Mensagem obtida pela PF relata que presidente agradeceu novamente whisky dado pelo ex-banqueiro; revelação ocorre após encontro de Lula e Vorcaro fora da agenda, com participação de Galípolo, e ministro do STF, indicado por Lula negou pedido para instalação da CPI
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria agradecido a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, por um whisky recebido do então banqueiro, segundo mensagem enviada pelo advogado Walfrido Warde a Vorcaro e obtida pela Polícia Federal. A revelação veio a público nesta quarta-feira (23), mesmo dia em que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou liminar para obrigar o Senado a instalar uma CPI sobre o Banco Master e as relações de Vorcaro com autoridades, incluindo ministro do STF.
A mensagem registra que, em 22 de janeiro de 2025, Warde escreveu a Vorcaro que havia estado com Lula, que o presidente havia perguntado se ele estava “bem e mais tranquilo” e que “agradeceu mais uma vez o whisky”.
O Planalto contesta o relato. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que Lula nunca recebeu presente de Vorcaro e que o presidente desconhecia a articulação descrita pelo advogado.
O episódio ganha contexto porque Lula e Vorcaro já haviam se encontrado no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024, em uma reunião escondida, que não constava inicialmente da agenda oficial do presidente. Participaram do encontro Rui Costa, então ministro da Casa Civil, e Gabriel Galípolo, à época diretor de Política Monetária do Banco Central e posteriormente presidente da instituição.
Agora, enquanto novas mensagens do celular de Vorcaro expõem a aproximação com Lula, Zanin negou o pedido para que o Supremo determinasse ao Senado a instalação da CPI do Banco Master.
O whisky e a versão registrada na mensagem
A mensagem de Warde foi enviada a Vorcaro em 22 de janeiro de 2025.
Segundo o conteúdo obtido pela PF, o advogado escreveu:
“Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço.”
A mensagem veio acompanhada do relato de que Lula havia perguntado a Warde se Vorcaro estava bem e mais tranquilo.
O ex-banqueiro respondeu com um emoji de coração.
O ponto relevante é que a referência ao presente não aparece em uma declaração posterior de Vorcaro ou em uma interpretação jornalística: ela está registrada em uma comunicação do advogado que integrava sua defesa, dirigida ao próprio ex-banqueiro.
Isso, contudo, não elimina a controvérsia sobre o recebimento do presente.
A Secom afirma que Lula não recebeu whisky de Vorcaro e que o presidente não tinha conhecimento da suposta articulação feita por Warde. A defesa de Warde não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
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Antes do presente, houve a reunião no Planalto
A mensagem sobre o whisky veio 49 dias depois do encontro de Lula com Vorcaro no Palácio do Planalto.
Em 4 de dezembro de 2024, o então controlador do Banco Master esteve com Lula em uma conversa que não estava previamente agendada na agenda presidencial.
Segundo a Secom, Vorcaro havia ido ao Planalto acompanhado do ex-ministro Guido Mantega. Da conversa com Lula também participaram Rui Costa e Gabriel Galípolo.
O encontro foi confirmado pelo governo.
Na versão apresentada pela Presidência, Vorcaro afirmou que se sentia alvo de perseguições, e Lula respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. A Secom afirma que aquele foi o único encontro entre Lula e Vorcaro.
Mensagens divulgadas anteriormente, porém, mostram Vorcaro descrevendo o encontro como “ótimo”. O então banqueiro também teria discutido com Lula uma proposta do BTG Pactual para comprar o Banco Master.
A interlocução para chegar a Lula
As novas mensagens também mostram que a aproximação não se limitava ao encontro de dezembro.
Segundo a apuração divulgada, Warde aparece nas conversas como intermediário na tentativa de construir um canal entre Vorcaro e o governo.
Em uma mensagem de voz, o advogado teria dito que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola e então chefe de gabinete da Presidência, havia solicitado um e-mail com os assuntos que Vorcaro pretendia discutir com Lula.
Warde teria se oferecido para encaminhar pessoalmente o pedido, em nome de sua atuação como advogado do banqueiro.
Marcola nega ter procurado Warde para tratar de Vorcaro. Segundo sua assessoria, quando foi procurado pelo advogado, apenas pediu que o pedido de audiência fosse formalizado por e-mail, procedimento que, segundo ele, era adotado para solicitações de audiência em geral.
As mensagens também registram outras tentativas de aproximação. O InfoMoney relata conversas nas quais Warde menciona contatos com Lula e possíveis novas reuniões com o presidente.
A presença de Galípolo
A reunião de dezembro tem outro elemento relevante: Gabriel Galípolo.
Naquele momento, Galípolo era diretor de Política Monetária do Banco Central e havia sido indicado para assumir a presidência da autoridade monetária.
Ele participou da conversa entre Lula e Vorcaro. Posteriormente, tornou-se presidente do Banco Central, instituição que, meses depois, decretaria a liquidação extrajudicial do Banco Master.
A presença de Galípolo não demonstra que a reunião tenha influenciado decisões posteriores do Banco Central.
Mas integra a cronologia do caso e ajuda a dimensionar quem estava presente no encontro entre o presidente da República e o controlador do banco que posteriormente entraria no centro das investigações.
Lula também participou de evento de empresa ligada ao Master
A relação empresarial antecede o encontro no Planalto.
Em abril de 2024, Lula participou da inauguração da fábrica de insulina da Biomm, em Nova Lima (MG), empresa na qual o Banco Master era então o principal acionista individual.
O episódio ocorreu oito meses antes do encontro de Lula com Vorcaro no Planalto.
Vorcaro não participou da cerimônia, mas a participação acionária do Master na Biomm coloca o evento dentro da cronologia empresarial que antecedeu a crise do banco.
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Zanin nega liminar para instalar a CPI
É nesse contexto que entra a decisão de Cristiano Zanin.
O ministro negou pedido apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para obrigar o Senado a dar andamento à instalação de uma CPI sobre o Banco Master e as relações de Daniel Vorcaro com ministros do STF.
Zanin afirmou que, naquele momento, não havia elementos suficientes para justificar uma intervenção urgente do Supremo no Senado. A decisão é liminar e pode ser reavaliada após a apresentação de informações adicionais.
O requerimento da CPI havia reunido 41 assinaturas, acima das 27 necessárias para sua criação no Senado, segundo o UOL. A comissão pretende investigar possíveis relações de Vorcaro com os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, entre outros fatos relacionados ao Banco Master.
Portanto, Zanin não declarou que a CPI é ilegal nem encerrou definitivamente a discussão. O que fez foi negar, por ora, a liminar que buscava uma determinação judicial imediata para sua instalação.
negativa superior à positiva.
O fator Zanin
A decisão tem ainda um dado institucional que faz parte da cronologia: Zanin foi indicado ao STF por Lula em 2023 e, antes de chegar à Corte, atuou como advogado do atual presidente.
Esse histórico é objetivo.
Também é objetivo que o ministro agora analisa uma ação que pede ao STF intervenção na tramitação de uma CPI destinada a investigar fatos relacionados ao Banco Master e às relações de Vorcaro com autoridades.
Esses fatos, porém, não demonstram que a decisão tenha sido influenciada por Lula, pelo governo ou pelas relações de Vorcaro com o presidente.
A decisão apresentada por Zanin foi fundamentada na ausência, naquele momento, de elementos suficientes para caracterizar a omissão do presidente do Senado que justificasse a intervenção urgente do Supremo.
A cronologia que coloca os fatos no mesmo quadro
Abril de 2024 — Lula participa da inauguração da fábrica da Biomm, empresa que tinha o Banco Master como principal acionista individual.
4 de dezembro de 2024 — Lula recebe Vorcaro no Palácio do Planalto. A reunião não estava previamente agendada e contou com Rui Costa e Gabriel Galípolo.
22 de janeiro de 2025 — Warde escreve a Vorcaro que Lula perguntou por ele e “agradeceu mais uma vez o whisky”. O Planalto posteriormente nega que Lula tenha recebido o presente.
Novembro de 2025 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master e Vorcaro é preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição, segundo a própria Secom.
23 de setembro de 2026 — Zanin nega liminar para obrigar o Senado a instalar a CPI do Banco Master.



