O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que não existe qualquer auditoria ou sindicância que atribua responsabilidade ao ex-presidente Roberto Campos Neto no caso envolvendo o Banco Master.
Galípolo foi convidado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado para explicar a atuação do Banco Central no caso Master, o maior escândalo bancário da história e que pode culminar em um possível acordo de delação premiada com impacto nos Três Poderes. O relator da CPI é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
Esse ponto resolve o debate jurídico imediato.
Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontra qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos”, disse.
Mas desloca o foco para o que realmente importa:
Se o problema ganhou escala, fora daquela gestão, como ele cresceu dentro do sistema regulado — e quais riscos isso cria para o investidor?
Galípolo teve reunião fora da agenda pública no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024 com Vorcaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras autoridades. Na época, ele não informou sobre o encontro, que ficou fora da agenda oficial até de Lula, que o indicou ao cargo. Assim, o então presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, não soube da referida reunião.
O fato técnico
- Não há responsabilização formal de Campos Neto, então a nova gestão pode ser responsabilizada?
- As investigações indicam escalada relevante em 2025.
- O caso segue sob análise em diferentes frentes, porém Galípolo colocou toda a documentação sobre o Banco Master em sigilo por 8 anos, algo muito contestado para uma instituição que precisa de transparência para os brasileiros.
1. A escalada da venda de “títulos podres”
Se o crescimento do problema ocorre fora da gestão anterior:
- o foco deixa de ser individual
- passa a ser dinâmica de supervisão contínua
Pergunta central:
O sistema reagiu na velocidade adequada quando o risco começou a acelerar?
De acordo com Galípolo, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou em janeiro de 2025 que o Master estava fazendo venda de novas carteiras por causa dos problemas de liquidez, mesmo com as dificuldades de nova captação.
LEIA: Como investir do zero no Brasil: guia definitivo para iniciantes (2026)
2. O papel dos CDBs na amplificação do risco
A partir de 2025, a estratégia de captação via CDBs com taxas elevadas ganha relevância.
Isso precisa ser entendido com precisão:
- taxa alta não causa rombo diretamente
- ela acelera a entrada de recursos
O efeito real é outro:
Expansão do passivo garantido pelo Fundo Garantidor de Créditos
3. O mecanismo que o investidor precisa entender
Funciona assim:
- Banco oferece CDB com taxa acima do mercado
- Atrai grande volume de investidores
- Aumenta rapidamente sua base de captação
- Se houver quebra → o FGC cobre o estoque elegível, ou seja, no limite das regras.
O impacto vem do volume acumulado — não do percentual de juros
O risco que bancos não explicam
Juros alto é sinal, não benefício
- taxa acima da média = necessidade de capital
- necessidade de capital = maior percepção de risco
O investidor recebe mais porque está assumindo mais risco — mesmo que isso não esteja explícito.
Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e identificou, em março, que as carteiras não tinham lastro. Os documentos obtidos eram, segundo Galípolo, insuficientes para constatar uma fraude, mas o BC procurou respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.
MAIS: Rejeição a novo mandato de Lula da Silva supera 50%, segundo…
O FGC tem limites práticos
O Fundo Garantidor de Créditos cobre o valor até o teto legal.
Mas não cobre:
- tempo de bloqueio
- liquidez imediata
- custo de oportunidade
- valores fora das regras elegíveis. Até o momento mais de R$35 bilhões ficaram sem cobertura do FGC.
👉 Para que tem cobertura: Você pode recuperar o dinheiro — mas não no tempo que precisa.
O Master foi responsável pelo rombo recorde no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), de quase R$ 52 bilhões, mesmo tendo somente 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional. Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.
LEIA: Estadão pede investigação de ministros do STF e expõe risco institucional…
O risco pode estar onde você não vê
Mesmo sem investir diretamente:
- fundos podem carregar exposição indireta
- estruturas podem diluir risco sem evidência clara
👉 Quando o evento aparece, a saída já não é trivial
O que o caso realmente revela
Não é sobre um nome.
É sobre o funcionamento do sistema:
- supervisão é contínua, não pontual
- risco cresce em camadas, não em eventos isolados
- resposta regulatória nem sempre acompanha a velocidade do problema
A fala do Banco Central resolve o ponto jurídico:
Campos Neto não é formalmente responsabilizado
Mas o evento central permanece:
Um risco relevante ganhou escala dentro de um ambiente regulado, impulsionado por captação agressiva e sem lastro. Alguém deve ter responsabilidade por isso?
E isso tem implicações diretas:
- confiança no sistema
- percepção de risco em bancos médios
- precificação de produtos como CDB
O investidor que olha apenas para “quem errou” perde o ponto principal.
No sistema financeiro:
Orisco não começa quando o problema aparece — começa quando ele ainda parece controlado.
VEJA: Estadão pede investigação de ministros do STF e expõe risco institucional…
Ex-presidente do Banco Central não comparece a CPI
O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não compareceu à audiência da CPI do Crime Organizado nesta quarta-feira, 8. Esta é a terceira ocasião em que o economista deixa de atender aos chamados do colegiado no Senado.
Embora tenha sido formalmente convocado, o que impõe a obrigatoriedade do depoimento, Campos Neto obteve uma decisão favorável do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Por meio de um habeas corpus, o magistrado converteu a presença do ex-dirigente em um ato facultativo.
A defesa de Campos Neto encaminhou um comunicado eletrônico à presidência da comissão justificando a ausência. A postura do economista gerou reações imediatas entre os parlamentares. O senador Fabiano Contarato (PT-ES), que preside a CPI, classificou como “absurda” a prerrogativa concedida pelo STF, que permite ao convocado não apenas faltar, mas também enviar esclarecimentos por escrito.
“Não tem como! Eu acho que o mínimo que deveria ter sido feito era, com todo respeito ao Supremo, uma padronização de procedimentos”, declarou o senador.
A intenção dos congressistas era interrogar Campos Neto sobre o período entre 2019 e 2024, época em que esteve à frente da autoridade monetária nacional. O senador Jaques Wagner (PT-BA), proponente dos primeiros requerimentos, argumenta que o colapso do Banco Master é um ponto central para a investigação. Segundo Wagner, a oitiva visava “coletar informações técnicas e estratégicas” para ajudar no esclarecimento dos episódios e oferecer subsídios para eventuais melhorias na legislação vigente.
SAIBA: Escândalo da BYD volta à tona: promessa de empregos vira nome na lista suja
Contudo, os senadores que reclamaram da ausência de Campos Neto, não fizeram perguntas ao atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que geria a instituição durante o período do escândalo.
O grupo de parlamentares defende que o depoimento é fundamental para compreender se houve negligência ou lacunas na supervisão do sistema bancário que pudessem ter aberto caminho para a infiltração de facções criminosas. No requerimento apresentado pelo senador petista, consta a alegação de que, sob a gestão de Campos Neto, “foram editadas resoluções que, na prática, promoveram uma desregulação do sistema”.
Apesar das sucessivas ausências, o relator da comissão, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), insistiu na necessidade do testemunho. Ao encerrar a sessão da última terça-feira (31) Vieira submeteu um novo pedido de convocação, que recebeu aprovação dos demais membros. De acordo com o relator, o economista seria ouvido na condição de testemunha qualificada, com o objetivo de fornecer dados técnicos e institucionais do Banco Central que são considerados vitais para o avanço das investigações.



