Mensagem atribuída à lobista Roberta Luchsinger que atuava junto com o “Careca do INSS”, afirma que Lula perguntou “onde você quer ficar”; investigação apura possível tráfico de influência e relações com negócios de cannabis medicinal
A investigação da Polícia Federal que envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ganhou um novo elemento de forte impacto político nesta quinta-feira (20). Mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), indicam que o próprio presidente teria perguntado a ela onde gostaria de “ficar”, em uma possível referência a uma posição dentro do governo federal.
O conteúdo foi divulgado pela revista Veja e integra material analisado pela Polícia Federal após a quebra do sigilo telemático de Roberta, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A informação é relevante porque surge dentro de uma investigação que não se limita à relação pessoal entre Roberta e Lulinha. A PF apura se o filho do presidente atuou, direta ou indiretamente, para influenciar decisões ou abrir portas no governo federal em interesses privados relacionados ao mercado de cannabis medicinal.
“Escolhe onde você quer ficar”: o que dizem as mensagens
Em conversa com um contato identificado como Gustavo Gaspar, Roberta teria relatado uma conversa com Lula nos seguintes termos:
“Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde você quer ficar.”
Segundo a própria Roberta, entretanto, ela teria respondido que preferia permanecer na estrutura empresarial que mantinha com Fábio Luís e Fernando Bittar. Bittar é amigo de Lula envolvido no escândalo antigo de Lula sobre o sítio de Atibaia, o qual Lula vivia como dono, tinha fotos e pertences, e após investigação afirmava que não era dono.
“Eu disse: onde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.”
Roberta descrevia uma relação de extrema proximidade com Lulinha
Em outra conversa, Roberta teria afirmado não exercer nenhuma função pública e destacado a proximidade com Fábio Luís.
“Tô em cargo nenhum e ando onde eu quero.”

Em seguida, descreveu a relação com Lulinha de maneira particularmente próxima:
“Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala, todos vão. A gente é mesmo irmão sabe.”
A PF investiga justamente se essa proximidade pessoal poderia ter sido utilizada para facilitar interlocuções com integrantes do governo.
Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, os investigadores identificaram um grupo formado por Roberta, Lulinha e Fernando Bittar que teria funcionado como um núcleo de articulação de interesses privados junto a órgãos públicos da gestão Lula. A Folha informou que a PF identificou uma “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e Roberta.
“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa”
Outra mensagem atribuída a Roberta chama atenção pelo modo como ela descreve a participação de Lulinha nos negócios.
“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar.”
A frase passou a ser analisada pelos investigadores dentro do contexto mais amplo das conversas encontradas no material apreendido.
Em outra mensagem, atribuída ao próprio Lulinha, Roberta aparece como alguém que teria participação na administração financeira do grupo:
“A gente tem grana pra bancar essas coisas? Você que cuida das minhas finanças.”
O conjunto de mensagens, portanto, é analisado pela PF não de forma isolada, mas em conjunto com documentos, contatos, movimentações e relações empresariais.
O elo com o negócio de cannabis medicinal
A investigação ganhou dimensão maior porque as relações entre Roberta, Lulinha e outros empresários aparecem associadas a uma tentativa de avançar negócios envolvendo medicamentos à base de canabidiol no governo federal.
A PF apura suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas a tratativas com o Ministério da Saúde.
Em um dos episódios já revelados, Roberta teria encaminhado uma minuta de contrato ao ex-chefe do Gabinete Pessoal de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. O documento estaria relacionado à venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Marcola confirmou ter recebido o documento, mas negou ter dado andamento à negociação ou favorecido os envolvidos. Segundo as informações disponíveis, o negócio não chegou a ser concretizado.
A PF também investiga a relação de Roberta com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, personagem central nas investigações sobre fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Em depoimento à PF, Roberta afirmou que seus negócios com Antunes estavam relacionados à regulação do mercado de cannabis medicinal e negou ter repassado dinheiro a Lulinha.
A mudança de Lulinha para a Espanha também aparece nas conversas
As mensagens analisadas pelos investigadores também incluem referências à mudança de Lulinha para o exterior.
Em janeiro de 2025, Roberta teria escrito:
“As coisas irão acontecer pq eu tenho q tirar o Fábio e família do país até junho.”
Lulinha posteriormente se mudou para Madri, na Espanha, onde vivem sua mulher e seus filhos.
Por que a PF considera a relação relevante?
O ponto que transforma as mensagens em uma questão potencialmente mais grave é a combinação entre três elementos:
1. proximidade pessoal com o filho do presidente;
2. interlocução com integrantes da estrutura do governo Lula;
3. tentativa de viabilizar negócios privados envolvendo órgãos públicos.
4. Repasses de dinheiro e joias a Lulinha e integrantes do governo Lula.
A PF já havia identificado que Roberta apresentou Lulinha ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes. Em depoimento, ela afirmou que a apresentação ocorreu em um “contexto social” e negou que Lulinha tivesse prestado serviços relacionados à regulação do canabidiol ou recebido remuneração por isso.
Defesa de Lulinha nega irregularidades
O advogado de Fábio Luís, Marco Aurélio de Carvalho, nega que seu cliente tenha ligação com negócios da administração pública e afirma que ele é submetido a um escrutínio diferenciado por ser filho do presidente.
A defesa sustenta que o peso do sobrenome Lula influencia a maneira como Lulinha é tratado nas investigações.
Do outro lado, a PF continua examinando mensagens e documentos para determinar se a relação entre os envolvidos ultrapassou o campo pessoal e empresarial e alcançou uma atuação de influência sobre agentes públicos.
A investigação agora chega a um ponto mais sensível
A nova revelação muda o foco político do caso porque coloca, ainda que por meio do relato de uma investigada, o nome do próprio presidente Lula dentro da narrativa das mensagens analisadas pela PF.
Até agora, o eixo principal estava na relação entre Lulinha, Roberta Luchsinger e o chamado Careca do INSS, além das tentativas de interlocução com o Ministério da Saúde.
A alegação de que Lula teria perguntado a Roberta “onde você quer ficar” acrescenta uma questão diferente: qual era o grau de proximidade da lobista com o núcleo político do governo e até onde essa proximidade poderia chegar?
A resposta dependerá das provas que ainda serão examinadas pela investigação.
No mesmo dia da nova revelação, a Procuradoria-Geral da República, indicada por Lula pediu que um dos inquéritos envolvendo Lulinha seja enviado à primeira instância, argumentando que não haveria autoridade com foro privilegiado entre os investigados. A decisão sobre o pedido cabe ao ministro André Mendonça.
Esta função não seria neste momento responsabilidade da PGR, segundo especialista, que afirmam que o fato pode configurar uma forma de no mínimo atrasar as investigações contra Lulinha, que vem revelando cada vez fatos mais graves, enquanto a eleição se aproxima e Lula quer novo mandato.
O caso, portanto, entra em uma fase em que mensagens, relações pessoais, negócios privados e acesso ao governo precisarão ser confrontados com documentos, fluxos financeiros e depoimentos.
É essa conexão — e não apenas a amizade entre Roberta e Lulinha — que pode definir a dimensão real das suspeitas investigadas pela Polícia Federal.


