Jantar na casa de Moraes com Lula teria discutido como enfraquecer André Mendonça; ministro concentra casos de Lulinha e Banco Master

Encontro reservado reuniu Lula, Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e Cristiano Zanin em 4 de agosto; segundo Lauro Jardim, relatos levados ao gabinete de Mendonça apontaram que sua atuação teria sido um dos assuntos da conversa

Um jantar reservado na residência do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria ultrapassado a tentativa de reconstruir a relação política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

Segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo, uma das pautas do encontro teria sido a possibilidade de fragilizar o ministro André Mendonça, justamente quando ele concentra sob sua relatoria investigações de elevado potencial político, entre elas as relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e ao Banco Master. A informação também foi divulgada pelo próprio Jardim em suas redes sociais.

O ponto mais sensível é que a suposta conversa não teria ocorrido em uma reunião formal do Supremo ou do governo, mas em um encontro privado realizado na casa de um ministro da Corte e fora da agenda oficial de Lula.

Não há, até o momento, registro público da conversa, gravação ou confirmação independente de que uma articulação contra Mendonça tenha sido efetivamente combinada. O que existe é o relato jornalístico de Lauro Jardim, baseado em informações que teriam chegado ao gabinete de Mendonça.

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O jantar fora da agenda oficial de Lula

O encontro ocorreu em 4 de agosto, na residência de Alexandre de Moraes, e reuniu Lula, Alcolumbre, Moraes e o ministro Cristiano Zanin.

A reunião aconteceu depois do desgaste provocado pela rejeição de Jorge Messias para uma vaga no STF. A aproximação entre Lula e Alcolumbre seria o objetivo político inicial do jantar.

O encontro, entretanto, ganhou outra dimensão com a informação de que André Mendonça teria entrado na conversa.

A alegação é particularmente relevante porque o ministro ocupa hoje uma posição sensível dentro do Supremo: ele conduz investigações que podem atingir interesses políticos próximos ao Palácio do Planalto.

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Por que Mendonça incomoda politicamente

O nome de André Mendonça aparece em duas frentes que ganharam enorme relevância nos últimos meses.

A primeira é o caso Banco Master.

A Polícia Federal solicitou recentemente mais 60 dias para apresentar a Mendonça um relatório parcial sobre a investigação. O documento deverá abordar, entre outros pontos, as tratativas envolvendo a compra de carteiras do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Isso significa que a investigação continua avançando e que Mendonça permanece no centro das decisões judiciais relacionadas ao caso.

O segundo eixo é ainda mais delicado para o governo: as investigações envolvendo Lulinha.

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Mendonça está no centro da disputa sobre Lulinha

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de três inquéritos no STF relacionados a suspeitas de tráfico de influência e corrupção. Ele nega irregularidades.

Uma das investigações está sob relatoria de André Mendonça.

A Polícia Federal afirma ter encontrado elementos que justificaram a abertura de investigação sobre possíveis relações de Lulinha com negócios envolvendo cannabis medicinal e órgãos do governo federal.

Em uma das frentes investigadas, a PF apura movimentações financeiras e pagamentos relacionados ao filho do presidente. Reportagem publicada nesta segunda-feira (24) informou que a polícia identificou movimentações em dinheiro vivo feitas por uma lobista e pagamentos de despesas relacionadas a Lulinha. As defesas dos envolvidos negam irregularidades.

O caso ganhou ainda mais importância depois que a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que pelo menos um dos inquéritos deixasse o STF e fosse encaminhado à primeira instância.

A justificativa apresentada pela PGR é que, até o momento, não haveria autoridade com foro privilegiado entre os investigados que justificasse a permanência do processo no Supremo.

Mendonça, porém, sinaliza que pretende manter a investigação no STF. Flávio Dino também tende a manter sob sua relatoria outro inquérito relacionado a Lulinha.

É justamente nesse contexto que o relato sobre o jantar ganha peso.

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ANDRE MENDONÇA, MINISTRO DO STF
André Mendonça. Imagem: STF

A disputa não é apenas sobre Lulinha

A questão não envolve somente a investigação do filho do presidente.

O avanço dos inquéritos já provocou tensão entre Mendonça e setores da Polícia Federal.

Reportagem da Folha de S.Paulo publicada no início de agosto apontou que o avanço das investigações sobre Lulinha aprofundou a desconfiança entre a PF e o ministro responsável pelos inquéritos. O ambiente já vinha sendo tensionado pelas investigações do Banco Master e do INSS.

Agora, a PGR também entrou em uma disputa sobre a competência para conduzir parte dos casos.

Na prática, existem três movimentos simultâneos:

  • Mendonça mantém sob sua condução investigações envolvendo Lulinha;
  • a PGR tenta retirar pelo menos um desses casos do STF;
  • a investigação do Banco Master continua avançando sob a relatoria do ministro.

É nesse cenário que surge a informação de que o nome de Mendonça teria sido discutido no jantar de Lula, Moraes e Alcolumbre.

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O que significa “fragilizar” Mendonça

Aqui está uma distinção essencial.

O relato de Lauro Jardim afirma que teria sido discutida uma forma de fragilizar Mendonça. Mas não foi divulgado, até agora, qual seria a medida concreta pretendida.

Não há informação pública suficiente para afirmar que teria sido discutida:

  • mudança de relatoria;
  • transferência de processos;
  • alteração de competência;
  • pressão política sobre o ministro;
  • abertura de procedimento contra Mendonça;
  • ou qualquer outra medida específica.

Portanto, seria incorreto transformar a expressão “fragilizar” em uma acusação de que determinada decisão já teria sido combinada.

O que pode ser afirmado é que a informação publicada por Lauro Jardim coloca Mendonça como possível tema de uma conversa privada entre três dos personagens mais poderosos da política e do Judiciário brasileiro.

A coincidência que torna o episódio explosivo

O aspecto mais relevante do caso está na combinação dos acontecimentos.

De um lado, há um jantar privado envolvendo Lula, o presidente do Senado e dois ministros do STF.

De outro, existe um ministro do Supremo que conduz investigações capazes de atingir:

o filho do presidente da República;

um dos maiores escândalos financeiros atualmente investigados no país;

personagens ligados ao sistema político;

e operações envolvendo instituições financeiras e o BRB.

No caso Banco Master, a PF ainda trabalha na produção de relatórios para Mendonça.

No caso Lulinha, a PGR tenta retirar parte da investigação do STF enquanto Mendonça sinaliza que pretende mantê-la na Corte.

A sobreposição desses acontecimentos explica por que o relato sobre o jantar ganhou repercussão imediata.

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O governo diz que Lula não interfere na investigação

Lula, em entrevista exibida neste domingo (23), afirmou que não interfere nas investigações da Polícia Federal envolvendo seu filho e declarou que Lulinha deve responder caso tenha cometido alguma irregularidade.

O presidente também afirmou que seu filho não deveria receber tratamento privilegiado.

A declaração é relevante porque coloca uma posição pública de Lula em sentido contrário à ideia de interferência nas investigações.

Até o momento, porém, isso não esclarece o conteúdo do jantar atribuído por Lauro Jardim.

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Por que o caso merece atenção

O problema institucional, caso a informação venha a ser confirmada por evidências adicionais, seria muito maior do que uma simples disputa interna do STF.

Mendonça é responsável por investigações que alcançam interesses diretamente conectados ao ambiente político de Lula. Ao mesmo tempo, existe uma disputa aberta sobre quem deve conduzir parte das apurações envolvendo seu filho.

Se houver comprovação de que autoridades dos três Poderes discutiram maneiras de enfraquecer um ministro especificamente por causa das investigações sob sua responsabilidade, a questão passará a envolver independência judicial e eventual interferência política sobre uma relatoria.

Mas essa conclusão depende de algo que ainda não existe publicamente: prova da suposta articulação.

Por enquanto, o fato concreto é outro: um jantar reservado reuniu Lula, Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e Cristiano Zanin, e um relato publicado por Lauro Jardim afirma que André Mendonça teria sido um dos assuntos discutidos.

E o contexto torna a informação particularmente sensível: Mendonça está justamente no caminho de duas investigações que podem produzir consequências políticas relevantes para o governo Lula — Lulinha e Banco Master.

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Lucy Costa
Lucy Costa
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