Aquisição da Nova AVB ocorre após aporte de R$ 300 milhões com participação de Joesley Batista dos famosos irmãos Batista, e uma visita de Lula à fábrica; por trás do negócio está uma disputa pelo valor futuro de uma capacidade tecnológica que o Estado brasileiro considera estratégica
A compra da Avibras pelos irmãos Joesley e Wesley Batista é muito maior do que a entrada de um grupo empresarial em uma fabricante de equipamentos militares. A operação coloca a família controladora da J&F em um setor no qual capital privado, política industrial, orçamento público, tecnologia e interesses estratégicos do Estado se encontram.
A Globe Investimentos, veículo ligado aos irmãos Batista, assinou acordo para adquirir 100% das ações da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco. A transação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de outros trâmites necessários para sua conclusão. O valor não foi divulgado.
A própria J&F informou ao Cade que considera a aquisição uma oportunidade de entrar nos setores de defesa nacional e aeroespacial. E existe um detalhe que muda a leitura do negócio: Joesley Batista já havia participado do aporte de R$ 300 milhões que ajudou a financiar a retomada das operações da Avibras.
Ou seja, os Batistas não chegaram depois que a empresa estava recuperada.
Entraram no processo de reconstrução e, agora, avançam para assumir o controle.
É justamente aí que começa a história que vai além da manchete.
A pergunta não é apenas por que os Batistas compraram a Avibras
A pergunta mais importante é:
O que os Batistas enxergaram na Avibras antes que o mercado percebesse?
A resposta pode estar na combinação de três movimentos que aconteceram praticamente ao mesmo tempo:
uma empresa estratégica voltou a operar; o governo Lula voltou a colocá-la no centro da agenda de defesa; e um dos maiores grupos empresariais do país passou a financiar sua recuperação e, posteriormente, a disputar seu controle.
Antes mesmo de os Batistas anunciarem a aquisição, o governo Lula havia recolocado a Avibras dentro da estrutura estratégica da indústria brasileira de defesa: em maio, a empresa foi credenciada como Empresa Estratégica de Defesa; em julho, recebeu visita institucional do Ministério da Defesa e, em agosto, foi habilitada ao RETID, regime tributário especial criado para estimular o setor.
ENTENDA: Fabricante de defesa pesada brasileira Avibras pede recuperação judicial
E o RETID é particularmente importante para os Batistas
Os Batistas não estão comprando exatamente a Avibras que existia em 2022.
Estão comprando uma estrutura que, antes da operação recebeu apoio diferenciado do governo Lula:
- foi reconstruída;
- recebeu R$ 300 milhões de capital privado;
- retomou a produção;
- foi reconhecida como EED;
- passou a contar com RETID;
- voltou a receber atenção institucional do Ministério da Defesa;
- e está novamente posicionada dentro da Base Industrial de Defesa.
Então a pergunta econômica muda completamente:
Os Batistas estão comprando uma empresa em crise ou uma empresa que acaba de receber uma nova moldura institucional do Estado brasileiro?
Não há, até o momento, evidência pública que permita afirmar que um movimento tenha provocado o outro.
Mas a sequência dos acontecimentos é objetiva — e merece ser analisada.
LEITURA SUGERIDA: Em meio a atritos internacionais, fala de Lula sobre a Guerra do Paraguai abre nova frente de desgaste político e diplomático com país vizinho
Da recuperação judicial ao retorno da produção
A Avibras entrou em recuperação judicial em 2022, depois de uma crise financeira que interrompeu suas atividades e deixou trabalhadores por mais de três anos em greve.
Durante a reestruturação, foi criada a Nova AVB, estrutura que passou a concentrar os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da operação, enquanto a antiga Avibras permaneceu vinculada ao processo de recuperação judicial.
A Avibras Aeroco voltou a operar em maio de 2026, depois de captar aproximadamente R$ 300 milhões com investidores brasileiros, entre eles Joesley Batista.
O detalhe é decisivo.
A aquisição anunciada agora não significa simplesmente comprar uma empresa paralisada e assumir integralmente seu antigo passivo.
Os Batistas estão comprando a estrutura reconstruída que concentra os ativos industriais e tecnológicos considerados estratégicos.
Essa diferença muda a avaliação econômica da operação.
MAIS INFORMAÇÃO: Irmãos Batista voltam a negociar no Planalto com Lula após escândalos de corrupção
O verdadeiro ativo pode não estar no balanço
Uma análise convencional procuraria faturamento, lucro, dívida e geração de caixa.
No caso da Avibras, isso não é suficiente.
A nova estrutura não teve faturamento em 2025, período em que a companhia ainda estava mergulhada na crise e com as operações paralisadas.
Então por que um grupo empresarial compraria o controle de um ativo praticamente sem receita?
Porque o que está sendo comprado pode ser muito mais difícil de contabilizar:
engenharia acumulada durante décadas, propriedade intelectual, instalações, capacidade de desenvolvimento, mão de obra especializada e conhecimento tecnológico em sistemas de defesa e espaço.
A Avibras foi fundada em 1961 por engenheiros formados pelo ITA e construiu ao longo de décadas um portfólio que inclui foguetes, mísseis, veículos especiais, sistemas de comando e controle e o Sistema Astros, um dos produtos brasileiros de defesa com maior reconhecimento internacional.
Reconstruir esse conhecimento do zero levaria anos.
É justamente esse valor de reposição que pode estar por trás da aposta dos Batistas.
E então veio a visita de Lula
É aqui que a história ganha uma segunda camada.
Em 22 de julho de 2026, Lula visitou as instalações da Avibras Aeroco, em Jacareí. A própria agenda oficial da Presidência registra a visita às instalações da empresa.
A visita ocorreu apenas dois meses depois da retomada das operações.
Durante a passagem pela fábrica, o presidente voltou a defender o fortalecimento das Forças Armadas e da indústria nacional de defesa.
Pouco tempo depois, aparece a informação de que os Batistas estão assumindo o controle da estrutura que concentra os ativos estratégicos da Avibras.
É aqui que a pergunta que o mercado ainda não fez ganha força:
Por que o Estado voltou a olhar para a Avibras justamente quando o capital privado começou a reconstruí-la?
Não é necessário responder que existe favorecimento.
É muito mais interessante observar a convergência.
Antes da compra, Avibras ganhou novo enquadramento estratégico e benefício tributário
A aproximação do governo federal com a Avibras não ficou restrita a discursos ou à visita de autoridades à fábrica. Antes de os Batistas anunciarem a aquisição, a empresa havia recebido novos enquadramentos dentro da política brasileira de defesa.
Em maio de 2026, a Avibras Aeroco foi credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa. O enquadramento coloca a companhia formalmente dentro da Base Industrial de Defesa e a submete ao regime previsto na Lei nº 12.598/2012, que estabelece regras específicas para empresas e produtos estratégicos do setor.
Na prática, o status de EED é relevante porque permite que a empresa participe de determinadas políticas e mecanismos destinados à indústria de defesa, incluindo instrumentos relacionados a compras governamentais e ao desenvolvimento de produtos estratégicos.
Dois meses depois, em julho, a Avibras voltou a receber atenção direta do governo. Lula visitou a fábrica em Jacareí, pouco tempo depois da retomada das operações, e defendeu o fortalecimento das Forças Armadas e da indústria nacional de defesa. O Ministério da Defesa também realizou visita institucional à companhia e destacou sua capacidade tecnológica em sistemas de defesa, foguetes e mísseis.
Mas existe um terceiro elemento, ainda mais importante para a análise econômica.
Em agosto, a Avibras Aeroco foi habilitada ao Regime Especial Tributário para a Indústria de Defesa (RETID). O regime foi criado para reduzir a carga tributária incidente sobre determinadas operações da cadeia de defesa e aumentar a competitividade das empresas enquadradas.
Assim, a sequência de 2026 merece ser observada:
maio: EED;
julho: retomada das operações e visita do governo;
agosto: RETID;
agosto: anúncio da aquisição pelos Batistas.
A cronologia, por si só, não prova que os benefícios foram concedidos para facilitar a venda da empresa aos Batistas. Essa conclusão exigiria evidências que não estão disponíveis.
Mas ela demonstra algo concreto: a mudança de controle acontece depois que a Avibras foi novamente incorporada ao ambiente institucional e tributário criado pelo Estado para estimular a indústria nacional de defesa.
E isso altera o cálculo econômico da aquisição.
Os Batistas não estão assumindo simplesmente uma empresa que saiu de uma recuperação judicial. Estão entrando em uma companhia que, antes da mudança de controle, voltou a operar, recebeu capital privado, foi reconhecida formalmente como estratégica pelo Ministério da Defesa e passou a contar com um regime tributário específico para o setor.
É justamente aqui que a tese das “campeãs nacionais” ganha uma nova dimensão.
O governo Lula não anunciou que pretende transformar a Avibras em uma nova campeã nacional. Mas, se a política industrial voltar a combinar enquadramento estratégico, crédito, incentivos fiscais, encomendas públicas e apoio à exportação, a Avibras estará posicionada dentro desse ecossistema.
E os Batistas chegaram ao controle justamente quando essa nova moldura institucional começou a ser construída.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas quanto os Batistas pagaram pela Avibras.
Passa a ser:
Quanto pode valer uma empresa de defesa depois que o Estado volta a tratá-la e financiá-la como estratégica?
Essa é a variável que o balanço atual da Avibras não consegue mostrar.
Estado e indústria estratégica: uma velha relação de Lula
O caso da Avibras também precisa ser colocado dentro de uma característica histórica da economia brasileira.
Em setores que Lula considera estratégicos, o Estado brasileiro frequentemente deixa de ser apenas regulador e passa a atuar como financiador, comprador, indutor de investimentos e articulador de política industrial, sempre com aliados do setor privado.
O BNDES foi um dos principais instrumentos desse modelo. Conseguir o financiamento de milhões do BNDES não é tarefa fácil, temos diversas fontes que tentaram e não conseguiram, os irmãos Batista sempre conseguem.
Um estudo publicado na biblioteca do próprio banco descreve como, durante o primeiro governo Lula, a política industrial passou a utilizar o BNDES para apoiar a internacionalização de empresas brasileiras, inclusive com a formação das chamadas “campeãs nacionais”. Curioso é seus donos são sempre o mesmo grupo de aliados históricos de Lula.
A JBS foi um dos casos mais emblemáticos.
Documento do próprio BNDES registra que a BNDESPAR investiu R$ 8,1 bilhões na JBS, considerando os aportes diretos e o investimento na Bertin posteriormente incorporada pela companhia.
Isso faz parte da história empresarial dos Batistas. Eles não tinham capital para fazer o que fizeram o dinheiro público do BNDES financiou e continua a financiar durante os governos petistas.
E é justamente por isso que a entrada da família na Avibras merece ser analisada sob uma perspectiva diferente.
Os Batistas conhecem, há décadas, o modelo de seu amigo Lula em que capital privado de aliados selecionados.
A volta da lógica das “campeãs nacionais” de Lula com os mesmos donos? Falta de retorno para os brasileiros
Existe uma pergunta incômoda por trás da aproximação do governo Lula com a Avibras: o Estado brasileiro na gestão petista estaria novamente escolhendo empresas privadas de seus aliados históricos para acelerar seu crescimento e transformá-las em referências nacionais com o dinheiro público?
A hipótese precisa ser analisada à luz do que ocorreu nos governos anteriores de Luiz Inácio Lula da Silva.
Na segunda metade dos anos 2000, o governo adotou uma política de formação das chamadas “campeãs nacionais”, utilizando o BNDES e sua participação acionária para financiar a expansão e a internacionalização de determinados grupos empresariais de aliados, que foram depois figuras emblemáticas de escândalos de corrupção como a Lava Jato.
O ponto que muitas vezes desaparece da narrativa oficial é que essas empresas não chegaram àquela posição de liderança apenas pela força do mercado.
Boa parte delas era formada por grupos privados de aliados que, antes da política de expansão, não possuía a dimensão nacional e financeira que alcançaria posteriormente. O apoio estatal, com financiamento de dinheiro público, especialmente por meio do BNDES, ajudou a proporcionar capital, escala e condições financeiras para grandes movimentos de crescimento e consolidação.
E algumas dessas companhias mantinham relações próximas com o governo Lula e com o ambiente político e empresarial de Brasília, o que alimentou críticas de que o Estado estaria escolhendo vencedores em vez de deixar que o mercado determinasse quais empresas deveriam crescer.
A JBS é o exemplo mais emblemático.
A companhia dos irmãos Batista recebeu bilhões de reais em investimentos da BNDESPAR e utilizou o apoio financeiro para acelerar uma expansão que a transformou em uma multinacional de proteína animal.
A estratégia foi posteriormente alvo de críticas e investigações, inclusive em relação aos critérios utilizados pelo Estado para selecionar empresas e ao tamanho da exposição do banco público a determinados grupos.
A questão, portanto, não é afirmar que as empresas eram pequenas ou irrelevantes. É reconhecer que várias delas não tinham, antes da política de apoio estatal, a escala que alcançariam depois.
O Estado ajudou a financiar a transformação dessas companhias em grandes grupos nacionais. E o que de fato estas empresas ofereceram aos brasileiros? A JBS atualmente já saiu até mesmo da Bolsa brasileira, suas ações são negociadas agora na Bolsa americana. A carne continua cada vez mais cara para os brasileiros, mesmo a JBS sendo agora a maior produtora de carne do mundo.
Agora, a lógica pode estar voltando por outro caminho
O governo Lula voltou a ampliar o papel do BNDES como instrumento de política industrial e passou a tratar setores como defesa, energia, fertilizantes, infraestrutura e tecnologia como áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional.
É nesse ambiente que a Avibras reaparece.
A companhia reúne exatamente características que costumam justificar esse tipo de intervenção estatal: tecnologia nacional, importância para a defesa, propriedade intelectual, mão de obra especializada, potencial de exportação e uma capacidade industrial que seria extremamente difícil de reconstruir do zero.
Não existe, até o momento, uma decisão oficial anunciando a Avibras como uma nova “campeã nacional”.
Mas a pergunta econômica é inevitável:
Se o Estado voltar a escolher empresas estratégicas para concentrar financiamento, encomendas públicas, pesquisa, inovação e apoio à internacionalização, quem vai capturar esse valor são os mesmos dos escândalos de corrupção do passado?
A resposta, no caso da Avibras, pode ser justamente o grupo que acaba de assumir seu controle.
E existe uma coincidência histórica difícil de ignorar.
Os Batistas já conheceram de dentro o modelo das campeãs nacionais.
A JBS foi um dos maiores exemplos da política de expansão empresarial apoiada pelo BNDES durante os governos anteriores de Lula e PT. Agora, a família entra em outro setor estratégico justamente quando o Estado brasileiro volta a colocar a política industrial no centro da agenda.
A diferença é que, desta vez, a aposta não está na proteína animal.
carne Que não ficou mais barata para os brasileiros, muito pelo contrário. O que adianta ser o maior produtor do mundo se o brasileiro cada vez consegue colocar menos carne na mesa?
Está na narrativa de defesa nacional.
Se a Avibras receber encomendas relevantes das Forças Armadas, financiamento para pesquisa e desenvolvimento, apoio à exportação e participação em grandes programas militares, o Estado poderá contribuir novamente para transformar uma empresa brasileira em uma referência internacional.
Nesse cenário, a aquisição dos Batistas pode ser lida sob uma perspectiva muito diferente.
Eles não estariam apenas comprando uma empresa em recuperação. Estariam comprando uma posição dentro de um setor que o Estado brasileiro pode decidir transformar em prioridade nacional.
E essa é justamente a pergunta que o mercado deveria acompanhar:
a Avibras será apenas uma empresa recuperada pelos Batistas ou poderá se tornar a próxima “campeã nacional” construída na interseção entre capital privado, dinheiro público e política industrial?
LEIA: Pavinatto é banido do WhatsApp e expõe o risco financeiro e…
O Estado pode ser o maior multiplicador — e também o maior risco
Essa é a parte que não aparece nas manchetes sobre a aquisição.
Uma empresa de defesa pode ter tecnologia excepcional e ainda assim não gerar caixa suficiente sem encomendas.
O mercado é limitado.
Os contratos são grandes, mas irregulares.
Os ciclos de orçamento são longos.
E governos mudam.
Por isso, o futuro econômico da Avibras dependerá não apenas da capacidade empresarial dos Batistas, mas também da disposição do governo do Brasil de comprar, financiar e desenvolver tecnologia nacional de defesa.
Esse é o grande multiplicador da operação.
Mas também é seu maior risco.
O ATMOS pode ser a primeira pista da tese da galinha dos ovos de ouro dos Batista
Existe uma negociação envolvendo a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, e a Avibras Aeroco para viabilizar a montagem no Brasil de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS de 155 mm para o Exército.
Informações publicadas em julho apontaram para uma operação estimada em aproximadamente R$ 800 milhões, embora o negócio ainda estivesse em processo de destravamento e não devesse ser tratado como contrato definitivamente fechado.
Esse ponto é fundamental.
Porque, se uma estrutura industrial que praticamente não tinha faturamento começa a ser colocada em posição de participar de encomendas militares relevantes, o valor econômico da companhia muda antes mesmo de aparecer no balanço. Em 2025 a Avibras ficou sem faturamento, algo nunca antes visto na história.
É exatamente o tipo de assimetria que investidores especializados procuram.
MAIS INFORMAÇÃO: Credcesta: como decretos de Rui Costa e articulações de Jaques Wagner ajudaram a enriquecer o Banco Master..
A tentativa de vender a Avibras para estrangeiros fracassou
Antes dos Batistas, a empresa esteve próxima de mudar de controle.
A australiana DefendTex negociou uma possível entrada na companhia, mas a operação não avançou.
Também houve interesse da chinesa Norinco.
O debate em torno dessas negociações expôs uma questão que vai muito além de uma empresa privada:
quem controla uma companhia que reúne tecnologia militar considerada estratégica?
A aquisição pelos Batistas cria uma resposta diferente.
A empresa permanece sob controle brasileiro. Será mesmo?
A própria Globe afirmou que a operação preserva o controle nacional de uma companhia estratégica para a defesa do país.
A questão que o mercado deveria fazer
A pergunta mais importante não é quanto a Avibras faturou no passado.
É:
Quanto pode valer uma capacidade industrial estratégica brasileira se o Estado sob lula voltar a ampliar suas encomendas de defesa e a empresa conseguir transformar tecnologia em produção e exportação?
É essa possibilidade que pode justificar uma aquisição que, olhando apenas o balanço recente, pareceria difícil de explicar.
A Avibras não é interessante porque está saudável.
Ela pode ser interessante justamente porque ainda não está saudável — mas possui ativos que seriam extremamente caros e demorados de reconstruir.
Essa é uma clássica tese de recuperação.
Só que com uma diferença gigantesca:
O que os Batistas estão comprando de verdade
A Globe não está simplesmente comprando uma fábrica.
Está comprando uma o apoio do governo Lula para liberar financiamento barato pelo BNDES e ainda garantir a compra dos produtos fabricados independente do preço.
Se a recuperação funcionar, a Avibras poderá voltar a disputar grandes programas militares, ampliar exportações, desenvolver novas tecnologias e participar de cadeias internacionais de defesa. E ajudar até mesmo com doações em campanhas eleitorais.
Se isso acontecer, o valor do ativo poderá ser muito superior ao que seus números atuais sugerem.
Mas se os contratos não vierem, se o orçamento de defesa não crescer ou se a empresa não conseguir transformar conhecimento tecnológico em escala industrial, a aposta poderá se revelar muito mais difícil.
É uma aposta de alto potencial e alta dependência institucional.
O que ninguém está comentando
Existe uma coincidência que não pode ser ignorada.
O governo Lula voltou a colocar a Avibras agora com os Batistas no centro do discurso sobre indústria e defesa justamente quando a companhia saía de uma crise de quatro anos e começava a receber novo capital privado.
Joesley Batista participou do financiamento da retomada.
Lula foi à fábrica.
O governo voltou a falar em fortalecimento da indústria nacional de defesa.
E agora os Batistas avançam para assumir o controle da estrutura que concentra os ativos estratégicos da companhia.
Isso não permite afirmar que houve favorecimento.
Mas permite afirmar que os interesses convergiram.
Os Batistas enxergaram valor nessa capacidade só agora?
A questão que fica para o mercado é muito maior do que a compra em si:
Os Batistas estão comprando uma empresa que quase não faturava ou estão comprando a posição privilegiada para capturar o valor da próxima fase da liberação de dinheiro barato do bndes na gestão Lula?
A resposta dependerá dos próximos contratos. E de quem será o próximo presidente da República


