Credcesta: como decretos de Rui Costa e articulações de Jaques Wagner do PT ajudaram a criar o negócio que chegou ao Banco Master

Privatização de ativo estatal por R$ 15 milhões foi seguida por mudanças que ampliaram o crédito consignado; anos depois, o negócio chegou ao Banco Master e entrou no radar da Polícia Federal

A história do Banco Master ganhou um novo capítulo que começa muito antes da ascensão de Daniel Vorcaro. No centro dessa trajetória está o Credcesta, cartão criado originalmente para permitir que servidores públicos da Bahia comprassem produtos da rede estatal Cesta do Povo e pagassem por meio de desconto em folha.

A arquitetura da maior fraude financeira da história do Brasil jamais teria sido possível se Daniel Vorcaro, do Banco Master, não tivesse se associado ao empresário baiano Augusto Lima, no final de 2018. E Augusto Lima, o Guga, não teria prosperado sem a ajuda direta dos políticos petistas mais famosos da Bahia, Jaques Wagner e Rui Costa.

A operação passou por uma transformação decisiva depois da privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), em 2018. O ativo foi vendido por R$ 15 milhões e, apenas 16 dias depois, dois decretos assinados pelo então governador Rui Costa (PT), ampliaram significativamente as possibilidades de utilização do cartão.

Naquele momento, Jaques Wagner (PT) ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia e participou da estruturação da privatização. Anos depois, o negócio se conectaria ao grupo de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

O ponto central da história não é apenas quem comprou o ativo estatal. É o que aconteceu com ele depois da venda — e como mudanças regulatórias transformaram um antigo cartão de compras em uma plataforma de crédito consignado com acesso direto à folha de pagamento dos servidores.

De cartão de supermercado a negócio financeiro

A Ebal era uma empresa estatal criada na Bahia para operar a rede Cesta do Povo. O modelo perdeu relevância ao longo dos anos e acumulou prejuízos.

O governo baiano tentou privatizar a companhia duas vezes sem encontrar interessados. Em 2016, o lance mínimo era de R$ 81 milhões. A segunda tentativa também fracassou.

Na terceira tentativa, já durante o governo Rui Costa, o desenho da operação foi alterado. O programa Credicesta — posteriormente denominado Credcesta — foi incorporado ao processo de desestatização.

O resultado foi a venda, em abril de 2018, da Ebal, de 49 lojas da Cesta do Povo e do Credcesta por R$ 15 milhões, valor muito inferior ao lance mínimo de R$ 81 milhões utilizado anteriormente.

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O que aconteceu depois é o elemento que torna a operação particularmente relevante para o caso Master.

Apenas 16 dias depois, o governo do PT mudou as regras

Em 27 de abril de 2018, somente 16 dias depois do leilão, Rui Costa assinou dois decretos relacionados ao funcionamento do Credcesta.

Segundo os documentos levantados pelo Poder360, o primeiro decreto permitiu que o operador do cartão ampliasse suas funcionalidades, incluindo serviços creditícios e financeiros.

O segundo inseriu o detentor dos direitos do programa no sistema de consignações em folha e estabeleceu uma margem específica para as operações.

Na prática, o Credcesta deixou de ser apenas um mecanismo para compras de alimentos e passou a ter condições para funcionar como uma plataforma de crédito consignado.

O desenho incluía ainda uma característica extremamente valiosa para qualquer instituição financeira: o pagamento das parcelas era descontado diretamente da folha salarial dos servidores públicos.

Isso reduz drasticamente o risco de inadimplência e cria uma carteira de crédito com fluxo de pagamento previsível.

O detalhe que muda a dimensão do negócio

O novo desenho permitiu que servidores utilizassem o Credcesta para obter dinheiro em espécie, além das compras.

A reportagem também aponta que o cartão recebeu uma margem própria de consignação, separada da margem bancária tradicional.

Em outras palavras: um ativo que originalmente estava associado a uma rede estatal de supermercados passou a ter características de uma operação financeira.

E isso aconteceu depois que o ativo já havia sido privatizado.

Esse encadeamento é fundamental para compreender a controvérsia.

Se as condições que tornariam o Credcesta altamente rentável fossem conhecidas e incorporadas ao edital antes do leilão, poderiam, em tese, ter afetado o interesse de outros compradores e o próprio valor atribuído ao ativo.

Essa é uma das principais questões levantadas pela reportagem: por que determinadas vantagens regulatórias foram concedidas depois da privatização, e não apresentadas previamente a todos os potenciais interessados?

Não há, porém, nesta reportagem, uma decisão judicial que estabeleça que a venda foi ilegal ou que os atos administrativos tenham sido praticados com finalidade ilícita. O que existe são questionamentos, investigações e uma sequência de atos que passou a ser examinada no contexto do caso Master.

O segundo movimento: impedir a portabilidade

A história não terminou em 2018.

Em 13 de janeiro de 2022, Rui Costa, ainda governador da Bahia, assinou outro decreto relacionado ao Credcesta.

A norma retirou as operações do Credcesta da regra geral de portabilidade que permitia ao servidor transferir sua dívida para outra instituição financeira.

Na prática, isso dificultava que o funcionário público levasse seu empréstimo para um banco concorrente que oferecesse condições melhores.

Do ponto de vista financeiro, esse detalhe é relevante.

Portabilidade é um mecanismo de concorrência. Quando um cliente pode levar uma dívida de uma instituição para outra, os bancos precisam disputar esse cliente oferecendo juros menores ou melhores condições.

Restringir essa possibilidade protege a carteira existente contra a concorrência.

No caso do Credcesta, portanto, a sequência apresentada pela reportagem envolve três elementos:

  1. Privatização do ativo estatal;
  2. Ampliação das possibilidades de crédito após a venda;
  3. Restrição posterior à portabilidade das dívidas.

É essa combinação que transformou o episódio em uma peça importante da investigação sobre a trajetória do negócio.

Augusto Lima é a ponte entre a Bahia e Vorcaro do Banco Master

Outro personagem fundamental é Augusto Ferreira Lima, conhecido como Guga.

Segundo a reportagem, Lima atuou nos bastidores da negociação da Ebal e mantinha contato com Jaques Wagner. Posteriormente, tornou-se sócio de Daniel Vorcaro.

Em 2018, Augusto Lima procurou Vorcaro, então controlador do Banco Máxima, para levar o Credcesta ao negócio financeiro.

O Banco Máxima adquiriu 50% da PKL One, empresa que detinha os direitos de exploração da operação. Mais tarde, o Banco Máxima seria reestruturado e passaria a se chamar Banco Master.

É aí que a história deixa de ser apenas uma discussão sobre a privatização de uma estatal baiana.

O Credcesta passou a integrar a estrutura financeira que ajudaria a impulsionar a expansão do grupo de Vorcaro.

LEIA TAMBÉM: Banco Master criou “máquina de crédito” dentro do Estado da Bahia — e isso ajuda a explicar o colapso

A operação saiu da Bahia e ganhou escala

O que começou como um cartão destinado ao funcionalismo baiano ganhou escala muito maior.

O número de contratos do Credcesta registrados pela Dataprev passou de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024.

O crescimento chamou a atenção do próprio INSS, que abriu uma apuração para verificar a regularidade das contratações. Documentos mencionados na reportagem apontaram “desconformidades” em operações de crédito consignado associadas ao produto e risco potencial de prejuízo aos beneficiários.

Esse crescimento ajuda a dimensionar por que um ativo aparentemente pequeno na origem se tornou tão relevante.

O valor da operação não estava mais nas lojas da Cesta do Povo.

Estava na carteira de crédito.

E, sobretudo, no acesso a milhões de consumidores com renda descontada diretamente na folha ou no benefício.

O elo com o caso Master

A conexão com o Banco Master se tornou ainda mais importante depois que a Polícia Federal passou a investigar a estrutura financeira construída ao redor de Vorcaro.

A 9ª fase da Operação Compliance Zero, realizada em junho de 2026, atingiu Jaques Wagner e Augusto Lima. A investigação autorizada pelo STF apura suspeitas relacionadas a corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Documentos mencionados também registram uma transferência de R$ 3,5 milhões, em outubro de 2025, da PKL One para a BN Financeira, empresa que a decisão judicial associou ao núcleo familiar de Jaques Wagner.

A decisão também menciona planilhas encontradas pela investigação com pagamentos atribuídos a uma pessoa identificada como “Dudu”, que os investigadores relacionam a Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner.

Esses elementos são objeto de investigação e não equivalem, por si só, a uma condenação ou prova definitiva de que Wagner tenha recebido propina.

Essa distinção é essencial.

O que Wagner diz

Jaques Wagner nega irregularidades.

Em manifestação à reportagem, sua defesa afirmou que o senador já prestou os esclarecimentos necessários e que os méritos das questões estão sendo discutidos nos autos.

Na CPMI do INSS, em fevereiro de 2026, Wagner também defendeu a privatização da Ebal e afirmou que não conhecia o Banco Máxima ou o Banco Master quando a operação foi realizada.

Segundo a versão apresentada pelo senador, a venda envolveu um fundo espanhol e ocorreu antes da existência do Banco Master. Wagner também atribuiu ao Banco Central de outro governo a posterior autorização da conexão entre o grupo financeiro e o Credcesta.

E Rui Costa?

Rui Costa, atualmente ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia, não respondeu às solicitações do Poder360 feitas para a reportagem.

O que está documentado é que Rui Costa assinou os decretos de 27 de abril de 2018 que ampliaram as funcionalidades do Credcesta e o inseriram no sistema de consignações, além de ter assinado, em 2022, o decreto que alterou as regras de portabilidade relacionadas às dívidas do cartão.

Os fatos que contam a história permanecem

A parte mais importante desse caso está justamente na cronologia.

2014: Jaques Wagner sanciona a autorização para privatização da Ebal.

2016: primeira tentativa de venda, com lance mínimo de R$ 81 milhões, fracassa.

2018: segunda tentativa fracassa.

Abril de 2018: governo Rui Costa inclui o Credicesta na estrutura da privatização.

11 de abril de 2018: Ebal, lojas e Credcesta são vendidos por R$ 15 milhões.

27 de abril de 2018: dois decretos de Rui Costa ampliam as funcionalidades financeiras do Credcesta.

Segundo semestre de 2018: Augusto Lima se aproxima de Daniel Vorcaro.

2018: o Banco Máxima entra na estrutura da operação.

2019: servidores baianos recebem novos cartões e o Credcesta passa a permitir saques em dinheiro.

2022: novo decreto de Rui Costa restringe a portabilidade das dívidas.

2024: Augusto Lima deixa a sociedade com Vorcaro e assume o Banco Pleno que também é liquidado no escândalo do Master

2025: Banco Master entra em colapso e é liquidado pelo Banco Central.

2026: investigações da Polícia Federal passam a atingir também políticos e empresários relacionados à trajetória do Credcesta.

A sequência não prova, isoladamente, que os atos administrativos tenham sido concebidos para beneficiar Daniel Vorcaro — até porque Vorcaro entrou diretamente na estrutura depois da privatização.

Mas ela mostra algo que merece ser investigado com profundidade: um ativo estatal vendido por R$ 15 milhões ganhou características altamente rentáveis imediatamente depois da privatização e, meses mais tarde, tornou-se parte de uma estrutura financeira ligada ao homem que comandaria o Banco Master.

O ponto que o investidor precisa entender

Para o mercado financeiro, o caso Credcesta expõe uma questão maior do que a disputa política.

O verdadeiro ativo não era o cartão. Era a carteira.

Uma base concentrada de servidores públicos, com desconto automático em folha, representa uma fonte potencialmente valiosa de receitas financeiras.

Quando esse tipo de carteira é combinado com margem consignável, possibilidade de saque em dinheiro e baixa inadimplência, o produto pode se transformar em uma máquina de geração de crédito.

Foi essa transformação que fez o Credcesta deixar de ser uma peça secundária da antiga Cesta do Povo e passar a integrar uma engrenagem financeira de escala nacional.

E é justamente por isso que a origem da operação voltou ao centro das atenções no caso Banco Master.

A pergunta agora não é apenas quanto o Master movimentou. É como determinados ativos públicos e relações políticas ajudaram a criar as condições para que esse negócio se tornasse tão valioso.

O caso, portanto, permanece aberto — e a investigação terá de determinar se a sequência de decisões administrativas foi apenas uma política de reorganização de um ativo estatal deficitário ou se houve, como suspeitam os investigadores, uma atuação coordenada para beneficiar interesses privados.

Para quem acompanha o Banco Master, entretanto, uma conclusão já é possível: a história do banco não começa em Brasília, nem termina na liquidação da instituição. Uma parte importante de sua trajetória passa pela Bahia e por um cartão que, depois de privatizado, deixou de ser apenas um benefício para servidores e se transformou em um negócio financeiro de grande escala e imenso lucro.

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Entenda como a privatização do Credcesta por R$ 15 milhões, decretos de Rui Costa e articulações de Jaques Wagner se conectam à trajetória do Banco Master.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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