R$ 626 milhões: PF encontra plano para vender canabidiol ao Ministério da Saúde sem licitação, e investiga elo entre Lulinha, Careca do INSS e ex-chefe de gabinete de Lula

Documentos e mensagens apreendidos pela Polícia Federal revelam uma tentativa de estruturar uma venda milionária de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O plano previa até 1,2 milhão de frascos, contratação por dispensa de licitação e uma minuta que chegou ao ex-chefe de gabinete do presidente Lula. A PF investiga se Lulinha atuou para viabilizar o negócio.

A Polícia Federal encontrou nos celulares de investigados um plano de negócios que poderia movimentar até R$ 626 milhões em uma operação envolvendo medicamentos à base de canabidiol e o Ministério da Saúde.

O caso coloca no mesmo núcleo de investigação Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; a lobista Roberta Luchsinger; o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”; e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que ocupava a chefia do Gabinete Pessoal do presidente da República.

O negócio, porém, não foi concretizado.

A cifra de R$ 626 milhões é uma estimativa relacionada ao volume previsto no projeto. O material encontrado pela PF previa o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de canabidiol, mas a documentação localizada não apresentava necessariamente um valor fechado para a contratação. Apurações anteriores indicaram preços de mercado que poderiam levar a uma operação superior a R$ 500 milhões. O plano de negócios foi obtido e divulgadas pelo O Globo.

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O que chamou a atenção da Polícia Federal

O elemento mais sensível da investigação não é apenas o tamanho potencial do negócio.

É a forma como a contratação teria sido preparada antes de qualquer processo oficial do governo.

Mensagens apreendidas pela PF mostram que integrantes ligados ao “Careca do INSS” trabalharam na elaboração de um Termo de Referência, documento técnico utilizado para estruturar uma contratação pública.

O arquivo previa a aquisição de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo Ministério da Saúde e indicava a possibilidade de dispensa de licitação.

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Segundo as mensagens, a intenção seria entregar ao governo um documento já estruturado, em vez de esperar que a própria administração pública definisse as condições da eventual contratação. A documentação também apontava empresas que participariam do fornecimento.

É justamente esse movimento que aumenta a relevância da investigação: um negócio privado estaria sendo preparado com características de uma contratação pública antes de existir uma demanda formal do Ministério da Saúde.

A minuta que chegou ao gabinete presidencial

A investigação ganhou outro elemento quando a PF encontrou mensagens indicando que Roberta Luchsinger enviou uma minuta relacionada ao negócio para Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe do Gabinete Pessoal do presidente Lula.

Marcola confirmou ter recebido o arquivo.

O ex-chefe de gabinete classificou o recebimento como inadequado, mas afirmou que não deu andamento à proposta, não negociou o contrato e não encaminhou o documento dentro da administração pública.

A defesa de Lulinha também sustenta que o material não teve encaminhamento por Marcola e nega que o filho do presidente tenha participado irregularmente do negócio.

Esse ponto é fundamental: o fato de a minuta ter chegado ao gabinete não significa, por si só, que o contrato tenha sido negociado ou que agentes públicos tenham favorecido a operação. Essa é justamente uma das questões que a PF tenta esclarecer.

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Onde entra Lulinha

A conexão com Lulinha é investigada a partir da relação dele com Roberta Luchsinger e de elementos encontrados nas apurações.

Em 30 de julho de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de investigação da Polícia Federal para apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva e negociações relacionadas à cannabis medicinal.

A PF quer esclarecer se Lulinha teria utilizado sua proximidade com integrantes do governo para favorecer interesses privados ligados ao negócio.

A investigação, portanto, não parte da existência de um contrato efetivamente assinado. O foco é descobrir se houve tentativa de utilizar influência política ou acesso ao governo para abrir caminho para uma operação comercial milionária.

A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que ele não possui relação direta ou indireta com os negócios de Roberta Luchsinger, além da relação de amizade entre os dois.

Roberta teria sido contratada para abrir portas no governo

Outro ponto relevante aparece na investigação sobre a atuação de Roberta Luchsinger.

Segundo informações divulgadas a partir dos autos, ela teria sido contratada pelo “Careca do INSS” para atuar na tentativa de viabilizar negócios com o governo.

No caso do canabidiol, a suspeita investigada pela PF é de que Roberta funcionasse como uma ponte entre os interesses privados e pessoas com acesso à estrutura federal.

A própria investigação identificou conversas e documentos relacionados à tentativa de levar o projeto ao Ministério da Saúde.

A PF também encontrou elementos indicando que o grupo buscava fornecedores no exterior e discutia reuniões com integrantes da pasta.

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O detalhe que muda a dimensão do caso: não era apenas uma ideia

A documentação apreendida indica que o projeto estava mais avançado do que uma simples sondagem comercial.

Havia:

  • previsão de 1,2 milhão de frascos;
  • definição de diferentes medicamentos e apresentações;
  • elaboração de Termo de Referência;
  • discussão sobre dispensa de licitação;
  • indicação de empresas que poderiam participar do fornecimento;
  • busca de fornecedores internacionais;
  • tentativa de estabelecer reuniões com integrantes do Ministério da Saúde;
  • e envio de uma minuta a um integrante do núcleo presidencial.

É esse conjunto que transforma o episódio em um caso de interesse para a investigação criminal.

O Ministério da Saúde, por sua vez, afirma que não houve compra, contratação ou fornecimento de canabidiol pelo governo Lula e que o produto não integra a lista padronizada de medicamentos disponibilizados pelo SUS.

Por que o negócio não avançou

A proposta encontrou um obstáculo estrutural: o canabidiol não fazia parte das compras regulares do Ministério da Saúde para fornecimento pelo SUS.

A própria pasta afirmou que não compra nem fornece o produto e que não houve processo de contratação relacionado à oferta de canabidiol na rede pública.

Há situações específicas em que medicamentos ou produtos podem ser obtidos para cumprir decisões judiciais, mas isso é diferente de uma política regular de aquisição para distribuição pelo SUS.

Assim, embora o grupo investigado tenha elaborado uma proposta milionária, não houve a contratação que poderia transformar o projeto em receita efetiva.

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O “Careca do INSS” e a expansão para a área da Saúde

O episódio também ganha peso porque Antônio Carlos Camilo Antunes já era investigado por sua atuação no esquema de descontos indevidos que atingiu aposentados e pensionistas.

As investigações da Operação Sem Desconto passaram a revelar que empresas e pessoas ligadas ao empresário também buscavam oportunidades comerciais no setor público.

No caso da Saúde, mensagens analisadas pela PF apontaram tentativas envolvendo não apenas canabidiol, mas também testes rápidos de dengue e produtos de nutrição infantil.

Em dezembro de 2024, funcionários ligados a Antunes compartilharam uma minuta de Termo de Referência para aquisição de 1,2 milhão de frascos de canabidiol.

No mês seguinte, as conversas passaram a tratar de testes de dengue.

Isso mostra que o interesse não estava restrito a um único produto: a estratégia investigada envolvia diferentes possibilidades de fornecimento ao poder público.

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A questão da dispensa de licitação

A menção à dispensa de licitação é um dos pontos que merecem maior atenção.

A legislação brasileira admite contratações diretas em hipóteses específicas. Isso não significa que toda contratação sem licitação seja ilegal.

O problema investigado é outro: se a dispensa teria sido utilizada para viabilizar previamente um negócio privado já estruturado, em vez de resultar de uma necessidade pública formalmente identificada e processada pela administração.

É por isso que a existência de um Termo de Referência preparado fora da estrutura do Ministério da Saúde chama atenção dos investigadores.

O documento, em condições normais, integra o planejamento da própria contratação pública. No caso investigado, a suspeita é de que o caminho teria sido invertido: primeiro se estruturou a solução comercial e depois se buscaria encaixá-la na administração pública.

O que a PF ainda precisa provar

Apesar da quantidade de mensagens e documentos apreendidos, o caso ainda está em fase de investigação.

A PF precisa esclarecer, entre outros pontos:

1. Qual era exatamente o papel de Lulinha no negócio.

A investigação busca determinar se ele apenas mantinha relacionamento pessoal com Roberta ou se efetivamente atuou para facilitar negócios privados dentro do governo.

2. Quem elaborou e determinou o envio da minuta.

A existência do documento não prova, isoladamente, quem seria responsável por sua elaboração ou qual seria sua finalidade final.

3. Se houve tentativa concreta de direcionamento.

A investigação precisa estabelecer se a preparação do Termo de Referência tinha como objetivo apenas apresentar uma proposta comercial ou se pretendia influenciar uma contratação pública específica.

4. Se houve participação de agentes públicos.

Até o momento, o Ministério da Saúde afirma que a operação não produziu resultado prático.

5. Se houve vantagem financeira ou promessa de vantagem.

Esse é um ponto central para qualquer eventual responsabilização criminal por corrupção ou tráfico de influência.

O que já está comprovado — e o que ainda é suspeita

É importante separar os fatos documentados das hipóteses investigativas.

Documentado nas apurações: houve elaboração de documentos relacionados à venda de canabidiol; mensagens trataram da tentativa de levar o negócio ao Ministério da Saúde; uma minuta foi enviada a Marcola; ele reconheceu o recebimento; e o Ministério da Saúde afirma que não realizou a compra.

Ainda sob investigação: se Lulinha atuou efetivamente para influenciar agentes públicos; se houve tentativa de direcionamento da contratação; se agentes públicos participaram de alguma irregularidade; e se existiu promessa ou pagamento relacionado a uma eventual influência.

Essa distinção é essencial porque investigação não equivale a condenação.

A conta que explica o tamanho do negócio

O número de 1,2 milhão de frascos ajuda a dimensionar o projeto.

Mesmo sem um preço oficial registrado na minuta, estimativas baseadas nos valores de mercado citados nas apurações colocam o potencial da operação na casa de centenas de milhões de reais.

É daí que surge a dimensão de aproximadamente R$ 626 milhões atribuída ao negócio.

Ou seja: não se trata de uma pequena venda experimental.

Se tivesse sido efetivada nos valores estimados, seria uma contratação de grande porte, com impacto financeiro relevante para os cofres públicos e potencial geração de receita extraordinária para os fornecedores.

O ponto central do caso

O caso do canabidiol não terminou com dinheiro público pago.

Mas a investigação da PF revela algo que merece atenção justamente porque o negócio aparentemente chegou à fase de preparação documental antes de existir uma contratação oficial do Ministério da Saúde.

De um lado, havia empresários interessados em vender um volume milionário de medicamentos.

Do outro, havia uma tentativa de estabelecer acesso a integrantes da estrutura federal.

No meio, apareceu uma minuta de contratação com previsão de dispensa de licitação.

E, posteriormente, o documento chegou ao ex-chefe do Gabinete Pessoal do presidente.

É esse encadeamento que explica por que a Polícia Federal passou a investigar se houve tráfico de influência e corrupção, e não simplesmente uma negociação comercial frustrada.

O negócio não saiu do papel. Mas os documentos encontrados nos celulares fizeram com que a própria tentativa de colocá-lo de pé passasse a ser objeto de investigação criminal.

O que o Ministério da Saúde diz

O Ministério da Saúde afirma que a tentativa não teve resultado prático e que nunca comprou, forneceu ou discutiu a oferta de canabidiol na rede pública. A pasta também afirma que o produto não está incorporado ao SUS.

O que dizem os investigados

As defesas de Lulinha e dos demais envolvidos negam irregularidades ou afirmam não ter se manifestado sobre pontos específicos da investigação. Lulinha nega participação nos negócios de Roberta, enquanto Marcola sustenta que recebeu a minuta, mas não deu qualquer encaminhamento ao documento.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]

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