Odebrecht volta ao centro das concessões e vence leilão bilionário da Rota dos Sertões após anos fora do setor por causa da Lava Jato

Consórcio ligado à antiga Odebrecht vence disputa de R$ 8,5 bilhões na B3; projeto conecta Bahia e Pernambuco e marca retorno da empresa ao setor de rodovias federais

A antiga Odebrecht, hoje rebatizada como Novonor, voltou oficialmente ao centro do setor de infraestrutura brasileiro após vencer o leilão da concessão da BR-116/324/BA/PE, batizada de Rota dos Sertões, realizado nesta quinta-feira (28), na sede da B3, em São Paulo.

O vencedor foi o Consórcio 116 Sertões, formado pela NEO Invest, pela portuguesa Mota-Engil e pelo Infra I Fundo de Investimento. O grupo apresentou a proposta de menor tarifa de pedágio, com desconto de 19,60% sobre a tarifa básica, garantindo a vitória em uma disputa considerada estratégica para o novo ciclo de concessões rodoviárias do governo federal.

O contrato prevê R$ 8,53 bilhões em investimentos e custos operacionais ao longo de 30 anos de concessão, sendo:

  • R$ 4,13 bilhões em obras de ampliação e modernização;
  • R$ 4,40 bilhões em operação, manutenção e serviços aos usuários.

A concessão compreende cerca de 502 quilômetros entre Feira de Santana (BA) e Salgueiro (PE), conectando importantes polos industriais, agrícolas e logísticos do Nordeste.

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Como foi a vitória do consórcio ligado à Odebrecht

O leilão contou com três grupos concorrentes e foi decidido em etapa de viva-voz na B3.

Inicialmente, o Consórcio 116 Sertões apresentou proposta de desconto de 18,17% sobre a tarifa básica de pedágio. O percentual já colocava o grupo na liderança da disputa.

Na sequência, a Atlas Rodovias — formada pelo Infra Brasil Fundo de Investimento e pela Yvy Capital, gestora fundada pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes e pelo ex-presidente do BNDES Gustavo Montezano — apresentou proposta de 16%.

Já o Consórcio Via dos Sertões, composto pelos grupos Aspen e DMDL, ofertou desconto de 13,10%, mas acabou eliminado antes da fase decisiva.

Na etapa final de lances por viva-voz, o Consórcio 116 Sertões elevou a proposta para 19,60%, percentual que não foi superado pelos concorrentes, garantindo oficialmente a vitória do grupo.

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O resultado marca o retorno direto da Odebrecht — hoje Novonor — às concessões federais de rodovias após anos afastada do setor.

Quem ganhou o leilão

ConsórcioDesconto
116 Sertões19,60%
Atlas Rodovias16%
Via dos Sertões13,10%

O retorno da Odebrecht após a Lava Jato

A vitória na Rota dos Sertões representa um marco simbólico para a Novonor.

A empresa, que durante décadas foi uma das maiores empreiteiras da América Latina sob a marca Odebrecht, sofreu forte impacto financeiro, jurídico e reputacional após os desdobramentos da Operação Lava Jato.

As investigações revelaram um amplo esquema de corrupção envolvendo:

  • contratos públicos;
  • pagamento de propinas;
  • financiamento político;
  • fraudes em licitações;
  • relações entre grandes empreiteiras e agentes públicos.

A Odebrecht tornou-se um dos principais símbolos da operação e acabou firmando acordos de leniência bilionários no Brasil e no exterior.

Como consequência:

  • perdeu acesso facilitado a crédito;
  • vendeu ativos;
  • reduziu drasticamente sua presença em concessões;
  • entrou em recuperação judicial;
  • mudou sua marca para Novonor numa tentativa de reestruturação institucional e reputacional.

A saída da empresa do mercado de concessões federais foi uma das consequências diretas desse processo.

Agora, a vitória na Rota dos Sertões sinaliza uma tentativa clara de retorno ao setor de infraestrutura sob um novo modelo de governança e atuação financeira.

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Papel do BNDES e a mudança no modelo de infraestrutura do Brasil

O leilão também evidencia a transformação do papel do BNDES no setor de infraestrutura brasileiro.

Historicamente, o banco estatal foi um dos principais financiadores das grandes empreiteiras nacionais, incluindo a própria Odebrecht, durante o período de expansão acelerada das obras públicas e concessões entre os anos 2000 e 2010 majoritariamente em governos do PT.

Naquele modelo:

  • grandes grupos recebiam financiamento subsidiado;
  • o Estado atuava como forte indutor do setor;
  • obras de infraestrutura se tornaram eixo central da política econômica.

Após a o escândalo de corrupção da Lava Jato, o sistema passou por profundas mudanças.

Segundo a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, o banco participou da estruturação da operação da Rota dos Sertões dentro de um novo ambiente regulatório, focado em governança, segurança jurídica e atração de investimentos privados.

O projeto faz parte da Estruturação de Concessão de Rodovias Federais – 2, parceria entre o BNDES e o Ministério dos Transportes iniciada em 2020.

A nova modelagem busca:

  • reduzir insegurança regulatória;
  • ampliar participação privada;
  • aumentar competitividade nos leilões;
  • destravar investimentos em logística.

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BNDES volta ao centro do debate após retorno da Odebrecht às concessões

A vitória do consórcio ligado à antiga Odebrecht também recolocou o BNDES no centro do debate sobre o modelo de infraestrutura brasileiro.

Durante os governos do PT, o banco estatal foi um dos principais pilares financeiros da expansão das grandes empreiteiras nacionais. Com crédito subsidiado e financiamentos bilionários, grupos como Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa ampliaram rapidamente sua presença em obras públicas, concessões e projetos internacionais.

Críticos do modelo afirmam que o BNDES ajudou a criar um sistema de forte concentração econômica, favorecendo grandes conglomerados com acesso privilegiado ao crédito estatal enquanto pequenas e médias empresas tinham dificuldades para competir.

A Operação Lava Jato expôs justamente parte desse ambiente de proximidade entre empreiteiras, poder político e contratos públicos bilionários. Investigadores apontaram que diversas obras financiadas direta ou indiretamente pelo sistema estatal acabaram envolvidas em esquemas de corrupção, pagamento de propinas e cartelização.

Embora o BNDES não tenha sido acusado de participar dos esquemas criminosos, o banco passou a ser alvo de críticas por ter financiado empresas que posteriormente admitiram práticas ilícitas em contratos públicos. Sendo que o dinheiro poderia ter financiado empresas menores a crescer honestamente.

O caso Odebrecht se tornou o símbolo máximo desse modelo.

Após a Lava Jato, houve uma tentativa de reformulação do setor no governo de Jair Bolsonaro:

  • redução do protagonismo estatal;
  • maior participação de fundos privados;
  • exigências mais rígidas de compliance;
  • e mudanças nos critérios de financiamento.

Mesmo assim, o banco continua exercendo papel decisivo na estruturação de concessões e no financiamento de grandes projetos de infraestrutura.

Na própria Rota dos Sertões, a diretora de Infraestrutura do BNDES, Luciana Costa, confirmou que o banco participou da modelagem do projeto. Para defensores do modelo atual, isso demonstra capacidade técnica do Estado em destravar investimentos e organizar concessões de longo prazo.

Já críticos enxergam um possível retorno gradual do antigo sistema de forte dependência entre grandes grupos empresariais e financiamento público, especialmente com a reaproximação de empresas historicamente envolvidas nos escândalos da Lava Jato do setor de infraestrutura federal.

O retorno da antiga Odebrecht às concessões federais, portanto, não reacende apenas discussões econômicas. Também revive um debate político sobre:

  • uso de recursos públicos;
  • governança;
  • transparência;
  • fiscalização;
  • e os limites da atuação estatal no financiamento de grandes grupos privados.
rota dos sertões, timeline detalhada
O início da Rota dos Sertões até o leilão. Imagem: Investidores Brasil

Projeto da Rota dos Sertões começou no governo Bolsonaro e atravessou diferentes gestões

Embora o leilão da Rota dos Sertões tenha sido realizado agora, a estruturação do projeto começou ainda em 2020 em meio a Pandemia de Covid-19, durante o governo Jair Bolsonaro.

Naquele período, o Ministério da Infraestrutura, comandado por Tarcísio de Freitas, iniciou uma ampla agenda de concessões rodoviárias com foco em ampliar a participação privada no setor de logística e reduzir a dependência direta do Estado sobre obras e manutenção de rodovias federais.

Foi dentro desse contexto que surgiu a parceria entre o Ministério da Infraestrutura e o BNDES para estruturar novos projetos de concessão, incluindo a Rota dos Sertões.

A proposta fazia parte de uma estratégia maior do governo Bolsonaro para:

  • acelerar investimentos privados;
  • ampliar concessões;
  • destravar obras paradas;
  • modernizar rodovias;
  • e reduzir gargalos logísticos considerados críticos para o agronegócio e para o transporte de cargas.

Na época, o discurso oficial defendia um modelo de maior protagonismo da iniciativa privada, com o Estado atuando mais como estruturador e regulador dos projetos do que como executor direto das obras.

O projeto da Rota dos Sertões acabou atravessando diferentes governos e etapas burocráticas:

  • estudos técnicos;
  • modelagem econômico-financeira;
  • audiências públicas;
  • revisão contratual;
  • adequações regulatórias;
  • e mudanças no cenário macroeconômico.

Já no atual governo Lula, o projeto foi mantido dentro da carteira de concessões federais e levado efetivamente a leilão pela ANTT e pelo Ministério dos Transportes como se fosse seu.

Críticos observam uma ironia política no fato de que um projeto estruturado originalmente durante o governo Bolsonaro que em apenas 4 anos com a maior Pandemia global tenha feito algo que o PT de Lula não fez em quase 16 anos, e acabou marcando justamente o retorno da antiga Odebrecht — empresa aliada a Lula que se tornou um dos maiores símbolos da Lava Jato — às grandes concessões federais.

A situação evidencia como o setor de infraestrutura brasileiro continua nas mãos de grupos já aliados ao governo Lula e com histórico de corrupção não apenas no Brasil, mas no exterior assumindo contratos bilionários de longo prazo, mesmo após as profundas mudanças provocadas pela corrupção da Lava Jato.

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Nordeste entra no novo ciclo de concessões rodoviárias

No projeto original de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro a Rota dos Sertões terá papel estratégico na integração logística da região ao conectar:

  • a BR-116;
  • a BR-324;
  • a ferrovia Transnordestina;
  • polos industriais;
  • áreas agrícolas do semiárido nordestino.

Os idealizadores do projeto previram:

  • mais de 90 quilômetros de duplicações;
  • 41 quilômetros de multifaixas;
  • vias marginais;
  • contornos urbanos;
  • passarelas;
  • sistemas inteligentes de monitoramento;
  • ambulâncias;
  • guinchos;
  • estrutura permanente de atendimento aos usuários;
  • ponto de parada e descanso para caminhoneiros.

Também estão previstas:

  • duplicação de 108,2 km da BR-116;
  • implantação de 44,5 km de vias marginais;
  • 7,1 km de contornos urbanos;
  • melhorias de segurança viária e capacidade logística.
rota dos sertões
Corretor logístico Bahia. Imagem: Investidores Brasil

Corredor estratégico para agronegócio, indústria e escoamento de cargas

A Rota dos Sertões atravessa 16 municípios entre Bahia e Pernambuco, incluindo:

  • Feira de Santana;
  • Euclides da Cunha;
  • Serrinha;
  • Tucano;
  • Cabrobó;
  • Salgueiro.

O trecho é considerado um dos mais relevantes do Nordeste para:

  • escoamento de produção agropecuária;
  • transporte de mercadorias;
  • integração entre rodovias e ferrovias;
  • acesso aos mercados consumidores e portos.

Feira de Santana abriga o Centro Industrial do Subaé (CIS), terceiro maior polo industrial da Bahia, enquanto municípios do sertão possuem forte atividade agropecuária, especialmente:

  • milho;
  • feijão;
  • mandioca;
  • pecuária;
  • apicultura.

Na prática, a BR-116 funciona como eixo logístico vital para conectar o interior nordestino aos centros de distribuição da região.

A vitória do consórcio ligado à Novonor na Rota dos Sertões vai além de um simples leilão de rodovia.

Ela simboliza:

  • o retorno da antiga Odebrecht ao setor de concessões;
  • um novo ciclo da infraestrutura brasileira idealizado por Jair Bolsonaro;
  • a reformulação do papel do BNDES no governo Bolsonaro, que poderá ser modificada nas novas gestões;
  • e a tentativa de reconstrução de um grupo profundamente abalado pela corrupção exposta e assumida pelos donos da Odebrecht na Lava Jato.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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