Selic caiu para 13,75%, mas empresas ainda pagam, em média, 24,2% ao ano no crédito livre. Com 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes e R$ 238,6 bilhões em dívidas, alerta de Diogo Corona revela um problema que vai muito além da Smart Fit.
“O varejo está quebrando.”
A declaração é de Diogo Corona, CEO da Smart Fit (SMFT3), uma companhia que continua crescendo e expandindo sua presença internacional. É justamente por isso que o alerta merece atenção.
Corona aponta os juros como o principal fator externo que hoje pressiona os negócios e afirma que empreender com custo de capital próximo de 15% tornou-se extremamente difícil.
A Selic já caiu para 13,75% ao ano. Mas essa não é a taxa que chega à maioria das empresas.
Em agosto, o crédito livre destinado às empresas brasileiras custava, em média, 24,2% ao ano, segundo o Banco Central.
Ao mesmo tempo, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas.
É nessa diferença entre a taxa anunciada pelo Banco Central e o custo efetivo do dinheiro para quem precisa financiar estoque, capital de giro, máquinas ou expansão que está uma das partes menos visíveis do atual aperto empresarial brasileiro.
Os juros começaram a cair. Para milhões de empresas, porém, o dinheiro continua muito caro.
Resumo Executivo
A Selic está em 13,75% ao ano, mas a taxa média do crédito livre concedido às empresas chegou a 24,2% ao ano em agosto.
O Brasil tinha 9,2 milhões de empresas inadimplentes em julho, com R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas.
Micro e pequenas empresas concentravam 8,7 milhões dos CNPJs inadimplentes.
O comércio varejista recuou 0,8% em julho frente ao mês anterior, embora ainda registrasse crescimento nas comparações de prazo mais longo.
Na Smart Fit, o ambiente de juros elevados aumentou a cautela sobre investimentos e reforçou a importância de franquias e outros modelos capazes de crescer com menor comprometimento de capital próprio.
O quadro mostra que uma redução da Selic não produz alívio imediato: empresas ainda precisam lidar com dívidas antigas, crédito caro, consumidores endividados e projetos de expansão que precisam entregar retornos muito maiores.
A Selic caiu, mas o dinheiro das empresas segundo o CEO da Smart Fit ainda custa 24,2%
Esse é o número que ajuda a entender a declaração de Diogo Corona.
A taxa básica de juros chegou a 15% ao ano em 2025 e permaneceu nesse nível até o início de 2026. Desde então, o Banco Central iniciou um processo de redução e levou a Selic para 13,75% em setembro.
Para a empresa que precisa tomar dinheiro emprestado, entretanto, a realidade é outra.
Dados do Banco Central mostram que a taxa média das novas operações de crédito livre destinadas às empresas chegou a 24,2% ao ano em agosto.
Isso significa que olhar apenas para a Selic pode esconder uma parte essencial do problema.
Uma empresa não financia necessariamente sua operação a 13,75%.
Dependendo da modalidade, do prazo, das garantias e do risco do tomador, pode pagar muito mais.
Capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamento de estoque e outras linhas passam a competir diretamente com a rentabilidade operacional do negócio.
É por isso que juros elevados conseguem frear investimentos mesmo em empresas que continuam vendendo.

Para investir, o negócio precisa vencer a matemática dos juros
Quando uma companhia decide abrir uma loja, academia, restaurante ou fábrica, ela precisa comprometer recursos antes de começar a receber o retorno daquele investimento.
Há imóvel, reforma, equipamentos, estoque, funcionários, tecnologia e despesas de implantação.
Esse dinheiro precisa produzir resultado suficiente para remunerar o capital empregado e compensar o risco empresarial.
Quanto maior o custo do dinheiro, maior precisa ser o retorno esperado.
É essa conta que está por trás da crítica de Corona.
Se aplicações financeiras de risco relativamente baixo oferecem remuneração elevada e o crédito empresarial supera 20% ao ano em média, investimentos que seriam atraentes em outro ambiente econômico podem deixar de fazer sentido.
A consequência aparece muito antes de uma empresa fechar as portas.
Projetos são adiados.
Novas unidades deixam de abrir.
Estoques diminuem.
Contratações são revistas.
Reformas são postergadas.
Equipamentos são usados por mais tempo.
E preservar caixa passa a competir diretamente com crescer.
ENTENDA: BlackRock muda estratégia após seis anos e volta a ver oportunidade em títulos dos EUA
9,2 milhões de empresas inadimplentes mostram o tamanho da pressão
A dificuldade já aparece nos indicadores empresariais.
O Brasil chegou a 9,2 milhões de empresas inadimplentes em julho de 2026, segundo a Serasa Experian.
Esses negócios acumulavam 67,2 milhões de dívidas negativadas, no valor total de R$ 238,6 bilhões.
Cada empresa inadimplente carregava, em média, 7,3 contas negativadas.
Mas há um número ainda mais revelador.
Dos 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes, 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas.
Isso coloca os menores negócios no centro do problema.
Grandes companhias possuem mais alternativas para levantar dinheiro. Podem negociar com diversos bancos, emitir dívida, acessar o mercado de capitais, vender ativos ou buscar investidores.
Uma pequena empresa normalmente possui menos opções.
Quando o caixa acaba, a dependência de crédito bancário aumenta justamente no momento em que esse crédito está caro.
O problema já ultrapassou os bancos
Outro dado ajuda a mostrar a profundidade do aperto.
Apenas uma parcela das dívidas das empresas inadimplentes estava diretamente relacionada a bancos e instituições financeiras.
Grande parte das pendências já aparecia em outros setores.
Isso importa porque demonstra que o problema pode deixar de ser apenas financeiro e alcançar a própria operação.
Quando a empresa começa a atrasar fornecedores, serviços ou outras obrigações necessárias ao funcionamento do negócio, o efeito pode se espalhar pela cadeia.
O comerciante compra menos.
O fornecedor recebe menos.
A indústria reduz pedidos.
Investimentos são adiados.
A empresa seguinte da cadeia também perde caixa.
É um dos mecanismos pelos quais juros elevados durante um período prolongado conseguem afetar atividades que, à primeira vista, não parecem diretamente ligadas à política monetária.
Varejo perdeu força, mas não está inteiro em colapso
A declaração de Corona de que “o varejo está quebrando” é forte, mas precisa ser colocada em perspectiva.
Os dados não permitem afirmar que todo o comércio brasileiro esteja em colapso.
Em julho, o volume de vendas do varejo caiu 0,8% frente a junho, segundo o IBGE.
Na comparação com julho de 2025, porém, ainda houve crescimento de 1,2%. No acumulado do ano, o avanço era de 1,8%.
O cenário, portanto, é mais complexo.
O varejo ainda cresce em algumas comparações, mas perdeu força no curto prazo enquanto empresas convivem com crédito caro.
E uma companhia não precisa parar de vender para enfrentar dificuldades.
Ela pode aumentar faturamento e, ao mesmo tempo, perder margem.
Pode ter lucro operacional e pagar despesas financeiras cada vez maiores.
Pode vender mais e continuar sem gerar caixa suficiente para pagar suas dívidas.
É por isso que faturamento, lucro e situação financeira não significam exatamente a mesma coisa.
APOIO AO INVESTIDOR: DARF de Opções : Guia Completo de Tributação, Cálculo e Pagamento
O varejo sofre dos dois lados da equação
Os juros atingem o comércio por dois caminhos simultaneamente.
O primeiro está dentro da própria empresa.
Capital de giro fica mais caro, financiamentos pressionam o resultado e novos investimentos precisam entregar retornos maiores.
O segundo está do lado do consumidor.
Famílias que gastam mais com juros de cartão, empréstimos e financiamentos possuem menos renda disponível para consumir.
Produtos e serviços que podem ser adiados tendem a sentir essa restrição antes de despesas consideradas essenciais.
Móveis, eletrodomésticos, roupas, automóveis, reformas e diversos serviços disputam um orçamento doméstico limitado.
O empresário, portanto, pode pagar mais para financiar seu negócio justamente quando parte dos clientes possui menos capacidade de compra.
Essa combinação ajuda a explicar por que períodos prolongados de juros elevados são particularmente difíceis para o varejo.
Por que o alerta da Smart Fit chama atenção
A Smart Fit torna essa discussão interessante porque não é uma companhia em retração tentando explicar um negócio que deixou de funcionar.
A empresa continua crescendo.
Mesmo assim, seu CEO afirma que os juros são hoje o principal fator externo que afeta a operação e colocou cautela e diligência no centro das decisões de investimento.
Isso mostra que o problema não atinge apenas empresas financeiramente fragilizadas.
Juros elevados também alteram o comportamento de companhias saudáveis.
A diferença está na capacidade de adaptação.
Empresas maiores e capitalizadas conseguem selecionar projetos, reduzir exposição, mudar a estrutura de expansão e esperar por condições melhores.
Negócios menores frequentemente não possuem o mesmo tempo.
Franquias mostram uma das saídas para crescer usando menos capital
A própria expansão da Smart Fit oferece um exemplo.
Na entrada recente na Venezuela, a companhia escolheu o modelo de franquias.
A Venezuela ainda apresenta riscos elevados, e a opção permite que a rede amplie sua presença sem assumir diretamente todo o investimento necessário para construir e operar as unidades.
Parte relevante do capital passa a ser colocada pelo franqueado.
No Brasil, onde o mercado é muito maior, a Smart Fit combina unidades próprias e franquias.
Não se trata apenas de uma escolha comercial.
Existe também uma lógica financeira.
Em um cenário de dinheiro caro, cresce a importância de modelos capazes de aumentar receita sem exigir a mesma proporção de capital próprio.
A pergunta deixa de ser apenas quanto a empresa consegue crescer.
Passa a ser quanto dinheiro precisa investir para produzir cada real adicional de resultado.
Caixa virou uma vantagem competitiva
O cenário também muda a importância do caixa.
Quando crédito é barato e abundante, empresas conseguem financiar projetos, carregar estoques maiores e aceitar períodos mais longos até alcançar retorno.
Quando o crédito encarece, liquidez ganha valor.
Ter caixa reduz a necessidade de tomar dinheiro emprestado em condições desfavoráveis.
Também permite atravessar períodos de desaceleração sem vender ativos ou cortar investimentos de maneira emergencial.
E existe outro efeito.
Empresas financeiramente fortes podem encontrar oportunidades justamente quando concorrentes fragilizados precisam recuar.
Ativos podem ficar mais baratos.
Pontos comerciais podem se tornar disponíveis.
Concorrentes diminuem expansão.
Participações de mercado podem mudar de mãos.
Em ciclos de juros elevados, caixa não serve apenas para sobreviver.
Pode virar instrumento de expansão.
Quais são as saídas enquanto o crédito continuar caro
Não existe uma solução única para empresas atravessarem um período prolongado de juros elevados.
Mas algumas estratégias ganham importância.
Reduzir dívida cara é uma delas.
Quanto menor a alavancagem, menor tende a ser a parcela do resultado consumida por despesas financeiras.
Outra é alongar vencimentos.
Empresas que concentram grandes volumes de dívida no curto prazo ficam mais vulneráveis a precisar refinanciar justamente quando as condições do mercado são ruins.
Preservar liquidez também se torna prioridade.
Assim como aumentar o rigor sobre novos investimentos.
Expansão deixa de ser automaticamente positiva.
Cada projeto precisa demonstrar capacidade de gerar retorno suficiente para compensar o capital empregado e os riscos envolvidos.
Modelos menos intensivos em capital, como franquias, plataformas, licenciamento e determinadas parcerias — também podem ganhar espaço.
O princípio é simples: crescer sem precisar financiar sozinho cada etapa do crescimento.
Quem mais perde com juros elevados
Os negócios mais vulneráveis são aqueles que combinam dívida elevada, margens pequenas e necessidade constante de capital de giro.
Pequenas empresas aparecem naturalmente nesse grupo.
Também ficam expostos os setores em que o consumidor depende de financiamento para comprar.
Há ainda empresas que assumiram dívidas quando o custo do dinheiro era menor e agora precisam refinanciar esses compromissos em condições piores.
Nesse caso, a operação pode continuar saudável enquanto o balanço financeiro se deteriora.
A empresa vende.
Produz.
Tem clientes.
Mas parte crescente da geração de caixa passa a pagar juros.
É possível ter um bom negócio e uma estrutura financeira ruim.
E, em períodos de dinheiro caro, essa diferença se torna decisiva.
AINDA: Grupo Mateus demite 6,6 mil funcionários e expõe pressão no varejo alimentar brasileiro
Quem pode ganhar enquanto concorrentes recuam
Do outro lado estão companhias com caixa, baixa dívida e capacidade de financiar investimentos com recursos próprios.
Elas podem continuar investindo quando concorrentes reduzem expansão.
Também podem negociar melhores condições com fornecedores, comprar ativos descontados ou ocupar mercados deixados por empresas fragilizadas.
Para o investidor, isso muda os indicadores que merecem atenção.
Crescimento de receita sozinho não basta.
Dívida líquida, despesas financeiras, geração de caixa, vencimento dos passivos e necessidade de novos investimentos passam a ser ainda mais importantes.
A empresa que mais cresce nem sempre é a que atravessará melhor um ciclo de juros altos.
O que o investidor precisa observar nos balanços
Para quem acompanha ações do varejo e de empresas dependentes do consumo, alguns números ganham relevância especial.
O primeiro é a dívida.
É preciso entender não apenas quanto a companhia deve, mas quando essa dívida vence e quanto custa.
O segundo é a geração de caixa.
Lucro contábil sem geração de caixa suficiente pode esconder dificuldades financeiras.
O terceiro é a despesa financeira.
Se os juros pagos crescem muito mais rapidamente do que o resultado operacional, parte crescente do negócio começa a trabalhar para remunerar credores.
O quarto é a necessidade de capital.
Empresas que precisam investir constantemente grandes volumes para continuar crescendo ficam mais expostas ao custo do dinheiro.
Finalmente, importa observar a capacidade de repassar preços sem destruir demanda.
Empresas com maior poder de precificação tendem a absorver melhor aumentos de custos.
AINDA: Onda forte de demissões no Brasil e mais de 35 mil funcionários são demitidos do varejo
A Selic caiu. Por que o alívio ainda não chegou?
Porque política monetária funciona com atraso.
A Selic permaneceu em 15% durante meses.
Nesse período, empresas refinanciaram dívidas, contrataram crédito e adiaram investimentos.
Esses contratos não desaparecem quando o Banco Central anuncia um novo corte.
Além disso, a redução da Selic não é transferida automaticamente nem na mesma proporção para as taxas finais cobradas pelos bancos.
O contraste resume o problema.
A taxa básica está em 13,75%.
O crédito livre às empresas custava, em média, 24,2% ao ano em agosto.
Entre uma taxa e outra estão risco de crédito, custos, spreads bancários, garantias e características de cada operação.
Por isso, uma Selic menor é condição importante para aliviar as empresas, mas não produz uma recuperação imediata.
Quem paga a conta no final
Os efeitos dos juros elevados não permanecem restritos aos balanços das companhias.
Uma parte aparece nas margens.
Outra chega aos preços.
Outra reduz investimentos.
Outra diminui contratações.
Há ainda empresas que fecham unidades, renegociam passivos ou precisam recorrer a processos de reestruturação.
O consumidor pode pagar preços maiores e enfrentar menor oferta.
O trabalhador pode sentir menor abertura de vagas.
O fornecedor pode receber menos pedidos.
E o empresário pode desistir de um investimento que seria realizado em outro ambiente financeiro.
Por isso, juros altos não são apenas uma discussão do mercado financeiro.
São também uma discussão sobre investimento, produtividade e crescimento econômico.
O alerta de Corona revela um problema maior do que a Smart Fit
A frase “o varejo está quebrando” chama atenção.
Mas o principal recado não está na generalização.
Está na matemática.
Se uma companhia de grande porte, capitalizada e em expansão já precisa aumentar a cautela diante do custo do dinheiro, a situação é muito mais difícil para milhões de negócios que possuem menos caixa e dependem diretamente do crédito bancário.
Os 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes mostram que o problema já alcançou uma parcela relevante do setor empresarial.
A queda da Selic abre uma perspectiva de alívio.
Mas existe uma distância entre o corte anunciado pelo Banco Central e o momento em que o dinheiro efetivamente fica mais barato para quem produz, vende e investe.
Até que essa diferença diminua, caixa, dívida controlada e disciplina na alocação de capital continuarão separando empresas capazes de atravessar o ciclo daquelas que chegarão ao limite antes de os juros realmente cederem.



