PF indicia fundador da Reag por gestão fraudulenta e lavagem em investigação sobre esquema no setor de combustíveis

INVESTIDORES BRASIL

João Carlos Mansur foi indiciado com outras 12 pessoas; PF aponta uso de contas-bolsão e fundos encadeados para inserir recursos de origem ilícita no sistema financeiro

A Polícia Federal indiciou João Carlos Falbo Mansur, fundador e ex-presidente do conselho da Reag Investimentos, por gestão fraudulenta de instituição financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa no âmbito da Operação Quasar, investigação que apura a utilização de estruturas do mercado financeiro em um esquema envolvendo empresas do setor de combustíveis.

Mansur foi indiciado junto com outras 12 pessoas. Segundo a PF, recursos que teriam origem em sonegação fiscal e outros ilícitos atribuídos ao grupo econômico formado por Aster Petróleo e Copape foram introduzidos no Sistema Financeiro Nacional por meio de uma instituição de pagamento que operava contas-bolsão e, posteriormente, movimentados por uma cadeia de fundos de investimento administrados por distribuidoras de valores mobiliários.

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O caso amplia a frente de investigação envolvendo a Reag, que já havia aparecido na Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e infiltração de organizações criminosas na economia formal, e na Operação Compliance Zero, relacionada às suspeitas envolvendo o Banco Master.

O que a Polícia Federal está investigando

De acordo com a conclusão do relatório policial, os investigadores identificaram um mecanismo pelo qual recursos considerados de origem ilícita eram inicialmente movimentados por uma instituição de pagamento que mantinha contas-bolsão, nas quais os titulares finais dos recursos não eram identificados individualmente.

A partir dessas contas, segundo a PF, os valores eram direcionados para uma estrutura formada por fundos de investimento encadeados, administrados por três distribuidoras de títulos e valores mobiliários.

A descrição da PF é relevante porque mostra que a investigação não está concentrada apenas na origem do dinheiro, mas também no caminho percorrido pelos recursos dentro do sistema financeiro.

Em outras palavras, o foco da Operação Quasar está justamente na utilização de estruturas financeiras para dar aparência regular a recursos cuja origem era questionada pelos investigadores.

O relatório citado pela investigação aponta:

“Recursos de origem espúria” provenientes de sonegação fiscal e de outros ilícitos no setor de combustíveis teriam sido introduzidos no Sistema Financeiro Nacional por meio de contas-bolsão e posteriormente integrados a fundos encadeados.

A afirmação é da Polícia Federal e representa a conclusão investigativa apresentada no relatório. Não se trata, neste momento, de uma condenação judicial.

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Quem é João Carlos Mansur

Mansur fundou a Reag em 2012 e construiu sua trajetória no mercado financeiro antes de transformar a empresa em uma das maiores gestoras independentes de fundos do país.

A estrutura empresarial passou a aparecer em diferentes investigações policiais ao longo de 2025 e 2026.

Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antiga Reag Trust DTVM. A autoridade afirmou que a decisão foi motivada por “graves violações às normas” que regulam as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional.

A liquidação teve como termo legal o dia 17 de novembro de 2025, e os bens dos controladores e ex-administradores ficaram sujeitos à indisponibilidade prevista na legislação.

A medida administrativa do Banco Central, entretanto, é diferente do indiciamento criminal realizado pela Polícia Federal.

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A ligação com Aster e Copape

As empresas Aster Petróleo e Copape Produtos de Petróleo aparecem como parte central das investigações sobre o setor de combustíveis.

Reportagens anteriores apontaram que os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, mantiveram relações financeiras com a Reag durante anos.

Segundo levantamento divulgado anteriormente, aproximadamente R$ 700 milhões teriam sido aplicados em carteiras de crédito consignado do Banco Master por meio de fundos estruturados e administrados pela Reag. A investigação procura determinar se recursos de origem criminosa passaram por essas estruturas para adquirir aparência de operações financeiras regulares.

Em outra apuração, foi relatado que os dois empresários chegaram a manter cerca de R$ 1,8 bilhão sob gestão da Reag, antes do rompimento da relação entre as partes.

É justamente essa interseção entre combustíveis, fundos de investimento e instituições financeiras que tornou a Reag um dos pontos de interesse dos investigadores.

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O que muda com o novo indiciamento

O indiciamento acrescenta uma nova etapa formal à investigação.

Até então, Mansur já havia sido alvo de buscas e aparecia como investigado em diferentes operações. Agora, no âmbito da Operação Quasar, a PF atribui formalmente a ele, nesta investigação, suspeitas relacionadas a três tipos de crime:

  • gestão fraudulenta de instituição financeira;
  • lavagem de dinheiro;
  • organização criminosa.

Outros executivos ligados ao mercado financeiro também foram indiciados, incluindo pessoas relacionadas à Trustee Distribuidora e à BK Instituição de Pagamento.

O ponto central da investigação é determinar quem estruturou, autorizou, executou ou tinha conhecimento das operações utilizadas para movimentar os recursos.

Segundo a apuração da PF divulgada até agora, Mansur teria participado da arquitetura financeira dessas operações. A investigação utiliza, entre outros elementos, documentos, extratos bancários e análises técnico-contábeis.

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O elo com o Banco Master

O novo indiciamento acontece poucas semanas depois de outro movimento relevante envolvendo Mansur.

Em setembro, a Procuradoria-Geral da República assinou com ele um acordo de colaboração premiada relacionado à Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas envolvendo o Banco Master e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro.

Segundo a PGR, Mansur apresentou informações e documentos considerados novos sobre os fatos investigados e sobre a atuação de Vorcaro. O acordo, contudo, ainda depende de homologação judicial.

Essa distinção é importante.

A colaboração premiada e o indiciamento na Operação Quasar pertencem a frentes investigativas diferentes. O acordo relacionado ao caso Master não transforma automaticamente as declarações de Mansur em prova judicial válida: enquanto não houver homologação, o acordo não produz seus efeitos jurídicos próprios.

Ao mesmo tempo, a posição ocupada pela Reag nas duas investigações faz com que os casos se cruzem em determinadas operações financeiras.

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O que ninguém comenta: o caminho do dinheiro passou a ser tão importante quanto sua origem

O aspecto mais relevante da nova etapa da investigação está na engenharia financeira.

O caso não trata apenas de descobrir se determinada empresa deixou de pagar impostos ou se recursos tiveram origem ilícita. A PF procura identificar como esses valores foram transformados, transferidos e distribuídos por diferentes estruturas até ingressarem no sistema financeiro formal.

A sequência descrita no relatório — instituição de pagamento, contas-bolsão, fundos encadeados e diferentes distribuidoras — mostra justamente a complexidade desse mecanismo.

Esse tipo de estrutura pode criar diversas camadas entre o proprietário econômico de um recurso e o ativo ou fundo no qual o dinheiro finalmente aparece.

É por isso que a investigação passou a alcançar não apenas empresas de combustíveis, mas também gestoras, distribuidoras de valores, instituições de pagamento e fundos de investimento.

Reag já havia sido atingida pelo Banco Central

A situação da Reag não começou com o indiciamento de setembro.

Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF DTVM, antiga Reag Trust. Segundo o BC, a decisão decorreu de graves violações às normas aplicáveis às instituições financeiras.

O ato também estabeleceu a indisponibilidade de bens dos controladores e ex-administradores, conforme previsto na legislação de liquidação de instituições financeiras.

A medida administrativa e o indiciamento criminal são procedimentos distintos, mas ajudam a dimensionar como a Reag passou, em pouco tempo, de uma grande estrutura independente do mercado financeiro a uma instituição submetida a investigações policiais e a um processo de liquidação pelo regulador.

Mansur já havia negado vínculo com o crime organizado

Em depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado, em março de 2026, Mansur negou envolvimento com facções criminosas e afirmou que a Reag teria sido “penalizada por ser grande e independente”. Ele permaneceu em silêncio durante boa parte da sessão.

A posição apresentada na CPI deve ser considerada no contexto das investigações posteriores.

O novo indiciamento da PF representa a posição dos investigadores após a análise do material reunido na Operação Quasar. Caberá ao Ministério Público avaliar os elementos produzidos e decidir os próximos passos processuais.

O que acontece agora

Com o relatório da Polícia Federal concluído, os próximos passos dependem da tramitação da investigação e da análise do Ministério Público.

Paralelamente, permanece pendente a homologação da colaboração premiada de Mansur no caso Master. O acordo foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator da frente correspondente no Supremo Tribunal Federal.

Assim, Mansur passou a ocupar uma posição incomum dentro das investigações: é simultaneamente investigado e colaborador em frentes distintas, enquanto seu antigo grupo empresarial é alvo de medidas regulatórias e aparece em investigações que conectam o mercado financeiro ao setor de combustíveis.

O novo indiciamento coloca a estrutura financeira no centro da investigação sobre o esquema envolvendo empresas do setor de combustíveis.

A principal questão agora não é apenas quanto dinheiro teria sido sonegado ou de onde vieram os recursos, mas como o dinheiro teria percorrido o sistema financeiro, quais instituições participaram das operações, quem controlava economicamente os ativos e qual era a finalidade de cada camada da estrutura.

A PF sustenta que recursos provenientes de sonegação e outros ilícitos foram introduzidos no sistema financeiro por meio de contas-bolsão e posteriormente movimentados por fundos encadeados.

O caso ainda está em fase investigativa. O indiciamento de João Carlos Mansur representa uma conclusão da Polícia Federal sobre os elementos reunidos até aqui, não uma decisão judicial definitiva sobre sua responsabilidade criminal.

A Operação Quasar desloca o foco da investigação dos postos e empresas de combustíveis para a infraestrutura financeira que, segundo a PF, teria permitido transformar recursos de origem ilícita em operações com aparência regular.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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