Presidente Lula afirma que nunca viu ou conversou com empresária investigada pela Polícia Federal; registros publicados pela própria Roberta Luchsinger mostram encontros com Lula entre 2018 e 2023.
A sabatina de Luiz Inácio Lula da Silva na TV Globo terminou colocando no centro da campanha presidencial de 2026 uma personagem que o próprio presidente tentou afastar de seu círculo de relações: a lobista Roberta Luchsinger.
Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos sobre mensagens apreendidas pela Polícia Federal e sobre a relação de Luchsinger com seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, Lula classificou a empresária como “pilantra” e afirmou que conversas encontradas no telefone dela não seriam suficientes para comprovar qualquer irregularidade.
“O que uma pilantra pode fazer no telefone? Ou o que um cara qualquer pode fazer no telefone?”, afirmou o presidente durante a entrevista.
A resposta, porém, abriu uma segunda frente de questionamento.
Lula também declarou: “Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça.” Segundo o presidente, Roberta Luchsinger jamais teria estado próxima dele.
O problema é que existem registros públicos que mostram os dois juntos.
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Fotos contradizem a afirmação de que Lula nunca viu Roberta
O perfil de Roberta Luchsinger nas redes sociais reúne pelo menos 12 fotografias nas quais ela aparece ao lado de Lula, com registros publicados entre 2018 e 2023.
Uma das imagens mais relevantes foi publicada pela própria empresária em 20 de julho de 2022. Na fotografia, Luchsinger aparece ao lado de Lula e da primeira-dama Janja Lula da Silva.
Na legenda, escreveu: “Quem tem amigos, tem tudo”.
A existência das fotografias não prova, por si só, uma relação profissional, política ou qualquer participação de Lula nas atividades investigadas pela Polícia Federal.
Mas produz uma contradição objetiva entre o registro público e a declaração dada pelo presidente na televisão.
É justamente essa diferença que transforma a questão de uma simples negativa política em um problema de credibilidade: como conciliar a afirmação de que Lula nunca viu Roberta Luchsinger com fotografias públicas nas quais os dois aparecem juntos?
A campanha presidencial de Lula tentou posteriormente reduzir o alcance das imagens. Segundo a Folha de S.Paulo, a equipe do presidente afirmou que fotografias não seriam suficientes para demonstrar uma relação pessoal, profissional ou política entre os dois.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger é empresária e lobista ligada ao Careca do INSS. Ela ganhou projeção no atual ciclo político por aparecer em investigações da Polícia Federal envolvendo pessoas próximas ao núcleo familiar de Lula.
Segundo reportagens baseadas nas investigações, Luchsinger manteve contato com Fábio Luís Lula da Silva e aparece em mensagens que levantaram suspeitas sobre possíveis relações de influência e negócios envolvendo órgãos públicos.
Em uma das conversas citadas na sabatina, a lobista teria afirmado que Lulinha “entra em campo quando precisa” e que os dois seriam “uma coisa só”. Em outra mensagem, segundo a pergunta feita por Tralli, ela teria dito: “Eu trabalho a política via palácio. Eu sou boa de costura política.”
É importante separar, entretanto, o conteúdo das mensagens das conclusões sobre eventual crime.
As mensagens integram uma investigação. Elas podem servir como elementos de apuração, mas não equivalem automaticamente a uma condenação ou à comprovação definitiva de tráfico de influência, corrupção ou uso de dinheiro público.
PF investiga atuação junto ao governo
A investigação ganhou dimensão porque, segundo informações divulgadas nesta semana, a Polícia Federal apura se Luchsinger tentou intermediar negócios envolvendo órgãos do governo federal.
Entre os episódios investigados estão tratativas relacionadas à venda de kits de teste de dengue e produtos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Reportagem da Folha baseada na investigação afirma que Luchsinger teria tratado dessas operações com Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. A PF também investiga pagamentos e despesas pessoais relacionados aos envolvidos.
O caso se conecta ainda às investigações envolvendo Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, personagem central da investigação sobre fraudes contra aposentados e pensionistas.
A defesa dos envolvidos nega irregularidades.
Lula tenta separar o filho das suspeitas
Durante a sabatina, Lula procurou estabelecer uma linha de defesa baseada na responsabilização individual.
O presidente afirmou que, se seu filho tiver cometido algum ilícito, deverá responder por isso, independentemente do parentesco.
“Ele não será protegido por ser meu filho”, disse Lula, segundo a íntegra da entrevista divulgada pelo Poder360.
Ao mesmo tempo, o presidente afirmou que, até aquele momento, não havia prova de que dinheiro público tivesse sido utilizado nas atividades atribuídas a Luchsinger ou a seu filho.
Também classificou como “ilações” parte das suspeitas construídas a partir das conversas telefônicas e afirmou que Lulinha deveria ser investigado como qualquer cidadão.
Essa distinção é importante: a existência de uma investigação não significa que os crimes investigados estejam comprovados.
Mas também significa que as mensagens, relações e eventuais negócios precisam ser esclarecidos pelas autoridades responsáveis pela investigação.
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O ponto mais delicado para Lula
A maior vulnerabilidade política produzida pela entrevista não está necessariamente na palavra “pilantra”.
Está na combinação de duas declarações:
Lula chamou Roberta Luchsinger de “pilantra”.
Em seguida, afirmou que nunca a viu ou conversou com ela.
O primeiro trecho pode ser interpretado como uma estratégia política para afastar-se de uma pessoa sob investigação.
O segundo é mais problemático porque pode ser confrontado diretamente com material público.
As fotografias não demonstram que Lula participou de qualquer irregularidade atribuída à lobista. Mas demonstram que a afirmação “nunca vi essa moça na minha vida” não se encaixa facilmente com o registro visual publicado pela própria Luchsinger.
Essa é a diferença entre uma acusação política e um fato verificável.
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A contradição que ficou para a campanha
A entrevista aconteceu em um momento particularmente sensível para Lula, em plena corrida presidencial de 2026.
Segundo informações publicadas pela Folha, integrantes da campanha ficaram preocupados especificamente com o uso espontâneo da expressão “pilantra” e com a declaração de que o presidente nunca havia encontrado Luchsinger. O termo teria surpreendido integrantes da própria campanha.
A estratégia planejada, segundo a publicação, seria admitir preocupação com eventuais erros cometidos por pessoas próximas sem produzir uma negativa considerada excessivamente categórica.
O episódio mostra um problema recorrente em crises políticas: quanto mais absoluta é uma negativa, maior é o risco de um documento, fotografia ou mensagem posteriormente disponível ao público transformar uma defesa em contradição.
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O problema que Lula não conseguiu encerrar
A tentativa do presidente de encerrar o assunto classificando Luchsinger como “pilantra” pode ter produzido justamente o efeito contrário.
Ao negar qualquer conhecimento da empresária, Lula colocou sua própria memória dos encontros no centro da discussão.
A partir daí, a pergunta deixou de ser apenas “o que Roberta Luchsinger fez?”.
Passou a ser também:
“Por que o presidente afirma nunca ter visto uma pessoa com quem existem registros públicos de encontros?”
Essa pergunta não é respondida por uma fotografia e tampouco prova qualquer crime. Mas também não desaparece com a simples negativa.
Enquanto a Polícia Federal conclui as investigações, o ponto central permanece: há uma diferença objetiva entre o que Lula declarou na televisão e o que os registros públicos mostram.
E, em uma eleição presidencial, contradições desse tipo podem se tornar tão relevantes quanto as próprias acusações que deram origem à crise.







