Clientes relatam dificuldades para sacar recursos, aplicativo instável e falta de respostas da fintech; caso reacende debate sobre risco, liquidez e proteção fora do sistema bancário tradicional
Milhares de investidores acordaram nos últimos dias diante de um cenário que se tornou um dos maiores medos do mercado financeiro moderno: aplicativo fora do ar, pagamentos atrasados, suporte desaparecido e dúvidas sobre o paradeiro do dinheiro aplicado.
A fintech Naskar Gestão de Ativos entrou no radar das autoridades após clientes relatarem dificuldades para acessar recursos que podem chegar a R$ 900 milhões, segundo estimativas divulgadas pela imprensa. A Polícia Civil do Distrito Federal já investiga o caso.
A fintech Naskar Gestão de Ativos Ltda, que atuava no Distrito Federal e em São Paulo.
Segundo relatos publicados nesta quinta-feira, a empresa teria aproximadamente 3 mil clientes espalhados pelo país. Investidores afirmam que não conseguem acessar saldos, realizar resgates ou obter respostas da companhia há vários dias
O episódio rapidamente ultrapassou a esfera de uma simples instabilidade operacional e passou a ser tratado no mercado como mais um teste de estresse para o universo das fintechs de investimentos que prometem retornos elevados fora do sistema bancário tradicional.
E existe um detalhe importante que muitos investidores só descobrem em momentos de crise:
nem toda empresa que parece banco funciona sob as mesmas regras de um banco.
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Aplicativo fora do ar ampliou pânico
Relatos indicam que o aplicativo da empresa ficou indisponível justamente no período em que clientes esperavam pagamentos mensais.
A Naskar afirmou que enfrenta problemas relacionados à base de dados e que realiza auditoria interna para reconstrução das informações.
O site Reclame Aqui registrou mais de 40 reclamações contra a Naskar entre terça-feira (5) e quinta-feira (7).
As principais queixas envolvem bloqueio do aplicativo, impossibilidade de resgate e falta de retorno da empresa.
“Estou sem acesso ao app, não recebi rendimentos e não tenho nenhuma informação”, escreveu uma cliente.
O mercado, porém, tende a interpretar esse tipo de comunicação como um dos sinais clássicos de estresse operacional severo:
- interrupção repentina do sistema;
- dificuldade de saque;
- atrasos em pagamentos;
- ausência de comunicação clara;
- executivos incomunicáveis.
Quando isso acontece simultaneamente, o foco deixa de ser rentabilidade e passa a ser solvência.
Grupo já foi parar na Justiça
O caso ganhou nova dimensão após o Grupo Nexco ajuizar medida cautelar buscando esclarecimentos sobre contratos firmados com a Naskar.
A movimentação judicial aumenta a pressão sobre a empresa porque sinaliza que até parceiros corporativos passaram a buscar proteção patrimonial preventiva.
Em crises financeiras, esse costuma ser um ponto crítico:
quando instituições, parceiros ou grandes clientes começam a judicializar a relação, o mercado interpreta que a confiança operacional entrou em colapso.
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O colapso da confiança costuma começar da mesma forma
Os relatos envolvendo a Naskar seguem um padrão que o mercado financeiro conhece bem:
- dificuldade de saque;
- aplicativo instável;
- pagamentos atrasados;
- comunicação genérica;
- suporte desaparecendo;
- investidores tentando resgatar recursos ao mesmo tempo.
Quando esses fatores aparecem simultaneamente, o problema deixa de ser “retorno” e passa a ser liquidez.
No mercado financeiro, quebra de confiança costuma acontecer antes da quebra financeira propriamente dita.
E esse ponto é fundamental para investidores iniciantes entenderem:
uma empresa pode continuar existindo juridicamente enquanto já perdeu completamente a capacidade operacional de sustentar resgates.
O que chamou atenção no caso Naskar
Segundo relatos publicados pela imprensa, a empresa atraía investidores oferecendo retornos mensais considerados elevados para padrões tradicionais de renda fixa.
Esse tipo de narrativa ganhou força nos últimos anos no Brasil por três motivos:
- juros historicamente altos criaram cultura de renda mensal;
- investidores iniciantes passaram a buscar retornos rápidos;
- fintechs ganharam aparência de “modernização” do sistema financeiro.
O problema começa quando marketing, tecnologia e promessa de rentabilidade passam a substituir transparência estrutural.
Em muitos casos, o investidor entende apenas o rendimento prometido — mas não compreende:
- quem toma o risco;
- onde o dinheiro está custodiado;
- quais ativos sustentam os pagamentos;
- qual é a liquidez real da operação;
- quem fiscaliza a estrutura.
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O ponto que o mercado tradicional evita explicar
Existe hoje no Brasil uma zona cinzenta entre:
- bancos regulados;
- corretoras supervisionadas;
- securitizadoras;
- gestoras;
- plataformas privadas;
- estruturas alternativas de crédito.
Para o investidor comum, tudo parece apenas “uma plataforma financeira”.
Mas o nível de proteção muda drasticamente.
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O erro clássico do investidor iniciante
Muitos investidores confundem três conceitos completamente diferentes:
| Conceito | O que o investidor imagina | O que pode acontecer na prática |
|---|---|---|
| Aplicativo moderno | Segurança bancária | Pode existir apenas interface tecnológica |
| Rentabilidade recorrente | Fluxo previsível | Pode depender de entrada contínua de capital |
| Empresa conhecida nas redes | Credibilidade financeira | Marketing não substitui regulação |
Esse é exatamente o tipo de assimetria que cresce em ciclos de euforia financeira.
O detalhe mais perigoso em crises assim
O maior risco normalmente não aparece no momento da aplicação.
Ele surge quando todos tentam sair ao mesmo tempo.
Estruturas de crédito privado, antecipação de recebíveis e operações alternativas frequentemente dependem de fluxo contínuo de capital e de liquidez controlada.
Enquanto poucos investidores pedem resgate, o sistema parece funcionar normalmente.
O problema aparece quando ocorre perda coletiva de confiança.
Nesse momento, mesmo operações legítimas podem enfrentar forte estresse de liquidez.
Segundo relatos obtidos, alguns investidores tinham valores milionários aplicados na fintech.
Um empresário do Distrito Federal possuía R$ 3,9 milhões investidos. Um bancário tinha R$ 2,3 milhões aplicados. Já um aposentado teria aportado R$ 1 milhão.
A empresa prometia retorno fixo de 2% ao mês, rendimento considerado muito acima da média do mercado financeiro.
Na prática, um cliente com R$ 1 milhão investido receberia cerca de R$ 20 mil mensais em rendimentos.
Sócios desapareceram e app segue fora do ar
Os sócios da empresa, Marcelo Arantes, Rogério Vieira e Maurício Jahu, não estariam respondendo contatos de investidores, segundo relatos.
Além disso, as redes sociais da empresa permanecem sem atualização, enquanto o aplicativo utilizado pelos clientes segue indisponível.
O empresário Wesley Albuquerque, que afirma ter captado 135 clientes para a Naskar, disse que os investimentos ligados à sua carteira somam cerca de R$ 47 milhões.
“Estou me mantendo à base de medicamentos desde segunda-feira. Já chorei. Minha mulher não dorme. Estou quebrado, minha vida acabou”, afirmou.
Segundo ele, parte da família também investia na empresa.
“Minha mãe vendeu uma casa, e recomendei a ela que investisse lá. Agora ela não tem reserva, não tem aposentadoria, não tem nada”, disse.
Em nota divulgada na manhã desta sexta-feira (8), a Naskar afirmou ter sofrido uma “perda na base de dados”.
Segundo a empresa, equipes técnicas trabalham na recuperação das informações.
“Após uma perda em nossa base de dados, estamos conduzindo um processo cuidadoso de auditoria. As equipes técnicas seguem atuando na estruturação das informações, e o processo de circularização junto aos clientes terá início ao longo da próxima semana”, informou a fintech.
A empresa afirmou ainda que pretende normalizar as operações nos próximos dias.
O que investidores deveriam observar antes de aplicar
Casos como o da Naskar deixam uma lição importante para investidores iniciantes:
rentabilidade nunca deveria ser analisada isoladamente.
Antes de investir, o investidor deveria entender:
- quem regula a empresa;
- se existe proteção do FGC;
- onde os recursos ficam custodiados;
- como a rentabilidade é gerada;
- qual é o risco de liquidez;
- qual ativo sustenta os pagamentos;
- se existe auditoria independente;
- quem responde juridicamente pela operação.
Se a explicação financeira parece excessivamente complexa — mas a promessa de retorno parece simples — o risco geralmente é maior do que aparenta.

A discussão que o caso reabre
O avanço das fintechs democratizou serviços financeiros no Brasil e aumentou concorrência contra grandes bancos.
Mas também criou um novo fenômeno:
investidores passaram a confiar em interfaces modernas antes mesmo de compreender a estrutura financeira por trás delas.
Em ciclos de mercado favoráveis, isso quase não aparece.
Em momentos de estresse, vira o centro do problema.
Perguntas Frequentes
O que é risco de liquidez?
Risco de liquidez acontece quando uma empresa ou ativo não consegue transformar operações em dinheiro rapidamente para honrar pagamentos e resgates.
Fintech tem proteção do FGC?
Nem toda fintech possui produtos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A proteção depende da estrutura jurídica da operação e do produto oferecido.
Por que retornos muito altos exigem atenção?
Quanto maior a rentabilidade prometida, maior tende a ser o risco envolvido. Retorno elevado sem transparência clara costuma ser um dos principais sinais de alerta do mercado financeiro.



