A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central nesta sexta-feira (26) coloca mais uma instituição financeira no centro das investigações do Banco Master, que vêm atingindo parte do mercado de capitais brasileiro. Embora a Sefer Investimentos represente uma parcela mínima do Sistema Financeiro Nacional, sua ligação com a Operação Compliance Zero — investigação da Polícia Federal que apura um suposto esquema bilionário envolvendo estruturas financeiras relacionadas ao Banco Master — amplia significativamente a relevância do caso e levanta novas dúvidas sobre a governança de determinadas operações realizadas nos últimos anos.
Segundo o Banco Central, a medida foi adotada após a constatação de grave deterioração econômico-financeira da instituição e de violações consideradas relevantes à legislação que disciplina o funcionamento das distribuidoras de títulos e valores mobiliários.
Além da liquidação, os bens dos controladores e ex-administradores tornaram-se indisponíveis, enquanto as investigações administrativas continuam para apurar responsabilidades que poderão resultar em sanções e no compartilhamento das conclusões com outros órgãos públicos.
O que significa a liquidação extrajudicial
A liquidação extrajudicial é uma das medidas mais severas previstas na legislação para instituições supervisionadas pelo Banco Central.
Ao contrário de uma recuperação judicial, utilizada por empresas privadas para tentar reorganizar suas finanças, a liquidação encerra as atividades da instituição sob administração de um liquidante nomeado pela própria autoridade monetária.
O objetivo é preservar os ativos remanescentes, identificar credores, proteger investidores e evitar que problemas internos provoquem riscos adicionais ao sistema financeiro.
Durante esse processo, contratos são analisados, obrigações são apuradas e o patrimônio disponível passa a ser administrado conforme as regras previstas na legislação bancária.
Por que o Banco Central decidiu encerrar as atividades da Sefer
Na decisão divulgada nesta sexta-feira, o Banco Central apontou um conjunto de fatores que justificaram a medida.
Entre eles estão:
- comprometimento da situação econômico-financeira;
- graves violações das normas que regulam instituições financeiras;
- irregularidades administrativas;
- necessidade de proteger a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional.
A autarquia informou ainda que continuará investigando o caso para identificar eventuais responsabilidades dos administradores.
Caso sejam encontrados ilícitos administrativos ou penais, as informações poderão ser encaminhadas aos órgãos competentes.
A Sefer tem pouca participação no sistema financeiro
Apesar da gravidade da decisão, o Banco Central destacou que a instituição possui peso reduzido dentro do mercado financeiro brasileiro.
Segundo a autarquia:
- representa menos de 0,0004% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional;
- administra aproximadamente 0,17% dos recursos de terceiros;
- está enquadrada no segmento S4, reservado para instituições de menor porte.
Isso reduz o risco de impacto sistêmico imediato, embora o caso possua elevada relevância regulatória.
MAIS INFORMAÇÃO:
Quem é a Sefer Investimentos
Fundada em 1994, a Sefer Investimentos atua como distribuidora de títulos e valores mobiliários.
Entre seus principais serviços estão:
- administração fiduciária de fundos;
- custódia de ativos;
- distribuição de investimentos;
- gestão de recursos.
Em seu material institucional divulgado antes da liquidação, a empresa afirmava possuir mais de três décadas de atuação e administrar aproximadamente US$ 22 bilhões em ativos, valor equivalente a cerca de R$ 114 bilhões.
Também integrava a ANBIMA desde 2005, embora já tivesse sido alvo de procedimento de apuração de irregularidades encerrado em 2017.
Até a publicação desta reportagem, a instituição não havia se manifestado sobre a decisão do Banco Central.
A ligação com a Operação Compliance Zero
A liquidação ocorre poucos meses após a Sefer aparecer entre os principais alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro deste ano.
A investigação apura um suposto esquema bilionário envolvendo fundos de investimento, administradoras e corretoras que teriam realizado operações relacionadas ao Banco Master.
O caso tramita no Supremo Tribunal Federal.
Na época da operação, todos os investigados negaram irregularidades.
A Sefer afirmou que atua exclusivamente na administração e gestão de recursos de terceiros e declarou não ter praticado qualquer ato ilícito.
É importante destacar que a existência das investigações não significa condenação. Os procedimentos continuam em andamento e todos os envolvidos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.

A cronologia do caso
A sequência dos acontecimentos ajuda a compreender a dimensão do episódio:
- Janeiro de 2026: a Polícia Federal deflagra a segunda fase da Operação Compliance Zero;
- a Sefer figura entre os alvos da investigação;
- o inquérito passa a tramitar sob supervisão do STF;
- paralelamente, o Banco Central aprofunda a fiscalização sobre a instituição;
- 26 de junho de 2026: o BC decreta oficialmente a liquidação extrajudicial da empresa.
Embora o Banco Central não atribua a liquidação exclusivamente à investigação criminal, a proximidade temporal entre os fatos aumenta a atenção do mercado sobre o caso.
Outro episódio chamou atenção: Grupo Fictor
Antes da liquidação, a Sefer também apareceu no pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor.
Na documentação apresentada à Justiça, o conglomerado informou possuir aproximadamente R$ 430 milhões em obrigações relacionadas à corretora.
A Sefer contestou oficialmente essa informação, afirmando que não era credora do grupo.
O episódio ilustra como a instituição vinha aparecendo em diferentes operações financeiras relevantes antes da intervenção do Banco Central.
O que acontece agora
Com a liquidação:
- um liquidante nomeado pelo Banco Central assume a administração da instituição;
- será realizado o levantamento completo de ativos e passivos;
- credores deverão habilitar seus créditos conforme o cronograma oficial;
- as investigações administrativas continuam;
- eventuais ilícitos poderão ser encaminhados ao Ministério Público e demais autoridades competentes.
Processos dessa natureza costumam durar meses ou até anos, dependendo da complexidade patrimonial da instituição.
O que esse caso sinaliza para o mercado financeiro
A liquidação da Sefer reforça uma tendência observada nos últimos anos: o aumento da atuação do Banco Central sobre instituições financeiras que apresentem fragilidade patrimonial, problemas de governança ou indícios de descumprimento das normas prudenciais.
Ainda que a empresa represente uma parcela muito pequena do sistema financeiro, a combinação entre intervenção regulatória e investigação criminal amplia o interesse do mercado, sobretudo pela conexão com operações envolvendo o Banco Master.
Para investidores e gestores, o episódio evidencia a importância da transparência, da governança e do cumprimento das exigências regulatórias em um ambiente de fiscalização cada vez mais rigoroso.
A continuidade das investigações deverá esclarecer se as irregularidades apontadas possuem alcance restrito à instituição ou se fazem parte de um contexto mais amplo envolvendo outras operações do mercado financeiro.








