Investigada pela Polícia Federal afirma ter informações além das mensagens já apreendidas, acusa Lula de mentir sobre a atuação do filho dentro do governo e relata ameaças contra ela e as filhas; presidente e defesa de Lulinha negam irregularidades
A empresária e lobista do INSS, Roberta Luchsinger anunciou delação na investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ao afirmar que pretende negociar um acordo de colaboração premiada e que, caso isso aconteça, não pretende poupar nem o filho do presidente nem o próprio Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à CNN Brasil exibida neste sábado (17), Roberta disse possuir informações que vão além das mensagens de WhatsApp já em poder dos investigadores. Também afirmou ter presenciado Lulinha convivendo e se reunindo com integrantes do governo e acusou Lula de faltar com a verdade ao negar o trânsito do filho entre ministros.
A entrevista ocorre a oito dias do segundo turno da eleição presidencial e provocou reação imediata do presidente e da defesa de Lulinha, que negaram irregularidades e contestaram as declarações da empresária.
Resumo Executivo
Roberta Luchsinger:
- afirmou que pretende buscar um acordo de colaboração premiada;
- disse que não poupará Lula nem Lulinha caso a delação avance;
- afirmou ter informações além das mensagens já conhecidas pelos investigadores;
- relatou ter visto Lulinha “inúmeras vezes” com ministros;
- afirmou que ministros a procuravam para conseguir agendas ou prioridade para projetos junto ao governo;
- acusou Lula de mentir sobre a atuação do filho;
- relatou receber dezenas de ameaças de morte e disse que suas filhas também passaram a ser ameaçadas;
- acusou o presidente de usar a exposição proporcionada pelo cargo contra ela.
Lula afirma desconhecer os fatos relatados e diz jamais ter mantido interlocução com Roberta. A defesa de Lulinha sustenta que ele não cometeu irregularidades e que suas relações com ministros sempre foram pessoais.
Roberta diz que quer delação: “Não vou poupar ninguém”
O ponto de maior consequência jurídica da entrevista foi a afirmação de Roberta de que deseja negociar um acordo de colaboração premiada.
Questionada sobre se estaria disposta a contar às autoridades fatos envolvendo Lula e Lulinha, afirmou que não pretende poupar ninguém.
Segundo Roberta, existem detalhes que não aparecem nas conversas de WhatsApp já obtidas pelos investigadores e que poderiam ser apresentados em uma eventual colaboração.
A declaração, porém, precisa ser colocada em sua dimensão correta: Roberta anunciou a intenção de fazer uma delação, mas isso não significa que exista atualmente um acordo de colaboração premiada firmado ou homologado pela Justiça.
Para produzir consequências jurídicas, uma eventual proposta terá de ser negociada com as autoridades e acompanhada de elementos capazes de sustentar as informações apresentadas.
“Inúmeras vezes”: Lobista do INSS diz que Lulinha esteve com ministros
Roberta também confrontou diretamente a versão apresentada por Lula sobre a atuação do filho.
Segundo ela, Lulinha esteve “inúmeras vezes” com integrantes do primeiro escalão do governo.
A empresária citou inclusive a relação de Fábio Luís com o ministro da Educação, Camilo Santana, e afirmou que o filho do presidente chegou a viajar para a casa do ministro no Ceará.
O simples encontro de um filho do presidente com integrantes do governo não configura irregularidade.
A questão relevante para as investigações é outra: o que era discutido nesses encontros e se relações pessoais ou políticas foram utilizadas para favorecer interesses empresariais privados.
Roberta sustenta que Lula sabe que esses contatos existiam.
A defesa de Lulinha afirma que suas relações com políticos e pessoas que se tornaram ministros decorrem de convivência pessoal antiga e não envolveram qualquer troca ilegal ou não republicana.
Ministros procuravam Roberta para conseguir agenda com Lula, segundo ela
Outro trecho importante da entrevista ajuda a dimensionar o nível de influência que Roberta afirma possuir dentro do governo.
Ela disse que ministros a procuravam para pedir ajuda para conseguir uma agenda com Lula ou prioridade para determinados projetos.
Questionada sobre quem fazia esses contatos, citou integrantes de diferentes áreas do governo.
A própria Roberta reconheceu que ministros, institucionalmente, possuem acesso ao presidente. Segundo sua versão, porém, a dificuldade para conseguir algumas agendas fazia com que recorressem a ela devido à proximidade que acreditavam que possuía com pessoas do entorno presidencial.
Se essa dinâmica for confirmada por mensagens, registros de agenda ou outras provas, poderá ajudar os investigadores a estabelecer qual era efetivamente o grau de acesso e influência da empresária dentro da estrutura de poder em Brasília.
Relação com Lulinha está no centro da investigação
Roberta é investigada pela Polícia Federal no inquérito que apura sua relação com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e Fábio Luís Lula da Silva.
Ela já foi alvo de medidas como busca e apreensão, bloqueio de bens e valores e determinação de utilização de tornozeleira eletrônica no âmbito das investigações relacionadas à Operação Sem Desconto.
A suspeita investigada é se a proximidade com Lulinha e integrantes do governo teria sido utilizada para intermediar interesses privados.
Roberta nega ter cometido crimes.
Lulinha também nega qualquer irregularidade.
É justamente nesse cenário que a decisão anunciada por Roberta de negociar uma colaboração premiada passa a ter potencial relevância: ela afirma ter informações adicionais sobre pessoas, relações e episódios que ainda não estariam integralmente esclarecidos pelos investigadores.
Escândalo do INSS atingiu milhões de aposentados e movimentou bilhões
O caso em que Roberta Luchsinger aparece nas investigações faz parte de um escândalo de dimensão bilionária envolvendo descontos sobre aposentadorias e pensões.
Entre 2019 e 2024, entidades investigadas descontaram cerca de R$ 6,3 bilhões dos benefícios de aposentados e pensionistas. Esse valor representa o total cobrado pelas associações no período e não significa que todo o montante tenha sido comprovadamente fraudulento.
Em levantamento inicial, a Advocacia-Geral da União estimou em R$ 2,56 bilhões o prejuízo mínimo relacionado às associações investigadas, ressaltando que o valor efetivamente envolvido nas fraudes poderia ser maior.
A dimensão do problema ficou ainda mais evidente com os pedidos de ressarcimento. Até junho de 2026, o governo já havia devolvido mais de R$ 3,2 bilhões a cerca de 4,7 milhões de aposentados e pensionistas que contestaram cobranças em seus benefícios.
O dinheiro saía diretamente da renda previdenciária de uma população formada majoritariamente por idosos, muitas vezes por meio de cobranças mensais de pequeno valor que se repetiam durante longos períodos.
É nesse escândalo — que atingiu milhões de beneficiários e obrigou o país a realizar um dos maiores processos de ressarcimento administrativo de sua história — que as relações envolvendo Roberta, Lulinha e outros personagens passaram a ser investigadas.
Roberta acusa Lula de mentir
A relação entre Roberta e Lula, que durante anos foi de proximidade política, transformou-se agora em confronto público.
A empresária afirmou ter apoiado Lula durante anos e lembrou que o defendeu inclusive no período em que o petista esteve preso.
Na entrevista, porém, passou a classificá-lo como:
“mentiroso e mau-caráter “e disse que o presidente Lula estaria tentando se afastar de pessoas que frequentavam o entorno de seu governo e de sua família.
Segundo Roberta, Lula estaria mentindo particularmente quando procura desvincular Lulinha das relações com ministros.
Lula havia chamado Roberta de “pilantra”
A escalada pública ocorreu depois de Lula atacar diretamente Roberta.
Em entrevista à TV Globo, em agosto, o presidente a chamou de “pilantra”. Posteriormente, voltou a utilizar o termo e chegou a compará-la ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master.
Roberta reagiu duramente na entrevista à CNN.
Argumentou que pessoas próximas ao governo frequentavam sua casa e mantinham relacionamento com ela e questionou por que estaria sendo apresentada agora como alguém completamente estranha ao grupo.
A ruptura ajuda a explicar o tom particularmente duro da entrevista, mas não elimina a necessidade de comprovação independente das acusações apresentadas.
Lobista do INSS diz receber mais de 50 ameaças de morte por dia
Um dos relatos mais graves envolve a segurança de Roberta e das duas filhas.
A empresária afirmou estar recebendo mais de 50 ameaças de morte diariamente e disse que as filhas também estariam sendo ameaçadas, inclusive com violência sexual.
Segundo Roberta, a situação piorou depois que Lula passou a atacá-la publicamente.
Ela disse que responsabiliza politicamente o presidente pela exposição e afirmou que, caso algo aconteça a ela ou às filhas, entende que haverá responsabilidade de Lula por tê-la transformado em alvo público.
Até o momento, não foram apresentados elementos públicos que permitam atribuir ao presidente ou ao governo a autoria ou determinação dessas ameaças.
Após a entrevista, parlamentares da oposição passaram a defender proteção para Roberta e sua família.
Roberta acusa Lula de usar a máquina pública contra ela
A empresária também afirmou que o presidente estaria utilizando o peso do cargo e a exposição pública contra ela.
Segundo Roberta, Lula usou entrevistas de grande audiência para atacá-la enquanto ela enfrenta uma investigação, medidas cautelares e bloqueio patrimonial.
Ela classificou a situação como um uso da “máquina pública” para destruir sua reputação.
Aqui também há uma distinção factual necessária.
A afirmação de que existe uso da máquina pública contra Roberta é uma acusação da própria empresária.
As medidas judiciais e policiais impostas a ela foram determinadas dentro de investigações formais. Não há prova pública apresentada até agora de que Lula tenha determinado buscas, bloqueios ou outras medidas contra Roberta.
“O presidente da república com seu mau caratismos e irresponsabilidade colocou a máquina pública contra mim”, afirmou roberta
Lula diz desconhecer completamente as acusações
Após a entrevista, a Presidência reagiu.
Em nota, a equipe de Lula afirmou que o presidente “desconhece inteiramente” os fatos relatados por Roberta.
Segundo a manifestação, Lula jamais manteve interlocução com a empresária, nunca recebeu demandas apresentadas por ela e não possui conhecimento das supostas tratativas mencionadas na entrevista.
A Presidência também afirmou que não existe contrato do governo federal com Roberta.
Defesa de Lulinha nega irregularidades
A defesa de Fábio Luís também rejeitou as acusações.
Segundo os advogados, Lulinha não cometeu irregularidades, disponibilizou dados bancários, fiscais e telemáticos às autoridades e está à disposição das investigações.
A defesa sustenta ainda que o relacionamento de Fábio Luís com ministros e outros políticos é de natureza pessoal e resulta de convivências mantidas durante anos.
Os advogados também afirmam existir contradições entre as declarações recentes de Roberta e o que ela teria relatado anteriormente às autoridades.
Lulinha diz que comprovará sua inocência nos autos.


