Vorcaro relata pagamento de milhões ao Instituto Lula para filme em troca de negociação com fundos de pensão

Em áudio e documentos divulgados pela Veja, ex-dono do Banco Master afirma que repasses ao documentário e ao Instituto Lula estariam ligados à tentativa de captar recursos de previdências de estatais

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, afirmou ter destinado cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao financiamento de um documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva e realizado outros pagamentos ao Instituto Lula. Segundo reportagem publicada pela revista Veja em 9 de outubro, os repasses fariam parte de negociações para ampliar o acesso do banco a recursos de fundos de previdência ligados a empresas estatais.

As acusações constam de áudios e documentos atribuídos ao ex-banqueiro, apresentados durante sua segunda tentativa de colaboração premiada. A Procuradoria-Geral da República (PGR) indicada por Lula, não levou adiante essa proposta, considerada insuficiente em provas.

SAIBA: Jantar na casa de Moraes com Lula e Alcolumbre teria discutido como enfraquecer André Mendonça; ministro concentra casos de Lulinha e Banco Master

O que Vorcaro afirmou sobre o documentário

Segundo a Veja, os R$ 30 milhões teriam sido destinados, em espécie, a despesas de produção de um documentário sobre Lula realizado no exterior. Vorcaro também teria mencionado um repasse adicional ao Instituto Lula, sem revelar o valor.

O filme citado é Lula, dirigido pelo cineasta Oliver Stone, com depoimentos de pessoas próximas ao presidente.

Em um áudio divulgado pela revista, Vorcaro compara o suposto financiamento dessa produção ao patrocínio do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

“Só que o do Lula foi por fora, foi errado”, afirma Vorcaro na gravação. Sobre o longa relacionado à família Bolsonaro, ele diz que o financiamento teria ocorrido por meio de patrocínio convencional.

A declaração integra a versão apresentada pelo ex-banqueiro às autoridades. A divulgação do áudio, por si só, não comprova a realização dos pagamentos nem estabelece quem recebeu os recursos ou como foram utilizados.

Fundos de pensão: a comissão alegada de 10%

Augusto Lima participou da aproximação com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. O senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo no Senado, teria intermediado o primeiro contato, segundo o relato.

ACESSO AO GRUPO VIP INVESTIDORES BRASIL

AINDA: Jaques Wagner e Rui Costa são eleitos senadores na Bahia, mesmo citados no caso Banco Master

A negociação buscaria viabilizar investimentos do Banco Master junto a fundos de previdência ligados a instituições como Banco do Brasil, Caixa, Petrobras e Correios. Entre os fundos citados estão Previ, Petros e Postalis.

Segundo Vorcaro, Vaccari teria exigido, além dos pagamentos iniciais, uma comissão de 10% sobre os recursos captados pelo banco. A revista também relata cobranças atribuídas a operadores ligados ao então ministro Alexandre Padilha, que à época chefiava a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência.

A estimativa apresentada na reportagem considera uma captação potencial de R$ 10 bilhões. Nesse cenário, a comissão de 10% corresponderia a R$ 1 bilhão. Trata-se de uma projeção, não de um montante comprovadamente pago ou recebido.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro, segundo a Veja, registrariam contatos com interlocutores que tentavam aproximar o banco dos dirigentes dos fundos. A publicação relata que o Master entrou, em abril de 2024, na lista de instituições autorizadas a receber recursos dessas entidades.

LEIA: Governo Lula compra títulos sem proteção do Banco Master, através do Banco estatal da Amazônia

A inclusão na lista, contudo, não significava aprovação automática de investimentos. Segundo o relato do ex-banqueiro, as operações pretendidas não avançaram conforme o esperado. Após meses de tentativas, ele teria encerrado as conversas em agosto de 2025.

SAIBA: Banco Master: PF revela que Vorcaro autorizou despesas para filho de Gonet em Londres; PGR foi indicado por Lula

Por que a delação foi rejeitada pela PGR de Lula

Vorcaro apresentou as acusações em um anexo encaminhado à PGR em junho de 2026, durante sua segunda tentativa de obter um acordo de colaboração premiada.

De acordo com a Veja, a Procuradoria não levou adiante o material por falta de provas suficientes para sustentar os relatos, que envolviam supostos pagamentos em dinheiro vivo. A CNN Brasil também informou que a Polícia Federal considerou insuficientes os elementos apresentados para dar credibilidade às declarações.

A defesa do ex-banqueiro teria argumentado que dispunha de mensagens, registros de retiradas de dinheiro, informações sobre operadores e dados relativos aos locais e às rotas das entregas.

A diferença é central: Vorcaro afirma possuir elementos que sustentariam sua narrativa, mas a segunda proposta de delação não foi aceita. A existência e a capacidade de comprovação dos materiais mencionados dependem de verificação independente.

LEIA: Lula se cala enquanto chefe da PF Andrei Rodrigues é citado no caso Vorcaro: o escândalo que deixou de ser apenas de Moraes, envolve indicados do presidente que são mantidos na função

Lula e os demais citados negam irregularidades

Procurado pela Veja, Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens financeiras de Vorcaro e afirmou não ter autorizado terceiros a receber recursos em seu nome.

Alexandre Padilha também negou relação irregular com o ex-banqueiro. Olavo Noleto, então secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais, declarou não ter relação com Vorcaro nem ter recebido dinheiro dele.

A reportagem informa que os demais citados não haviam se manifestado até o fechamento do texto. As acusações contra Vaccari, Wagner e outros interlocutores permanecem atribuídas ao relato do ex-banqueiro, sem que a rejeição da delação represente, por si só, uma decisão judicial sobre a veracidade de cada alegação.

SAIBA: PF encontra indícios de atuação de Lulinha e Marcola em negócio da Petrobras que TCU apontou como potencial prejuízo de R$ 487 milhões com…

O paralelo com o filme sobre Bolsonaro

O relato sobre o documentário de Lula surge em meio à investigação sobre recursos destinados a Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Nesse caso, reportagens anteriores apontaram negociações de financiamento envolvendo Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que confirmou ter buscado recursos para a produção e negou irregularidades.

Os dois episódios envolvem alegações sobre financiamento audiovisual e relações entre o ex-banqueiro e pessoas ligadas a diferentes campos políticos. As circunstâncias, os documentos e as suspeitas de cada caso, entretanto, precisam ser examinados separadamente.

No caso do documentário sobre Lula, o ponto central é a alegação de que pagamentos teriam sido vinculados à tentativa de obter investimentos de fundos de previdência. A questão ainda depende de comprovação dos repasses, identificação dos destinatários e apuração de eventual contrapartida.

O que falta esclarecer: se os R$ 30 milhões foram efetivamente transferidos, qual foi a destinação do dinheiro, se houve outros pagamentos e se as negociações com os fundos resultaram em investimentos ou vantagens indevidas. Até que essas questões sejam esclarecidas por provas verificáveis, as acusações devem permanecer identificadas como relatos atribuídos a Vorcaro.

O que o mercado não quer que você saiba

Chega de receber informação controlada?

Receba gratuitamente no seu e-mail aquilo que o mercado sabe mas não divulga.

  • ✓ Informação independente
  • ✓ O que as instituições financeiras não querem que o brasileiro saiba
  • ✓ Tome suas decisões sem depender de influenciadores pagos pelo mercado
  • ✓ Entenda quem ganha e quem perde em cada movimento, e porque
Publicidade
Publicidade
Eloisa Shoes
Eloisa Shoes
Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
spot_img

Últimas

Publicidade

RELACIONADOS

PUBLICIDADE