Áudio apreendido pela PF revela que Vorcaro do Banco Master “tinha apoio de Lula e do PT”

Gravação encontrada no celular de Daniel Vorcaro foi enviada dois dias após o anúncio da venda de 58% do Banco Master ao BRB; mensagens obtidas pela investigação mostram sucessivas referências a Lula, ao PT e a articulações políticas enquanto a operação aguardava aval do Banco Central

Um áudio encontrado pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acrescenta uma nova peça aos bastidores políticos da tentativa de salvar a instituição financeira.

Na gravação, enviada em 30 de março de 2025, o advogado Walfrido Warde afirma ao então banqueiro que seu apoio político “vinha do presidente”, em referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e relata uma tentativa de enfraquecer a sustentação que Vorcaro teria dentro do PT.

A mensagem foi enviada apenas dois dias depois de o Banco de Brasília, o BRB, anunciar a compra de 58,04% do capital total do Master — operação que ainda dependia da autorização do Banco Central.

Segundo reportagem publicada pela revista Veja neste domingo (18), Lula foi mencionado em pelo menos 20 mensagens encaminhadas por Warde a Vorcaro entre abril de 2023 e julho de 2025.

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Resumo Executivo

  • Áudio apreendido pela PF registra Warde dizendo a Vorcaro que seu apoio “vinha do presidente”.
  • A gravação foi enviada em 30 de março de 2025, dois dias após o anúncio da compra de 58,04% do Master pelo BRB.
  • A transação ainda dependia da aprovação do Banco Central.
  • Segundo a Veja, Lula aparece em pelo menos 20 mensagens enviadas por Warde a Vorcaro entre 2023 e 2025.
  • Vorcaro foi recebido por Lula no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, em encontro fora da agenda oficial.
  • Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do Banco Central, também participou da reunião.
  • O Banco Central posteriormente rejeitou a compra pelo BRB e, meses depois, decretou a liquidação do Master.
  • O áudio comprova o que o advogado dizia ao banqueiro, mas não prova, isoladamente, que Lula tenha determinado qualquer decisão do Banco Central.

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“Já entenderam que o teu apoio vem do presidente”

No áudio revelado pela Veja, Warde comenta com Vorcaro uma movimentação da imprensa em torno das relações políticas do Banco Master.

Segundo o advogado, o objetivo seria enfraquecer a sustentação que o então banqueiro teria dentro do PT.

“A Globo tá querendo, basicamente, quebrar o teu apoio interno dentro do PT. Entendeu? É isso que eles querem. Eles querem tirar o apoio do presidente. Já entenderam que o teu apoio vem do presidente. Então eles querem tirar o teu apoio”, afirmou Warde.

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O peso da declaração está principalmente no momento em que ela foi feita.

Dois dias antes, em 28 de março de 2025, o Conselho de Administração do BRB havia aprovado a aquisição de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, equivalentes a 58,04% do capital total da instituição.

A operação, porém, não estava concluída.

Dependia da autorização do Banco Central.

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Lula aparece repetidamente nas mensagens

De acordo com a Veja, a referência ao presidente não foi um episódio isolado.

As mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram Warde mencionando Lula sucessivamente ao longo de mais de dois anos.

Em abril de 2024, o advogado afirmou ao banqueiro que conseguiria uma audiência com o presidente.

Em outra mensagem, disse ter acabado de sair de uma reunião com Lula e relatou que o presidente havia perguntado sobre um e-mail enviado por Vorcaro.

Também há registro de Warde dizendo ter conversado “longamente” com Lula.

As mensagens revelam, portanto, uma tentativa contínua de construir ou preservar canais de interlocução política enquanto o Master enfrentava crescente pressão financeira.

Vorcaro foi recebido por Lula fora da agenda oficial

Daniel Vorcaro efetivamente esteve no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024.

O encontro com Lula não constou da agenda oficial do presidente e só se tornou público posteriormente.

Também participaram da reunião Guido Mantega, Augusto Lima e Gabriel Galípolo, que naquele momento já havia sido indicado para assumir a presidência do Banco Central.

A presença de Galípolo ganhou relevância posteriormente porque a autoridade monetária seria justamente responsável por analisar a operação entre BRB e Banco Master.

A versão apresentada por interlocutores do governo foi de que Lula ouviu as questões apresentadas pelo banqueiro e teria afirmado que eventuais assuntos técnicos deveriam ser tratados pelo Banco Central.

Entre abril de 2023 e julho de 2025, Warde mencionou Lula em pelo menos 20 mensagens enviadas ao ex-banqueiro. 

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Mensagens mencionam tentativa de novo encontro

Segundo a reportagem, as articulações continuaram depois da reunião de dezembro.

Em janeiro de 2025, Warde novamente afirmou que havia estado com Lula.

Em março, uma mensagem dizia que o presidente aceitaria receber Vorcaro novamente, dessa vez com participação do senador Jaques Wagner.

O Palácio do Planalto afirma que esse segundo encontro não aconteceu.

Warde também escreveu que Lula lhe telefonaria para acertar uma data.

Não há registro público de que uma nova audiência tenha efetivamente ocorrido.

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Operação com o BRB poderia dar uma saída ao Master

A negociação com o BRB representava uma possibilidade de reorganização para o Banco Master em meio à deterioração de sua situação financeira.

O BRB é uma instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.

O acordo previa a aquisição de 58,04% do capital total do Master e colocaria uma parcela relevante dos ativos e operações do banco sob controle do banco público.

Mas qualquer avanço dependia do Banco Central.

É justamente nesse período que as mensagens mostram o entorno de Vorcaro discutindo apoio político, acesso ao presidente e interlocução com integrantes do PT.

Em um grupo chamado “Amigos”, o advogado escreveu: 

“Nós vamos quebrar tudo” e pediu: “Avisa o chefe por favor”.

Em agosto, Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, perguntou a Vorcaro se Lula apoiava a operação. O banqueiro sugeriu tratar do assunto por “Edinho”, em provável referência a Edinho Silva, presidente do PT. 

“Melhor via ele e não expor o presidente [Lula]”, escreveu.

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Apoio presidencial também apareceu em conversa dentro do BRB

Segundo o material divulgado, a percepção de que o apoio de Lula poderia ser importante para a operação não aparecia apenas nas conversas de Warde.

Em agosto de 2025, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, teria perguntado diretamente a Vorcaro se Lula apoiava ou não o negócio.

Vorcaro teria sugerido encaminhar a questão por meio de “Edinho”, numa provável referência a Edinho Silva, presidente nacional do PT.

A orientação registrada na conversa seria evitar envolver diretamente o presidente.

O episódio não demonstra que Lula tenha interferido no Banco Central.

Mostra, porém, que o eventual respaldo político do presidente era tratado pelos envolvidos como informação relevante para o destino da operação.

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Banco Central barrou a compra

Apesar das articulações relatadas nas mensagens, o negócio não foi aprovado.

Em setembro de 2025, o Banco Central rejeitou formalmente a aquisição do Master pelo BRB.

A operação, portanto, nunca foi concluída.

Meses depois, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas de seu conglomerado.

A autoridade monetária apontou grave crise de liquidez, deterioração significativa da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

O desfecho é importante para a análise dos fatos: mesmo com as articulações políticas descritas nas mensagens, o Banco Central terminou impedindo a operação e posteriormente liquidando a instituição.

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Caso Master deixou impacto bilionário para o FGC

A dimensão do problema ficou ainda mais evidente após a liquidação.

O Fundo Garantidor de Créditos precisou reservar dezenas de bilhões de reais para ressarcir depositantes e investidores das instituições ligadas ao conglomerado Master que estavam cobertos pela garantia.

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O FGC é uma entidade privada financiada principalmente pelas próprias instituições financeiras participantes do sistema.

Portanto, os pagamentos não representam gasto direto do Tesouro Nacional.

Mesmo assim, um evento dessa magnitude reduz de maneira relevante o colchão financeiro criado justamente para proteger clientes e preservar a confiança no sistema bancário em casos de quebra de instituições.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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