Empresas ligadas a Toffoli da Suprema Corte tiveram como sócio fundo envolvido em rede suspeita do caso Master

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Uma investigação revelou que duas empresas associadas a familiares do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tiveram como sócio o fundo de investimentos Arleen — ligado indiretamente à rede de fundos suspeitos de envolvimento em fraudes financeiras no caso Banco Master.

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As empresas envolvidas

  • Tayayá Administração e Participações: responsável por um resort em Ribeirão Claro (PR), com participação da família de Toffoli.
  • DGEP Empreendimentos: incorporadora imobiliária da mesma cidade, que tinha como sócio um primo do ministro.

Ambas tiveram participação do fundo Arleen até pelo menos maio de 2025.

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A conexão com o caso Master

O fundo Arleen não é diretamente investigado, mas aparece como cotista do RWM Plus, que recebeu aportes de fundos ligados ao Maia 95 — um dos seis fundos apontados pelo Banco Central como parte da teia de fraudes atribuída ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.

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Toda essa estrutura é administrada pela Reag, empresa que também gerenciava fundos diretamente ligados a Vorcaro e que está sob investigação na Operação Carbono Oculto, por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital). Este levantamento foi realizado pela Folha.

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Ministro Dias Toffoli ligado ao Banco Master

De acordo com investigadores, uma cadeia de fundos administrados pela Reag era usada para desviar dinheiro emprestado pelo Master, com a cumplicidade do banco. Isso acontecia por meio da aplicação dos recursos desses empréstimos.

A partir daí, o dinheiro transitava por uma teia de fundos comprando ativos podres que serviam para inflar artificialmente o valor de ativos, entre outras operações suspeitas.

Dias Toffoli é o relator do inquérito que investiga as fraudes do Master. Ele se tornou responsável pelo caso, no início de dezembro, depois que advogados de Vorcaro recorreram ao STF, argumentando que a investigação deveria ficar concentrada na corte devido à citação de um negócio imobiliário entre Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA).

O ministro manteve a condução do inquérito em sigilo e tomou decisões questionadas no mundo político e no mercado financeiro. Além do segredo imposto ao caso, Toffoli convocou uma acareação entre os investigados e um diretor do Banco Central, responsável pela fiscalização do sistema bancário. Parte das perguntas preparadas por seu gabinete ao tomar os depoimentos apontavam para eventual precipitação do BC na liquidação do Master, como argumenta a defesa de Vorcaro.

O resort Tayayá foi inaugurado em 2008 e teve participações acionárias de diversos integrantes da família Toffoli nos últimos anos. O empreendimento fica às margens do rio Itararé, que separa o Paraná de São Paulo. O hotel tem 4 estrelas e 58 mil metros quadrados.

Em 2017, o ministro recebeu uma homenagem da Câmara de Vereadores local por ter “colaborado para o desenvolvimento e incremento turístico do Município de Ribeirão Claro, notadamente por meio do apoio decisivo na implantação da empresa Tayayá Aquaparque Hotel e Resort”.

Dados de 2020 da Junta Comercial do Paraná mostram que a empresa que administra o empreendimento era controlada por Mario Umberto Degani, primo do ministro, e pelo advogado Euclides Gava Junior.

Em dezembro daquele ano, tornou-se sócia do resort a firma Maridt Participações, aberta quatro meses antes por José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro do STF. Degani, Gava e a Maridt passaram a deter um terço da empresa cada. A entrada dos irmãos no negócio foi noticiada pelo site O Antagonista.

A composição da Tayayá mudou ao longo dos anos seguintes. Segundo dados da Receita Federal de abril de 2025, permaneciam como sócios o primo Mario Umberto Degani e a PHB Holding, do empresário goiano Paulo Humberto Barbosa. Degani deixou a sociedade desde então. Hoje, a administradora da Tayayá é controlada por Barbosa e por duas empresas ligadas a ele.

Barbosa não respondeu às perguntas feitas pela reportagem. Euclides Gava Junior, que foi sócio de Degani, se apresenta como diretor do Tayayá Resort em seu perfil no LinkedIn. Ele não quis se manifestar.

Os nomes dos sócios das empresas constam em informações oficiais da base de dados da Receita Federal compiladas pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) na plataforma Cruza-Grafos, que exibe as relações entre todas as firmas do país e seus donos. Os parentes de Toffoli aparecem em informações compiladas em abril de 2025, as mais recentes disponíveis na plataforma. A família deixou as empresas desde então.

Já as relações entre os diferentes fundos estão documentadas em papéis da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), responsável por monitorar esse mercado.

O Arleen foi criado em 2021 e tinha ações do Tayayá entre os seus ativos desde que foi constituído. Em novembro daquele ano, uma participação de R$ 20 milhões representava 99% da carteira do fundo. Em 31 de maio de 2025, data do último balanço disponível, a participação do Arleen no Tayayá era de R$ 4,4 milhões.

Uma segunda empresa ligada a um parente de Toffoli aparece no balanço de maio de 2022 da Arleen. Na ocasião, o fundo tinha uma participação de R$ 16,1 milhões na DGEP Empreendimentos. A empresa tinha como sócio, além do Arleen, o primo de Toffoli que também participou do Tayayá, Mario Umberto Degani. Em maio de 2025, a participação do Arleen na DGEP era de R$ 16,4 milhões.

A DGEP é uma empresa de incorporação imobiliária. Sua sede registrada na Receita Federal fica no mesmo endereço do resort Tayayá, e o email informado na criação da empresa foi [email protected].

Apurações da Polícia Federal e do Banco Central apontam para o uso de múltiplos fundos para inflar o patrimônio do Master. Uma operação da PF com base nessas investigações prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro em 18 de novembro, quando ele se preparava para deixar o país.

Treze dias antes, em 5 de novembro, uma assembleia geral do Arleen resolveu liquidar o fundo dali a dois dias, em 7 de novembro. Uma outra assembleia realizada em 1º de dezembro do ano passado postergou essa data para 22 de dezembro. Quando o fundo foi criado, em junho de 2021, o prazo previsto de duração era de 20 anos.

Documentos registrados na CVM desenham a conexão entre o Arleen e um dos fundos investigados no caso Master.

O Maia 95, um dos focos da fraude investigada pelo Banco Central, é dono de cotas do Murren 41, que por sua vez era cotista do Money Market. O Money Market e o Arleen tinham cotas de participação no mesmo fundo, o RWM Plus.

Numa auditoria feita no Arleen e registrada na CVM em maio de 2025, a empresa Next Auditores se absteve de emitir um parecer sobre o fundo, apontando falta de documentação societária, confirmações de saldo e demonstrações contábeis. Isso quer dizer que a Next não conseguiu fazer o trabalho de checagem das contas do fundo.

O papel do Banco Central e do TCU

Auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) que não deveriam se envolver no trabalho do Banco Central que é independente, realizaram uma análise preliminar que indicou que o Banco Central agiu corretamente ao decretar a liquidação do Banco Master em novembro de 2025. A investigação segundo o TCU busca esclarecer se houve precipitação por parte da autoridade monetária, mas até o momento, os técnicos apontam que os procedimentos foram adequados.

MAIS: Juristas questionam conduta de Dias Toffoli no caso Banco Master, “atuação não permitida ao judiciário”.

O indivíduo que questiona a liquidação do Banco Master não é economista e não tem especialização na área econômica. Jhonatan de Jesus é médico de formação e foi deputado federal por Roraima entre 2011 e 2023. Ele assumiu o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) em março de 2023, após ser indicado pelo Congresso Nacional.

A ideia de colocar o então deputado no tribunal partiu da da liderança do seu partido, o Republicanos, na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa à época, Arthur Lira (PP-AL), apoiou a indicação junto com uma série de agremiações partidárias do Centrão e de governistas. Durante o seu processo de indicação ao TCU, o então deputado do Republicanos defendia uma reaproximação entre o tribunal e o parlamento.

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Ministro do TCU da polêmica do Master também está na do roubo do INSS

O ministro do TCU, Jonathan de Jesus, teve sua esposa, Thallys Mendes dos Santos de Jesus, como proprietária de um BMW X1, que foi apreendido pela Polícia Federal. O veículo estava registrado no nome de Thallys e era parte de uma operação que investiga fraudes bilionárias no INSS.

A apreensão ocorreu em 23 de abril, e a transferência do veículo para a empresa Brasília Consultoria Empresarial, da qual Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” ponto central do Roubo bilionário dos aposentados do INSS, é sócio, foi feita após a apreensão. O ministro negou qualquer envolvimento no esquema e afirmou que o carro foi adquirido pelo pai de sua esposa e vendido para ela. A investigação continua, e a Polícia Federal está analisando as movimentações financeiras e as práticas de lavagem de dinheiro associadas ao esquema.

A defesa de Vorcaro negou á Folha, qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Disse que a reportagem estabelece “conexões inexistentes e distorce fatos ao sugerir vínculo entre o banco, seus executivos e investimentos mencionados”.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado Financeiro e Fotografia. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia Apaixonada por esportes, especialmente corrida. Artes e viagens precisam estar no "cardápio", juntamente com pessoas positivas.
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