Importações chinesas avançam no Brasil e ampliam risco sobre a indústria e empregos

Ex-embaixador do México na China alerta para o impacto da capacidade industrial chinesa sobre outros países; dados oficiais mostram que compras brasileiras do país asiático somaram US$ 51,6 bilhões até agosto de 2026

O avanço das importações chinesas no Brasil colocou novamente no centro do debate a capacidade da indústria nacional de competir com produtos fabricados na China. O alerta foi feito pelo ex-embaixador do México na China Jorge Guajardo, que afirmou que a expansão das vendas chinesas ao exterior pode ameaçar empregos industriais brasileiros.

Os dados oficiais mostram que a presença chinesa nas importações brasileiras continua crescendo. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou US$ 51,56 bilhões da China, alta de 9,5% sobre o mesmo período de 2025. A participação chinesa no total importado pelo país subiu de 25,6% para 26,4%.

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No aço, a pressão é ainda mais concentrada: em 2025, o Brasil importou 5,7 milhões de toneladas de produtos laminados, alta de 20,5%, sendo 63,7% desse volume originário da China, segundo o Instituto Aço Brasil.

O cenário coloca uma questão econômica que vai além da balança comercial: quanto da produção industrial brasileira pode ser substituído por produtos importados e quais são os efeitos dessa mudança sobre investimentos, fornecedores e empregos?

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Resumo executivo

  • Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China, afirmou que as importações chinesas podem ameaçar empregos industriais brasileiros.
  • O Brasil importou US$ 51,56 bilhões da China de janeiro a agosto de 2026, alta de 9,5% em relação ao mesmo período de 2025.
  • A China respondeu por 26,4% de todas as importações brasileiras no acumulado até agosto.
  • Em 2025, as importações brasileiras de laminados chegaram a 5,7 milhões de toneladas, alta de 20,5%.
  • 63,7% dos laminados importados em 2025 vieram da China, segundo o Instituto Aço Brasil.
  • O setor siderúrgico afirma que o avanço das importações já afetou empregos e investimentos.
  • O Brasil, porém, também ampliou sua relação econômica com a China, inclusive por meio de investimentos chineses no país.
  • A discussão envolve simultaneamente competitividade, defesa comercial, preços, empregos, investimentos e acesso ao mercado chinês.

O alerta do ex-embaixador

Jorge Guajardo participou na terça-feira (29) do Congresso Aço Brasil 2026, em São Paulo, e defendeu que países adotem mecanismos para conter a entrada de produtos chineses quando houver competição considerada desleal.

O ex-diplomata mexicano, que foi embaixador na China, argumenta que a expansão da capacidade produtiva chinesa aumentou a pressão sobre mercados estrangeiros.

A avaliação apresentada por Guajardo é particularmente relevante para setores industriais nos quais o Brasil mantém produção doméstica e enfrenta concorrência direta de produtos importados.

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O ponto central de seu alerta não é simplesmente o crescimento do comércio entre os dois países, mas a possibilidade de que uma parcela maior da produção destinada ao mercado brasileiro passe a ser atendida por fabricantes chineses.

Esse processo pode afetar a indústria nacional de maneiras diferentes: redução da produção local, menor utilização da capacidade instalada, adiamento de investimentos e, em determinados setores, redução de postos de trabalho.

A relação, entretanto, não é automática. Importações também podem reduzir custos, ampliar a oferta, aumentar a concorrência e fornecer máquinas, componentes e insumos utilizados pela própria indústria brasileira.

Os números mostram que a presença chinesa aumentou

O comércio exterior brasileiro fornece um indicador objetivo da dimensão desse movimento.

Entre janeiro e agosto de 2026, as importações brasileiras originárias da China somaram US$ 51,56 bilhões.

No mesmo período de 2025, haviam sido US$ 47,08 bilhões.

O crescimento foi de 9,5%.

A participação chinesa no total das importações brasileiras passou de 25,6% para 26,4%.

O movimento não ocorreu de maneira uniforme ao longo do ano.

Em agosto de 2026, por exemplo, as compras brasileiras da China chegaram a US$ 6,61 bilhões, representando 25,7% das importações totais daquele mês.

O dado ajuda a dimensionar o tamanho da relação: aproximadamente US$ 1 de cada US$ 4 importados pelo Brasil teve origem chinesa no acumulado de janeiro a agosto.

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O aço é um dos setores mais expostos

A siderurgia oferece um dos exemplos mais concretos da disputa.

Segundo o Instituto Aço Brasil, as importações de produtos laminados alcançaram 5,7 milhões de toneladas em 2025, crescimento de 20,5%.

A China respondeu por 63,7% desse volume.

O instituto também afirmou, em dezembro de 2025, que o avanço das importações havia contribuído para o fechamento de 5 mil vagas e para o corte de R$ 2,5 bilhões em investimentos no setor naquele ano. Esses números são estimativas apresentadas pelo próprio Instituto Aço Brasil e não representam uma medição independente de todo o mercado de trabalho brasileiro.

A pressão levou o governo brasileiro a adotar medidas de defesa comercial.

Em fevereiro de 2026, o Gecex aprovou direito antidumping definitivo, por até cinco anos, sobre determinados laminados planos a frio e revestidos originários da China.

Isso mostra que o debate já deixou o campo das declarações e alcançou instrumentos concretos da política comercial brasileira.

China avança além das importações e amplia presença em setores estratégicos

A disputa com a China não se limita ao avanço das importações brasileiras de produtos manufaturados. Ao mesmo tempo em que empresas chinesas ampliam sua participação no mercado consumidor brasileiro, investimentos do país asiático vêm se concentrando em áreas consideradas estratégicas para a economia, como energia elétrica, petróleo, mineração, automóveis e infraestrutura.

Em 2025, energia elétrica respondeu por 29,5% dos investimentos chineses no Brasil, enquanto a mineração representou 29%, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). O setor automotivo ficou com 15,8%, petróleo com 13,3% e tecnologia da informação com 6,3%.

O movimento é diferente da simples venda de mercadorias. Quando uma empresa estrangeira instala fábricas, participa de projetos de energia, investe em mineração ou entra em infraestrutura, sua presença passa a ocorrer dentro da cadeia produtiva brasileira, e não apenas no comércio exterior.

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Esse avanço também ocorre em áreas relacionadas à transição energética e aos minerais críticos, considerados relevantes para baterias, veículos elétricos, eletrônica e outras tecnologias. A China já possui uma posição de destaque mundial em etapas de processamento e refino de diversos minerais estratégicos, o que aumenta a importância de sua presença nas cadeias globais desses produtos.

O ponto central, portanto, não é afirmar que a China controla a economia brasileira — os dados não sustentam essa generalização. A questão é outra: o capital chinês está simultaneamente aumentando sua presença em diferentes elos considerados estratégicos para o Brasil, enquanto os produtos chineses também ganham espaço no mercado doméstico.

É essa combinação — comércio de bens, investimento direto, presença industrial e participação em infraestrutura e recursos naturais — que torna a relação econômica entre Brasil e China diferente de uma simples relação entre comprador e vendedor.

O ponto central: importação não é sinônimo de perda de emprego

É importante separar duas questões.

A primeira é factual: as importações chinesas aumentaram e a participação da China nas compras brasileiras é elevada.

A segunda é econômica: qual será o efeito desse avanço sobre o emprego e a produção nacional?

Esse resultado varia conforme o setor.

Quando um produto importado substitui diretamente uma mercadoria fabricada no Brasil, pode haver pressão sobre empresas nacionais e seus trabalhadores.

Quando o produto chinês é uma máquina, componente ou matéria-prima utilizada por uma empresa brasileira, o efeito pode ser diferente: o insumo mais barato pode reduzir custos e aumentar a competitividade da produção nacional.

Por isso, o impacto não pode ser medido apenas pelo valor total das importações.

É necessário observar quais produtos entram, quais empresas nacionais concorrem com eles, quanto da produção doméstica é substituído e qual é o efeito sobre os investimentos.

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O que ninguém comenta

A questão mais importante pode estar menos no volume absoluto de importações e mais na mudança da estrutura produtiva.

Uma indústria pode continuar vendendo ao consumidor brasileiro enquanto reduz progressivamente sua produção local e passa a depender de fornecedores estrangeiros.

Nesse cenário, a perda potencial não aparece imediatamente nas estatísticas de comércio como fechamento de uma fábrica.

Ela pode surgir primeiro como redução da capacidade instalada, menor contratação, diminuição de investimentos ou desaparecimento de fornecedores nacionais.

O movimento também pode ocorrer no sentido contrário.

Empresas brasileiras que conseguem utilizar componentes chineses mais baratos podem ganhar competitividade, investir mais e ampliar suas próprias exportações.

É justamente por isso que o impacto econômico das importações chinesas precisa ser analisado setor por setor, e não apenas pelo saldo comercial entre os dois países.

A China também está investindo no Brasil

A relação econômica não ocorre apenas por meio das importações.

Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, o Brasil foi o país que mais recebeu investimentos chineses no mundo em 2025.

Os aportes chegaram a US$ 6,1 bilhões, alta de 45% em relação ao ano anterior, com destaque para eletricidade, mineração e setor automotivo. O levantamento também registra a inauguração de fábricas da GWM e da BYD no Brasil.

Isso cria uma segunda dimensão para o debate.

A empresa chinesa pode entrar no mercado brasileiro de duas maneiras: exportando diretamente para o país ou produzindo dentro do próprio Brasil.

No primeiro caso, a pressão recai diretamente sobre fabricantes nacionais que disputam o mercado com produtos importados.

No segundo, parte da produção, dos empregos e dos investimentos pode ocorrer dentro do território brasileiro, ainda que o capital controlador seja estrangeiro.

A composição desse investimento — incluindo fornecedores locais, conteúdo nacional, tecnologia e exportações — passa a ser relevante para medir seu efeito sobre a economia brasileira.

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O Brasil depende da China em duas pontas

A relação comercial também impede uma leitura simples de confronto entre indústria brasileira e produtos chineses.

A China é um dos principais mercados para as exportações brasileiras e ocupa posição central na pauta comercial do país.

O comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China.

Ao mesmo tempo em que o Brasil vende grandes volumes para o mercado chinês, compra cada vez mais produtos chineses.

Essa assimetria setorial é importante.

O Brasil possui forte presença nas exportações de commodities e vem ampliando também algumas vendas de produtos industriais, enquanto a China possui grande capacidade de produção manufatureira e tecnológica.

O resultado é uma relação comercial em que os dois países ganham mercados, mas em setores diferentes.

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A disputa agora é pela indústria

O debate provocado por Guajardo coloca em evidência uma questão que ultrapassa o aço.

A indústria brasileira precisa competir simultaneamente com produtos chineses, custos domésticos, juros, infraestrutura, tributação e produtividade.

Ao mesmo tempo, medidas de proteção comercial podem elevar preços para consumidores e empresas que dependem de produtos importados.

Por isso, uma política de defesa comercial não elimina a necessidade de aumentar a competitividade da produção nacional.

O próprio governo brasileiro já utiliza instrumentos antidumping e outras medidas para determinados produtos, enquanto mantém aberta uma relação comercial ampla com a China.

O alerta de Jorge Guajardo ocorre sobre uma base que pode ser medida pelos dados oficiais: as importações brasileiras da China continuam crescendo e já representam mais de um quarto das compras externas do país.

No aço, a concentração é ainda maior. Em 2025, quase dois terços dos laminados importados tiveram origem chinesa, enquanto o setor brasileiro relatou impactos sobre empregos e investimentos.

Ao mesmo tempo, a China amplia investimentos produtivos no Brasil e permanece um mercado fundamental para as exportações brasileiras.

O dado mais relevante, portanto, não é simplesmente que o Brasil esteja importando mais da China.

É que a presença chinesa está avançando simultaneamente no comércio, na indústria e nos investimentos, criando uma disputa que poderá definir quais segmentos da produção manufatureira brasileira permanecerão competitivos, quais dependerão mais de fornecedores estrangeiros e onde serão realizados os próximos investimentos industriais.

Esse é o ponto que deverá determinar o efeito da expansão chinesa sobre a indústria e os empregos brasileiros.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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