, disse à revista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, aliado a Lula.
Desequilíbrio fiscal além dos números publica a The Economist
O diagnóstico de The Economist vai além da simples leitura dos agregados: o déficit nominal elevado — superior a 8% do PIB — é composto em grande parte pelo custo dos juros da dívida. Essa dinâmica fiscal tem forçado o Banco Central a manter juros reais entre os mais altos do mundo, comprometendo o fluxo de investimentos privados e limitando a expansão produtiva.
“Não estamos na unidade de terapia intensiva, mas estamos caminhando para isso”, disse à revista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, aliado a Lula.
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, aliado a Lula.
Embora programas sociais e gastos em saúde e educação estejam alinhados com os padrões internacionais, o grande nó está nas rigidezes constitucionais e nos privilégios incorporados ao sistema. A Constituição brasileira amarra aumentos automáticos de pensões ao salário mínimo e impõe barreiras de alteração de benefícios, criando um ambiente em que reformas profundas se chocam com vetores políticos e judiciais de difícil contorno.
Trajetória da dívida: dívida pública poderia atingir ~99% do PIB até 2030, acima da média de emergentes
The Economist
Sistema tributário e grupos de interesse
Outro elemento destacado é o sistema tributário excessivamente complexo. Com uma arrecadação superior a 30% do PIB, o Brasil figura entre os países com maior carga tributária, mas essa arrecadação concentra-se em uma multiplicidade de regimes e isenções que fragmentam a base tributária e geram custos de conformidade altos para empresas de todos os portes. Estimativas citadas na análise mostram que a complexidade tributária custa ao país parcelas relevantes de crescimento potencial.
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Os grupos de interesse, por sua vez, são apontados como atores que capturam partes do orçamento e orientam as regras a seu favor, criando distorções que favorecem setores específicos à custa de uma agenda de reformas mais ampla — uma dinâmica que, na leitura da revista, reduz a credibilidade fiscal e dificulta pactos de ajustamento sustentáveis.
Crescimento econômico não basta: crescimento de ~3% mascarado por déficits e rigidezes fiscais.
Eleições de outubro como nó decisivo
O artigo de The Economist coloca as eleições gerais de 2026 como um ponto de inflexão para o país. Segundo os autores, o resultado do pleito dependerá tanto de temas sociais sensíveis — como segurança pública — quanto da capacidade dos futuros legisladores de enfrentar interesses arraigados que travam mudanças estruturais. Sem esse enfrentamento, a revista defende que o país pode continuar a operar abaixo de seu potencial, com crescimento limitado e vulnerabilidades fiscais persistentes.



