Promessa de consumo que ajudou a eleger Lula em 2022 volta à campanha quatro anos depois, mas agora sob uma realidade diferente: famílias endividadas, crédito pressionado e orçamento cada vez mais disputado
A economia começa a ocupar um espaço potencialmente decisivo na eleição presidencial de 2026 — não apenas pelos indicadores de crescimento, emprego ou inflação, mas por uma questão muito mais simples para o eleitor: o dinheiro que entra em casa ainda compra o mesmo que comprava alguns anos atrás? A resposta é: “nem a metade”.
A pergunta ganhou força durante o MacroDay, evento realizado pelo BTG Pactual em São Paulo, quando Murilo Hidalgo, CEO da Paraná Pesquisas, apontou a economia e a segurança pública como dois dos principais problemas que o governo Luiz Inácio Lula da Silva terá de enfrentar na corrida eleitoral.
Ao falar sobre a situação econômica, Hidalgo recorreu a dois símbolos que marcaram a campanha presidencial de 2022: a picanha e a cervejinha.
Segundo o pesquisador, os preços estão pesando sobre a população e o brasileiro estaria encontrando dificuldades para consumir justamente aquilo que, quatro anos atrás, foi apresentado como símbolo de recuperação do poder de compra.
“As pessoas não estão conseguindo comprar a picanha e a cervejinha”, afirmou Hidalgo.
A frase pode parecer apenas uma provocação eleitoral, mas encontra respaldo em um dado que merece atenção: 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O resultado representou o maior nível da série histórica e o sexto recorde consecutivo.
O número, porém, precisa ser interpretado corretamente. Estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Em julho, a proporção de famílias com contas em atraso ficou em 29,8%, ligeiramente abaixo dos 29,9% registrados em junho, porém acabou de ocorrer o desenrola 2.0 de Lula, que renegociou os inadimplentes, que provavelmente mudaram os parcelamentos e assim saíram pelo menos por enquanto da lista da inadimplência.
Ainda assim, o comprometimento da renda mostra a dimensão da pressão sobre os orçamentos. Entre as famílias endividadas, o consumidor comprometia, em média, 29,5% da renda com o pagamento das dívidas. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento chegava a 84,9%.
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O ponto central não é a picanha, é a piora da economia no bolso do brasileiro
É justamente aqui que a discussão eleitoral fica mais interessante.
O problema econômico para Lula não está no preço isolado da picanha. Está na percepção de perda de poder de compra.
Uma família pode continuar empregada, ter renda maior nominalmente e ainda assim sentir que sua situação piorou se o aumento dos preços de alimentos, impostos, serviços, crédito e outras despesas consumir uma parcela cada vez maior do orçamento.
Esse fenômeno é particularmente importante em produtos de consumo cotidiano.
Quando uma família deixa de comprar determinado corte de carne e passa a escolher opções mais baratas, reduz a frequência das compras ou simplesmente elimina o produto da lista, a estatística macroeconômica se transforma em uma experiência concreta.
É essa percepção que pode ser politicamente relevante em 2026.
Em 2022, a picanha funcionou como um símbolo da promessa de que o brasileiro voltaria a ter maior capacidade de consumo. Quatro anos depois, o mesmo símbolo pode ser utilizado para fazer uma pergunta incômoda ao governo Lula: o aumento do poder de compra prometido chegou efetivamente ao supermercado?
A diferença entre crescer e conseguir comprar mais
Esse é um dos pontos que podem separar a narrativa econômica do governo Lula da percepção do eleitor.
Indicadores macroeconômicos positivos não necessariamente produzem sensação imediata de prosperidade. Até porque, dependem de metodologias e não da realidade.
Para o consumidor, a economia é percebida no supermercado, na fatura do cartão, no financiamento, no aluguel, no combustível e principalmente na quantidade de produtos que consegue levar para casa com a renda disponível.
Por isso, a eleição pode colocar em confronto duas leituras distintas da economia.
De um lado, o governo Lula poderá apresentar números de atividade, emprego e renda.
Do outro, a oposição poderá perguntar o que esses números significaram efetivamente para o orçamento das famílias.
A diferença entre a narrativa e a realidade que o brasileiro não aguenta mais viver deve ser decisiva.
Lula ainda lidera segundo algumas pesquisas, mas a vantagem diminuiu e pesquisa não reproduz a realidade é apenas uma foto por um ângulo
Na pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada em 31 de agosto, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury aparece em terceiro, com 11%.
A fotografia por um ângulo, porém, esconde uma movimentação importante.
Lula caiu de 41% para 39% na comparação com a rodada anterior. Flávio Bolsonaro recuou de 37% para 33%, enquanto Augusto Cury avançou de 2% para 11%.
Mais relevante para a disputa é o cenário de segundo turno: Lula aparece com 46% contra 45% de Flávio Bolsonaro, configurando empate técnico, enquanto Lula gasta cada vez mais em publicidade.
Ou seja, a liderança de Lula no primeiro turno não significa, neste momento, uma eleição consolidada.
A polarização continua sendo o principal escudo de Lula
Para Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, a capacidade de mobilização dos dois campos políticos poderá ser determinante em uma eleição polarizada.
Essa avaliação ajuda a explicar por que uma deterioração na percepção econômica não necessariamente provoca uma transferência automática de votos.
O eleitor pode estar insatisfeito com os preços, com o crédito ou com sua situação financeira e ainda assim permanecer fiel ao seu campo político, se desistir de melhorar de vida com uma opção diferente.
A pesquisa BTG/Nexus mostra justamente um eleitorado relativamente consolidado: 78% daqueles que declararam voto afirmam estar decididos, enquanto 21% admitem que ainda podem mudar.
Entre os eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro, a fidelidade declarada chega a 85% em ambos os grupos.
Isso significa que a economia pode se tornar um fator decisivo sem necessariamente destruir a polarização.
Se Lula precisa responder sobre poder de compra, Flávio Bolsonaro precisa responder sobre capacidade de governo. E vem fazendo isto com muito sucesso.
O resultado é uma situação peculiar: Lula precisa defender sua gestão econômica que termina em crise econômica; Flávio é uma alternativa de mudança e melhoria para quem quer ter mais poder de compra e mais segurança para sua família.
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O crescimento de Augusto Cury abre uma terceira frente
O avanço de Augusto Cury para 11% acrescenta uma variável que não pode ser ignorada.
O candidato saiu de apenas 2% na rodada anterior e passou a ocupar uma posição relevante no primeiro turno.
Isso demonstra que, apesar da forte polarização entre Lula e o bolsonarismo, ainda existe espaço para deslocamento de votos.
Para Lula, isso pode representar tanto uma ameaça quanto uma oportunidade.
Uma terceira candidatura forte pode retirar votos da oposição e facilitar sua chegada ao segundo turno. Mas não deve se manter no segundo turno. É difícil presumir que o eleitor que não quis Lula no primeiro vá querer no segundo, pois as razões para negá-lo são normalmente consolidadas e representam a busca por mudança e melhoria, e outro candidato vai representar isso não Lula.
O verdadeiro indicador eleitoral pode estar no carrinho do supermercado
A discussão sobre picanha e cervejinha pode parecer superficial diante de temas como dívida pública, juros, crescimento ou política fiscal.
Na realidade, pode ocorrer justamente o contrário.
O carrinho do supermercado é onde o eleitor transforma a macroeconomia em julgamento político.
Se a renda permite comprar mais, a percepção tende a ser positiva.
Se a mesma renda compra menos carne, menos alimentos ou menos produtos, a percepção pode ser de empobrecimento — ainda que determinados indicadores econômicos apresentem melhora.
É por isso que o dado de endividamento de 82% merece ser observado em conjunto com a discussão eleitoral.
O número não prova, sozinho, que o brasileiro está mais pobre. Também não permite concluir que a economia esteja em colapso.
Mas revela que uma parcela extraordinariamente elevada das famílias está recorrendo ao crédito e carregando compromissos financeiros. Estão parcelando até mesmo comida no IFood, algo inédito.
E uma eleição presidencial será disputada justamente por esse eleitor que precisa decidir se sua vida econômica melhorou ou piorou durante o governo Lula, e se vai buscar a mudança para tentar melhorar de verdade, não apenas no discurso.
De promessa de consumo a cobrança eleitoral
A força política da picanha em 2026 está justamente na comparação com 2022.
Naquela eleição, o produto virou símbolo de uma promessa de Lula: aumentar a capacidade de consumo do brasileiro.
Agora, o símbolo retorna em uma circunstância diferente.
A pergunta já não é apenas se o brasileiro pode comprar picanha. Pois está difícil comprar qualquer coisa:
É se o orçamento familiar ampliou poder de compra suficiente para que produtos que antes faziam parte do consumo habitual voltem a caber no carrinho sem comprometer outras despesas. E a respostas de acordo com os número é o oposto.
Essa é uma cobrança muito mais difícil de responder apenas com estatísticas.
Porque o eleitor não precisa conhecer a taxa de crescimento do PIB para saber se está comprando menos carne.
Não precisa acompanhar o mercado financeiro para perceber que o salário termina antes do mês.
E não precisa entender de política monetária para sentir o peso de uma dívida no orçamento.
É nesse ponto que a economia pode deixar de ser apenas um indicador de governo e se transformar em voto.
A eleição ainda está aberta, a polarização continua forte e os números não autorizam decretar uma derrota ou vitória antecipada de nenhum dos candidatos.
Mas existe uma disputa que já começou: entre a narrativa de uma economia que melhorou e a percepção de um consumidor que, no fim do mês, não consegue comprar nem o que comprava antes em 2022 com o dinheiro que tem.
Em 2026, a picanha pode voltar a ser símbolo.
Só que desta vez, em vez de representar uma promessa eleitoral, poderá representar a cobrança por uma promessa que não aconteceu e que o eleitor agora terá condições de avaliar no próprio bolso.


