Na terça-feira, 7 de julho, a aeronave da CBF que trouxe a delegação brasileira de volta de Nova Jersey pousou no Rio de Janeiro com um único jogador a bordo: Danilo. Ao lado dele, o quarto goleiro convocado Léo Nannetti, dirigentes, comissão técnica e funcionários de apoio — Carlo Ancelotti já havia embarcado direto para Vancouver, e os demais atletas seguiram para férias por conta própria. A cena, símbolo do fim precoce de uma Copa, também expõe um problema mais estrutural: uma confederação privada bilionária que opera, na prática, em sociedade com o instituto de educação de um ministro do Supremo Tribunal Federal — via um contrato de dez anos que só termina em 2033.
O contrato que poucos leram até o fim
Em 16 de agosto de 2023, a CBF, então presidida por Ednaldo Rodrigues, assinou parceria com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) — fundado por Gilmar Mendes e hoje dirigido por seu filho, Francisco Schertel Mendes, que assinou o acordo pela instituição. O objeto é a gestão da CBF Academy, braço de cursos de capacitação e certificação da confederação.
As condições financeiras raramente aparecem com números na cobertura diária: o IDP fica com 84% da receita bruta gerada pelos cursos, e a CBF, dona da marca e da estrutura, com os 16% restantes. Em 2023, a CBF Academy faturou R$ 9,2 milhões — o equivalente a cerca de R$ 7,7 milhões destinados ao instituto da família Mendes só naquele ano. Em 2024, a receita caiu para R$ 5,9 milhões. Os números de 2025 nunca foram divulgados publicamente.
Dois pontos do contrato raramente entram no debate público, mas deveriam: a vigência é de dez anos, até 2033, e a multa por rescisão sem justa causa é calculada sobre 20% da receita do ano anterior multiplicada pelos meses restantes até o fim do prazo — uma cláusula que torna qualquer tentativa de desfazer a parceria extremamente cara para a CBF, independentemente de quem esteja no comando da entidade.
Isso responde a uma pergunta que o leitor médio provavelmente já se fez, mas raramente vê respondida: mesmo que a diretoria atual quisesse romper com o IDP amanhã, o preço dessa saída já foi fixado em contrato — e é alto.
A rede que não aparece em nenhum organograma oficial
A segunda lacuna é sobre poder de fato. Francisco Mendes não ocupa hoje nenhum cargo executivo formal na CBF nacional. Seus títulos oficiais são outros: diretor-geral do IDP, vice-presidente da Federação de Futebol do Mato Grosso — eleito em dezembro de 2025, com apoio identificado da estrutura da CBF e do presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportivo — e o único brasileiro entre os 16 membros da Comissão de Disciplina da FIFA.
A ausência de um título formal na cúpula da CBF é justamente o que torna relevante a reportagem da revista Piauí: segundo a publicação, ao menos seis diretores da confederação têm vínculo direto com o IDP ou foram indicados por Gilmar Mendes, incluindo o então assessor especial de Ednaldo Rodrigues, o diretor jurídico e o diretor financeiro da entidade. A influência não passa por um assento em conselho — passa por nomeações em posições-chave, sustentadas por um contrato de dez anos que garante presença institucional prolongada.
Soma-se a isso o relato, atribuído ao colunista Lauro Jardim, de que Francisco Mendes atuou nos bastidores como uma espécie de comandante informal da CBF durante o próprio Mundial de 2026 — telefonando a presidentes de clubes e articulando posições da confederação em disputas regulatórias, sem que esses movimentos apareçam em ata oficial.
Pano de fundo: uma questão constitucional em aberto
Juristas como Sidney Stahl já levantaram, publicamente, uma leitura constitucional incômoda: o artigo 95, parágrafo único, inciso I, da Constituição veda a magistrados exercer qualquer outra função além do magistério — o que incluiria negociar ou se beneficiar de contratos comerciais. A tese não é unânime nem foi testada em julgamento formal, mas dá contorno jurídico a uma pergunta que até aqui ficou no campo da indignação: por que um ministro cujo instituto tem contrato milionário com a CBF continuou relatando e decidindo processos que envolviam diretamente a presidência dessa mesma entidade?
Gilmar Mendes já respondeu a isso publicamente mais de uma vez, sustentando que se trata de um contrato de direito privado conduzido pela direção do IDP e que não haveria conflito de interesses. É importante registrar essa posição — a controvérsia, neste momento, é jurídica e política, não uma condenação estabelecida.
Gilmar Mendes tenta exaltar Copa do Mundo do Brasil da CBF com pior resultado de mais de 30 anos e leva checagem, veja abaixo:


Pano de fundo: pedidos que ainda não tiveram resposta
No Congresso, dois movimentos formais permanecem em aberto e raramente são atualizados pela imprensa esportiva: o requerimento do senador Eduardo Girão pedindo explicações sobre a relação CBF-IDP, e o pedido de CPI protocolado na Câmara pelo deputado coronel Meira, com apoio de parlamentares como o sargento Gonçalves. Até a publicação deste texto, nenhum dos dois avançou para uma fase de resposta pública consolidada — uma lacuna de cobertura relevante: passado mais de um ano dos primeiros pedidos, ainda não se sabe se essas iniciativas seguem vivas ou morreram silenciosamente nas comissões.
Voltando ao avião vazio
Nenhum desses fatos explica, isoladamente, os dois gols de Haaland ou o pênalti perdido por Bruno Guimarães. Mas ajudam a explicar por que a CBF trocou de presidente três vezes durante o ciclo de preparação para a Copa, e por que a cobrança pública recai, cada vez mais, não só sobre o campo, mas sobre quem administra a entidade por trás dele.
O avião que pousou quase vazio no Rio de Janeiro carregava, além de Danilo, uma pergunta que a torcida brasileira ainda não teve resposta completa: quem, de fato, está no comando da CBF — e a quem essa pessoa presta contas.



