Pessimismo com economia brasileira bate recorde com Lula, e gestores cortam PIB e reduzem risco no câmbio

Visão negativa chega a 55%, maior nível da série da XP; projeção para o PIB de 2026 cai de 2% para 1,8%, enquanto posições neutras em relação ao real saltam de 21% para 60%

A percepção sobre a economia brasileira na gestão Lula atingiu o maior nível de pessimismo já registrado entre os gestores de fundos multimercados macro consultados pela XP. Em setembro, 55% das gestoras passaram a ter uma visão negativa sobre o Brasil, enquanto a projeção de crescimento do PIB de 2026 sofreu a maior revisão para baixo da série, de 2% para 1,8%.

A deterioração da leitura econômica veio acompanhada de uma mudança importante na exposição cambial. A parcela de gestoras neutras em relação ao real saltou de 21% para 60%, enquanto as posições vendidas na moeda brasileira recuaram de 42% para 10%.

O levantamento foi realizado entre 4 e 11 de setembro, com 20 gestoras multimercados macro.

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Pessimismo atinge recorde

A visão negativa sobre a economia brasileira chegou a 55%, maior patamar histórico da pesquisa.

O movimento, entretanto, não significa que todas as gestoras estejam pessimistas. A parcela com visão positiva apresentou recuperação, passando de 8% para 20%.

O dado central é a mudança da composição das expectativas: o grupo pessimista alcançou seu maior nível da série justamente no momento em que a estimativa de crescimento econômico para 2026 foi revisada para baixo.

A projeção de PIB passou de 2,0% para 1,8%, a maior redução registrada pela pesquisa da XP.

O número também ficou abaixo da mediana das projeções coletadas pelo Banco Central no Boletim Focus, que apontava crescimento de 1,93%.

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São pesquisas com universos diferentes, a XP ouviu 20 gestoras multimercados macro, enquanto o Focus reúne projeções de instituições do mercado, mas a comparação mostra que o grupo consultado pela XP estava trabalhando com uma expectativa de crescimento inferior à mediana do mercado.

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O câmbio é onde a cautela aparece com mais clareza

A principal mudança de posicionamento ocorreu no mercado de moedas.

A parcela das gestoras neutras em relação ao real passou de 21% para 60%.

Ao mesmo tempo:

  • posições vendidas em real: 42% → 10%;
  • posições compradas em real: 38% → 30%;
  • posições neutras: 21% → 60%.

O movimento mostra uma redução expressiva das apostas direcionais na moeda brasileira.

Em vez de concentrar a carteira em uma aposta de valorização ou desvalorização do real, uma parcela muito maior das gestoras passou a adotar uma posição neutra.

O comportamento também aparece nas posições em dólar.

A exposição comprada em dólar caiu de 46% para 20%, enquanto as posições vendidas aumentaram de 21% para 35%. A neutralidade avançou de 33% para 45%.

O resultado é uma redução da exposição comprada à moeda americana e uma maior concentração de posições neutras.

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E a Bolsa? Aqui está o dado que muda a leitura

É justamente neste ponto que a pesquisa exige uma leitura mais cuidadosa.

O aumento do pessimismo sobre a economia brasileira não veio acompanhado de uma ampliação das posições vendidas em ações brasileiras.

O movimento foi o contrário.

A parcela das gestoras com posição comprada na Bolsa brasileira aumentou de 63% para 70%.

Já as posições vendidas, que representavam 17% em agosto, foram zeradas em setembro.

É a primeira vez, segundo a pesquisa da XP, que as posições vendidas em ações brasileiras chegam a zero.

Isso não permite concluir, por si só, que os gestores estejam otimistas com a economia ou que estejam prevendo alta da Bolsa. O levantamento mostra posicionamento, e não a justificativa individual de cada gestora.

Mas o dado é relevante porque demonstra que o pessimismo macroeconômico não está sendo expresso, nesta edição da pesquisa, por uma posição vendida coletiva contra as ações brasileiras.

A cautela aparece de maneira muito mais evidente no câmbio.

Essa distinção é importante: uma gestora pode ter uma visão negativa sobre o crescimento econômico e, ainda assim, manter posições compradas em ações por razões relacionadas aos preços dos ativos, composição setorial, resultados empresariais, valuation ou estratégias específicas. A pesquisa da XP, entretanto, não detalha essas justificativas.

Juros: quase consenso por corte da Selic

A política monetária aparece como outro componente importante do cenário.

95% das gestoras consultadas projetavam um corte da Selic de 14% para 13,75% na reunião do Copom de setembro.

A expectativa estava alinhada à mediana do mercado capturada pelo Focus.

Para o final de 2026, porém, as gestoras projetavam a taxa básica em 13,5%, abaixo dos 13,75% previstos pela mediana do mercado.

O cenário, portanto, combina uma percepção mais negativa sobre a atividade econômica com expectativa de continuidade da flexibilização monetária.

Inflação recua, mas permanece próxima de 5%

A projeção para o IPCA de 2026 também apresentou uma pequena melhora.

A expectativa caiu pela segunda vez consecutiva, de 5,01% para 4,97%.

O número ficou praticamente em linha com os 5% projetados pelo mercado no Focus.

O movimento ajuda a explicar por que a deterioração da perspectiva econômica não veio acompanhada de uma revisão na direção oposta para a política monetária: com atividade mais fraca e inflação ligeiramente menor, aumentou a expectativa de cortes de juros.

Ainda assim, a inflação projetada permanece próxima de 5%, acima da meta, o que mantém o cenário monetário sensível à evolução dos preços e das expectativas.

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Exterior melhora enquanto Brasil piora

A diferença entre as percepções doméstica e internacional também aumentou.

A visão positiva dos gestores sobre a economia global passou de 33% para 40%.

Já a percepção negativa caiu de 21% para 10%, menor nível desde março.

O comportamento das carteiras internacionais, entretanto, não foi simplesmente uma migração para ações americanas.

A posição comprada em ações dos Estados Unidos recuou de 54% para 50%.

Ao mesmo tempo, a exposição comprada em ações do restante do mundo aumentou de 17% para 25%.

Há, portanto, uma melhora na percepção sobre o ambiente global acompanhada de uma redistribuição das posições acionárias internacionais.

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O que a pesquisa realmente revela

A fotografia de setembro é mais específica do que a manchete “gestores estão pessimistas com o Brasil” pode sugerir.

Os dados mostram simultaneamente:

Economia brasileira

  • 55% de visão negativa — recorde da série;
  • PIB de 2026 revisado de 2% para 1,8%.

Câmbio

  • neutralidade em relação ao real: 21% → 60%;
  • posições vendidas em real: 42% → 10%;
  • posições compradas em dólar: 46% → 20%.

Bolsa brasileira

  • posições compradas: 63% → 70%;
  • posições vendidas: 17% → 0%.

Política monetária

  • 95% esperavam corte da Selic para 13,75%;
  • projeção para o fim de 2026: 13,5%.

Inflação

  • IPCA projetado para 2026: 5,01% → 4,97%.

A principal informação não está em um único número, mas na combinação deles.

O pessimismo com a economia brasileira atingiu o recorde da pesquisa, enquanto a reação dos gestores foi especialmente forte no câmbio — com uma migração para a neutralidade — e não por meio de uma ampliação das posições vendidas em ações brasileiras.

Esse é o ponto que diferencia a fotografia atual de uma leitura simplificada sobre o mercado: a percepção sobre a economia piorou, mas os posicionamentos variaram de maneira diferente conforme o ativo.

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O horizonte dos multimercados

O documento da XP, assinado pela equipe de análise de fundos formada por Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, ressalta que as estratégias multimercados possuem horizonte mínimo de avaliação superior a 36 meses e são estruturadas para navegar por diferentes ciclos e ambientes de incerteza.

Isso também é importante para interpretar os números.

A pesquisa representa uma fotografia do posicionamento das 20 gestoras consultadas entre 4 e 11 de setembro. Ela não constitui, isoladamente, uma previsão para o comportamento futuro do PIB, do real, do Ibovespa ou dos juros.

O que ela registra é uma mudança concreta na percepção e na alocação: o pessimismo sobre a economia brasileira chegou ao maior nível da série, a projeção de PIB foi reduzida e o risco cambial foi significativamente reduzido, enquanto a posição comprada em ações brasileiras aumentou e as posições vendidas foram zeradas.

É nessa combinação, e não apenas no recorde de pessimismo, que está a informação mais relevante do levantamento.

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Lucas Lopes Lopes
Lucas Lopes Lopes
Jornalista cubro editorias de economia há 10 anos. Especializado em criptoativos e-mail: [email protected]
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