O escândalo envolvendo o Banco Master deixou definitivamente a esfera de uma crise isolada para se transformar em um terremoto institucional dentro do sistema financeiro brasileiro. Neste sábado (23), o chairman do BTG Pactual, André Esteves, admitiu publicamente que houve falhas graves de fiscalização no caso do banco de Daniel Vorcaro — e a declaração carrega peso incomum justamente por partir de um dos homens mais poderosos do mercado financeiro nacional.
“Você tem alguma dúvida? Claro, né?”, respondeu Esteves ao ser questionado, durante fórum da Esfera no Guarujá, se houve omissão dos órgãos de controle.
A fala representa mais do que uma crítica técnica ao Banco Central do Brasil. Ela funciona como uma confirmação pública de algo que vinha sendo discutido reservadamente nos bastidores do mercado há meses: o Banco Master cresceu sustentado por estruturas de risco que dificilmente poderiam ter passado despercebidas por reguladores, distribuidores e grandes participantes do sistema.
Considerando que toda a crise se desenrolou na gestão de Galípolo indicado por Lula, que se reuniu com Vorcaro antes mesmo de assumir a chefia da autarquia, fica entendido que Esteves aponta o dedo a gestão do indicado de Lula.
O mercado agora tenta medir o tamanho real do dano
Ao listar os impactos provocados pelo caso, Esteves revelou números que ajudam a explicar por que o episódio passou a assustar o setor financeiro:
- cerca de R$ 55 bilhões potencialmente expostos no Fundo Garantidor de Créditos (FGC);
- aproximadamente R$ 12 bilhões ligados ao Banco de Brasília (BRB), que comprou carteiras do Master;
- muitos bilhões de prejuízo a investidores que não foram cobertos pelo FGC;
- mais de R$ 4 bilhões em fundos de previdência.
O ponto mais sensível é que o próprio banqueiro descreveu o Master como um banco “inexpressivo” em tamanho relativo. Ainda assim, a instituição conseguiu criar conexões suficientes para espalhar risco por fundos, previdência privada, distribuidores, crédito estruturado e garantias sistêmicas.
Na prática, o caso reacende uma preocupação histórica do mercado brasileiro: pequenos bancos frequentemente conseguem operar níveis de alavancagem e engenharia financeira desproporcionais ao próprio tamanho até que a deterioração se torne impossível de esconder.
O detalhe mais explosivo: 80% do caixa segundo André Esteves estaria sustentado por precatórios problemáticos
O trecho mais grave da fala de Esteves talvez tenha passado despercebido fora do mercado profissional.
Segundo ele, o BTG Pactual desistiu de uma operação de aproximadamente R$ 1,5 bilhão envolvendo ativos do Master após auditorias internas detectarem que cerca de 80% do caixa do banco estaria sustentado por precatórios considerados de baixíssima qualidade.
No mercado, ativos desse tipo costumam carregar enorme dificuldade de precificação, baixa liquidez e forte dependência de teses jurídicas e políticas. Quando usados em excesso para sustentar balanços, podem criar uma aparência artificial de solvência.
O episódio levanta uma pergunta desconfortável para o sistema financeiro:
como uma estrutura com tamanho nível de dependência em ativos ilíquidos conseguiu expandir distribuição de CDBs, operações de crédito e captação sem sofrer bloqueios regulatórios mais severos antes?

BTG tenta se blindar antes que o foco mude para os distribuidores
Embora tenha reconhecido falhas de fiscalização, Esteves fez questão de afirmar que não houve erro do BTG.
A defesa ocorre porque o banco teve relação direta com o ecossistema financeiro do Master:
- foi um dos maiores distribuidores de CDBs da instituição;
- comprou carteiras ligadas ao Credcesta;
- negociou ativos originados pelo banco de Vorcaro.
A tentativa de distanciamento revela outra camada crítica do caso: o risco reputacional para grandes instituições que operaram, distribuíram ou negociaram produtos ligados ao Master antes do colapso das suspeitas.
Nos bastidores, o mercado sabe que a discussão tende a avançar inevitavelmente para uma pergunta mais ampla:
até que ponto os grandes players realmente desconheciam a deterioração estrutural dos ativos?
O encontro no Planalto que mudou completamente a leitura política do caso Master
Um dos pontos mais explosivos de toda a crise do Banco Master surgiu quando vieram à tona relatos sobre uma reunião reservada realizada em dezembro de 2024 no Palácio do Planalto entre Luiz Inácio Lula da Silva, Daniel Vorcaro e Gabriel Galípolo — que naquele momento ainda não havia assumido oficialmente o comando do Banco Central do Brasil.
Segundo reportagens publicadas inicialmente pelo Poder360 e baseadas em informações atribuídas a documentos obtidos pela Polícia Federal, Vorcaro teria procurado Lula em meio às dificuldades crescentes do Master e às negociações para vender o banco ao BTG Pactual, de André Esteves.
De acordo com os relatos publicados, Lula teria aconselhado Vorcaro a não vender o banco ao BTG por valor simbólico e teria sinalizado que, em poucos dias, Gabriel Galípolo assumiria a presidência do Banco Central.
As reportagens também afirmam que Lula teria feito críticas duras tanto a Roberto Campos Neto quanto a André Esteves durante a conversa.
O episódio passou a ser visto como extremamente sensível por vários motivos:
- o Banco Master já enfrentava fortes rumores de problemas de liquidez no mercado;
- Galípolo ainda integrava formalmente a estrutura do Banco Central sob a gestão Campos Neto, mas não comunicou Neto sobre a reunião;
- o encontro teria ocorrido justamente durante negociações críticas envolvendo eventual venda do banco;
- e a reunião não apareceu nas agendas públicas oficiais, aumentando a pressão sobre transparência institucional.
O caso ganhou dimensão ainda maior porque, posteriormente, o próprio Galípolo confirmou a existência do encontro e afirmou que Lula teria garantido a Vorcaro que o tratamento do Banco Central seria “técnico”.
Nos bastidores do mercado financeiro, porém, a interpretação política foi imediata: a presença do futuro presidente do BC numa reunião privada com o controlador de um banco já cercado de dúvidas acabou alimentando suspeitas de proximidade institucional excessiva entre governo, regulador e o Master.
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Reuniões com o Master dispararam sob Galípolo no Banco Central — e sigilo ampliou desconfiança
Outro ponto que passou a alimentar críticas ao atual comando do Banco Central foi o volume de encontros entre representantes do Banco Master e a autoridade monetária após a chegada de Gabriel Galípolo à presidência do BC.
Dados divulgados indicam que o Banco Master realizou 41 reuniões com o Banco Central apenas nos primeiros 11 meses da gestão Galípolo, contra 24 encontros durante todo o período da presidência de Roberto Campos Neto entre 2019 e 2024.
A diferença passou a ser usada politicamente por críticos do governo Lula como argumento para questionar a relação entre o atual comando do BC e o banco de Daniel Vorcaro.
O tema ficou ainda mais sensível após surgirem informações de que documentos, agendas e investigações relacionados ao caso Master receberam classificação de sigilo de longo prazo dentro do Banco Central, em alguns casos por até oito anos, segundo relatos publicados na imprensa e explorados por opositores do governo.
Ao mesmo tempo, Gabriel Galípolo tem sustentado publicamente que Roberto Campos Neto não possui responsabilidade direta sobre a fase final da crise do Master, argumentando que os episódios mais críticos ocorreram posteriormente, já durante o agravamento definitivo da situação patrimonial da instituição.

Esse detalhe é central porque cria uma divisão política importante dentro da narrativa do caso:
- de um lado, Mercadante e aliados do governo afirmam que houve omissão regulatória na gestão Campos Neto;
- de outro, Galípolo afirmou diversas vezes que o ex-presidente do BC não tem ligação com o colapso do banco.
Na prática, isso transformou o escândalo do Master em algo muito maior do que apenas uma investigação financeira. O caso passou a envolver:
- autonomia real do Banco Central;
- influência política sobre órgãos técnicos;
- transparência de reuniões entre governo e sistema financeiro;
- acesso privilegiado de banqueiros ao poder;
- e possível blindagem institucional em torno das decisões regulatórias mais sensíveis do País.
Mercadante aliado de Lula tenta desviar o foco de fatos e transforma caso Master em ataque político à era Campos Neto
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Aloizio Mercadante, aproveitou o episódio para direcionar a responsabilidade à antiga gestão do Banco Central, comandada por Roberto Campos Neto.
Segundo Mercadante que não apresentou nenhuma comprovação, houve “omissão e conivência” da direção anterior da autoridade monetária.
A declaração adiciona forte componente político ao caso porque insere o escândalo Master na disputa mais ampla envolvendo:
- autonomia do Banco Central;
- supervisão do sistema financeiro;
- influência política sobre órgãos reguladores;
- relação entre mercado financeiro e governo Lula que já estava se relacionando com Vorcaro e até inaugurando fábrica do ex-banqueiro e dando conselhos em reunião não divulgadas na agenda oficial.
Mercadante afirmou que foi apenas a nova direção do BC que teria iniciado medidas efetivas para conter o problema.
VEJA: Lula foi inaugurar fábrica do Dono do Banco Master em 2024
Mercadante cria alarme e fumaça em outra direção sobre bomba dos fundos estar apenas começando
O presidente do BNDES também fez um alerta que chamou atenção entre gestores e operadores: segundo ele, a crise do Master pode ser apenas o primeiro sintoma de um problema maior dentro da indústria de fundos estruturados.
Ao comentar a situação da Reag Investimentos, alvo de liquidação extrajudicial após investigações envolvendo fraude e lavagem de dinheiro, Mercadante afirmou:
“A Reag é só a ponta do iceberg.”
O diagnóstico é especialmente sensível porque toca num dos segmentos mais opacos do mercado brasileiro: estruturas privadas de crédito, fundos com ativos difíceis de precificar e veículos financeiros sustentados por marcações questionáveis.
Em linguagem simples, o alerta é direto: existem temores de que parte do sistema esteja carregando ativos que valem muito menos do que aparentam nos balanços.
VEJA: Presidente do FGC faz alerta sobre futuro do mercado financeiro e expõe preocupação com nova crise
O caso Master ameaça provocar uma guinada regulatória no sistema financeiro
O episódio já começa a gerar pressão política e institucional para mudanças profundas na fiscalização bancária e no mercado de capitais.
Mercadante defendeu:
- fortalecimento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM);
- ampliação do poder de supervisão do Banco Central;
- reestruturação das carreiras de fiscalização;
- valorização salarial dos servidores responsáveis pelo controle financeiro.
Nos bastidores do mercado, cresce o temor de que o caso produza consequências amplas:
- regras mais rígidas para bancos médios;
- fiscalização agressiva sobre FIDCs e fundos estruturados;
- restrições adicionais para distribuição de CDBs;
- revisão do modelo do FGC;
- auditorias mais profundas em precatórios e ativos ilíquidos.
No fim, o problema deixa de ser apenas sobre Daniel Vorcaro ou o Banco Master. O centro da crise passa a ser outro: quantas estruturas semelhantes ainda permanecem escondidas dentro do sistema financeiro brasileiro. Como os poderes judiciário, legislativo e executivo estão envolvidos neste tipo de crise.



