Laudo aponta compatibilidade da voz com Daniel Vorcaro e não encontra sinais técnicos de manipulação; ex-dono do Banco Master relata R$ 30 milhões para filme sobre Lula e afirma que integrante da PGR teria sugerido retirar acusação envolvendo Paulo Okamotto
Uma perícia realizada em cinco arquivos de áudio atribuídos a Daniel Vorcaro acrescentou um novo elemento às denúncias feitas pelo ex-dono do Banco Master envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Instituto Lula e a forma como informações levadas à Procuradoria-Geral da República teriam sido recebidas.
O laudo não encontrou nos arquivos analisados sinais técnicos de montagem, edição, cortes, inserções, reordenação, síntese de voz ou manipulação por inteligência artificial.
Os exames também apontaram compatibilidade entre a voz presente nas cinco gravações e a de Daniel Vorcaro.
O resultado ganha relevância porque as gravações não tratam apenas do relato sobre R$ 30 milhões supostamente destinados ao documentário sobre Lula. Em outro áudio revelado pela Veja, Vorcaro descreve como sua defesa teria apresentado parte das acusações à PGR e relata resistência de um integrante do órgão diante de informações envolvendo Paulo Okamotto, ligado ao Instituto Lula.
A PGR nega ter condicionado ou recusado previamente os relatos.
Resumo Executivo
- Perícia examinou cinco arquivos atribuídos a Daniel Vorcaro.
- O laudo não encontrou indícios técnicos de cortes, montagem, inserções, reordenação ou voz produzida por inteligência artificial.
- A análise apontou compatibilidade da voz com a do ex-controlador do Banco Master.
- Em uma das revelações, Vorcaro relata ter destinado cerca de R$ 30 milhões ao financiamento de um documentário sobre Lula.
- Ele também menciona pagamentos ao Instituto Lula.
- Vorcaro afirma que os valores fariam parte de uma negociação para abrir acesso do Banco Master a fundos de pensão de estatais.
- Em outro áudio, relata que sua defesa levou informações à PGR de indicado por Lula, e que um auxiliar do procurador-geral Paulo Gonet teria sugerido retirar parte da acusação por dificuldade de comprovação.
- A PGR contesta essa versão e diz que as propostas foram recebidas como apresentadas pelos advogados.
- Polícia Federal e PGR já rejeitaram propostas de colaboração de Vorcaro alegando insuficiência de elementos.
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Perícia examinou cinco gravações
O laudo foi assinado pelo perito Leocadio Casanova e submeteu os cinco arquivos a diferentes exames técnicos.
Foram feitas análises estruturais e espectrais, de continuidade temporal, duplicação e indicadores utilizados para detectar síntese artificial de voz.
A conclusão foi de que nenhum parâmetro encontrado contrariou a hipótese de que a voz presente nas gravações seja de Daniel Vorcaro.
Mais importante: segundo o laudo, os arquivos não apresentaram elementos técnicos indicativos de montagem, edição, corte, inserção, reordenação ou manipulação de voz por inteligência artificial.
A perícia foi encomendada pela Veja, responsável pela divulgação das gravações. Não se trata, portanto, de um laudo produzido pela Polícia Federal ou por determinação judicial.
Ainda assim, seu responsável acumula mais de duas décadas de atuação pericial e participou de análises de casos de grande repercussão, incluindo a gravação feita por Joesley Batista do então presidente Michel Temer, em 2017.
Defesa de Vorcaro já havia confirmado que a voz era dele
Antes mesmo da divulgação do laudo, o advogado Daniel Bialski, que representa Vorcaro, havia confirmado publicamente que a voz existente na gravação divulgada pela revista era de seu cliente.
Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, também confirmou a identificação da voz.
A perícia agora acrescenta uma análise técnica à confirmação já feita por pessoas próximas ao ex-banqueiro.
O ponto central do novo laudo não é demonstrar que tudo o que Vorcaro afirma nas gravações aconteceu.
É estabelecer que, nos cinco arquivos analisados, não foram encontrados sinais técnicos de adulteração e que a voz é compatível com a do banqueiro.
A verificação das acusações exige uma etapa diferente: rastreamento financeiro, documentos, mensagens, testemunhas e demais elementos de prova.
Vorcaro relata R$ 30 milhões para filme sobre Lula
Em uma das gravações divulgadas, Vorcaro afirma ter destinado aproximadamente R$ 30 milhões para ajudar no financiamento do documentário sobre Lula dirigido pelo cineasta americano Oliver Stone.
O banqueiro também relata um pagamento de valor não revelado envolvendo o Instituto Lula.
Segundo sua versão, os repasses integrariam uma espécie de “pedágio” para que o Banco Master conseguisse acesso a fundos de pensão ligados a grandes empresas e instituições estatais.
Vorcaro afirma que a negociação poderia abrir caminho para a captação de até R$ 10 bilhões por meio de fundos como Previ, Petros e Postalis.
Na proposta de colaboração atribuída ao banqueiro, também aparece a alegação de pagamento de comissão de 10% sobre recursos captados.
Se aplicada integralmente sobre R$ 10 bilhões, a porcentagem chegaria a R$ 1 bilhão.
Isso não significa que R$ 1 bilhão tenha sido efetivamente pago. Trata-se do modelo de remuneração que Vorcaro afirma ter sido negociado.
Mensagens mostram que Master buscou fundos de pensão
Há um ponto adicional que não depende exclusivamente da palavra de Vorcaro.
Mensagens extraídas do celular do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal e posteriormente divulgadas pela imprensa, mostram movimentações do Master para conseguir acesso a fundos de previdência.
Segundo os registros publicados, Vorcaro manteve encontros com Alexandre Padilha, então ministro das Relações Institucionais, e contou com contatos de integrantes de sua equipe para chegar a dirigentes de fundos como Postalis, Previ e Petros.
Isso não comprova, por si só, o suposto pagamento de R$ 30 milhões.
Mas confirma que a aproximação do Banco Master com os fundos de pensão citados nas gravações efetivamente existiu.
Outro áudio coloca a PGR no centro da controvérsia
Um segundo trecho divulgado pela Veja acrescenta uma questão institucional ainda mais sensível.
Vorcaro relata que sua defesa teria levado informações à Procuradoria-Geral da República e menciona a reação de um integrante da equipe do procurador-geral Paulo Gonet identificado como Ubiratan.
Segundo o relato do banqueiro, ao incluir Paulo Okamotto nas informações levadas à Procuradoria, o integrante da PGR teria reagido:
“Pelo amor de Deus, cê não tem nada disso aqui não.”
Vorcaro afirma ainda que teria ouvido o argumento de que, como o suposto pagamento teria ocorrido em dinheiro, seria difícil comprová-lo e, portanto, a informação deveria ser retirada.
A afirmação é de Vorcaro e precisa ser tratada como tal.
Mas a existência da gravação em que ele faz esse relato passa agora a ser acompanhada de uma perícia que não encontrou sinais técnicos de manipulação nos arquivos examinados.
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PGR nega ter feito recusa prévia
A Procuradoria-Geral da República apresentou uma versão diferente.
Segundo o órgão, as tratativas envolvendo uma possível colaboração de Vorcaro foram conduzidas pelos advogados do banqueiro e todas as propostas formalizadas pela defesa foram recebidas da forma como foram elaboradas.
A PGR também afirma que não houve recusas prévias ou determinação para que determinados nomes fossem retirados.
Esse contraponto cria uma divergência objetiva que ainda precisa ser esclarecida.
De um lado, Vorcaro afirma em gravação que houve resistência à inclusão de determinadas informações.
Do outro, a PGR afirma que recebeu as propostas sem fazer esse tipo de interferência.
PF e PGR rejeitaram tentativas de delação
Também é fato que as propostas de colaboração apresentadas anteriormente por Vorcaro não foram aceitas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
A justificativa apresentada foi a ausência de elementos considerados suficientes para dar consistência às acusações.
Segundo a PF, Vorcaro também não prestou à corporação um depoimento com o conteúdo específico divulgado sobre o filme de Lula nem entregou à instituição documentos relativos a essa acusação.
Essa informação, porém, não contradiz necessariamente a reportagem sobre a PGR.
A alegação publicada é de que o assunto teria sido apresentado por advogados de Vorcaro em tratativas com a Procuradoria, e não de que o banqueiro tenha prestado esse depoimento pessoalmente à Polícia Federal.
Vorcaro diz possuir provas e quer ser ouvido
A defesa de Vorcaro sustenta que o ex-banqueiro possui informações relevantes e continua disponível para colaborar com as autoridades.
Relatos recentes de familiares também indicam que ele pretende apresentar novos fatos e documentos em uma eventual colaboração.
Segundo a Veja, Vorcaro reclama que autoridades responsáveis pelas investigações não estariam dispostas a ouvi-lo nos termos pretendidos por sua defesa.
Esse é outro ponto que precisa ser submetido a verificação independente.
O banqueiro é investigado e tem interesse direto em obter benefícios por meio de uma eventual colaboração premiada. Por isso, suas declarações não podem ser tratadas isoladamente como prova.
Mas também não podem ser ignoradas apenas com base na hipótese de que as gravações seriam falsas ou manipuladas depois que essa hipótese foi submetida a exame técnico.
Instituto Lula e citados negam as acusações
O Instituto Lula afirma que nunca participou da captação de recursos para o documentário de Oliver Stone e que jamais recebeu valores destinados à produção.
Paulo Okamotto também nega conhecer Daniel Vorcaro ou ter participado de reuniões com o ex-banqueiro.
A equipe responsável pelo documentário nega ter recebido recursos de Vorcaro ou do Banco Master.
O presidente Lula também rejeita qualquer envolvimento em pagamentos irregulares.
As negativas precisam ser confrontadas agora com os elementos que Vorcaro afirma possuir e que sua defesa diz estar disposta a apresentar.
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O que a perícia muda no caso
A perícia não comprova que R$ 30 milhões foram efetivamente entregues, não demonstra a origem do dinheiro e não confirma, sozinha, que as acusações feitas por Vorcaro sejam verdadeiras.
O que ela faz é diferente — e relevante.
Ela reduz substancialmente a controvérsia técnica sobre a origem dos arquivos analisados: a voz é compatível com Vorcaro e não foram encontrados sinais de edição, montagem, cortes, síntese ou manipulação por inteligência artificial.
Isso desloca a discussão para onde uma investigação deveria chegar.
Existem comprovantes dos supostos R$ 30 milhões?
Houve saques ou movimentações financeiras compatíveis?
Quem teria recebido ou transportado o dinheiro?
Existem mensagens, registros telefônicos, viagens ou testemunhas?
Que documentos Vorcaro afirma ainda possuir?
E o que exatamente foi apresentado por seus advogados à PGR antes de as propostas de colaboração serem rejeitadas?
São essas respostas — e não mais apenas a discussão sobre a autenticidade das gravações — que poderão determinar o verdadeiro alcance do caso.



