Ações da Nu Holdings chegaram a cair 9% após relatos de conversas preliminares para comprar o banco digital britânico Monzo, avaliado em até £10 bilhões; mercado questiona custo, execução e mudança de estratégia
As ações do Nubank despencaram em Nova York nesta segunda-feira (28), após relatos de que a instituição brasileira estaria em conversas preliminares para uma possível aquisição do banco digital britânico Monzo. Os papéis da Nu Holdings chegaram a recuar 9% durante o pregão e encerraram o dia em US$ 12,43, queda de 8,57%.
O movimento ocorreu depois de reportagens da imprensa internacional apontarem que o Monzo poderia ser avaliado entre £8 bilhões e £10 bilhões em uma eventual operação. O Nubank, procurado sobre o assunto, afirmou que não comenta rumores ou especulações.
O episódio coloca no centro da discussão não apenas o preço potencial da operação, mas uma questão maior: uma aquisição desse tamanho representaria uma mudança relevante na estratégia internacional do Nubank, que até agora priorizou o crescimento orgânico em mercados como México e Estados Unidos.
O que aconteceu
Segundo o Sky News, o Monzo teria sido abordado sobre uma possível combinação de negócios com o Nubank. A reportagem afirmou que as conversas estariam em estágio relativamente inicial.
A Bloomberg também informou que as empresas mantiveram conversas sobre uma possível aquisição e que a operação poderia avaliar o banco britânico entre £8 bilhões e £10 bilhões. Segundo a publicação, o Monzo também estaria em conversas preliminares com a Advent International para uma eventual participação minoritária.
O Monzo contratou o Morgan Stanley e a Qatalyst para assessorá-lo na avaliação de alternativas estratégicas, que podem envolver uma venda integral, uma nova rodada de captação ou a venda de uma participação minoritária.
Portanto, não há, até o momento, anúncio de aquisição concluída pelo Nubank.
Por que o mercado reagiu mal
A reação negativa está relacionada principalmente às dimensões e ao momento potencial da operação.
Analistas do JPMorgan apontaram que, caso as negociações sejam confirmadas, a reação inicial dos investidores poderia ser negativa por fatores como o valuation atribuído ao Monzo, o momento da eventual transação e uma possível mudança no modelo de expansão do Nubank.
A avaliação do banco britânico entre £8 bilhões e £10 bilhões representaria um desembolso potencial expressivo para o Nubank. Além disso, a operação poderia alterar uma estratégia internacional construída até aqui com expansão orgânica.
Outro fator destacado por analistas é o risco de execução.
Uma aquisição internacional de grande porte exige integração tecnológica, operacional, regulatória e cultural. No caso do Nubank, esse desafio ocorreria simultaneamente à expansão da companhia em outros mercados.
O movimento representa uma mudança de estratégia
O Nubank construiu sua expansão internacional principalmente pela entrada gradual em novos mercados e pela construção orgânica de sua base de clientes.
A eventual aquisição do Monzo seria diferente.
Em vez de construir uma operação no Reino Unido desde o início, o Nubank passaria a incorporar uma instituição já estabelecida, com marca, clientes, depósitos, estrutura operacional e presença regulatória.
A Bloomberg classificou a possível operação como a aquisição mais ambiciosa do Nubank até agora e apontou que ela representaria uma mudança significativa em relação ao modelo adotado pela companhia em mercados como Estados Unidos e México.
Esse é um dos elementos centrais da reação dos investidores: o mercado não está avaliando apenas uma compra, mas a possibilidade de uma mudança no caminho utilizado pelo Nubank para crescer internacionalmente.
O que o Monzo acrescentaria ao Nubank
O banco digital britânico possui escala relevante, uma ampla base de clientes, depósitos e uma marca consolidada no mercado do Reino Unido.
Uma aquisição permitiria ao Nubank entrar imediatamente em um mercado europeu competitivo, em vez de começar a construir uma operação do zero.
Analistas do JPMorgan destacaram justamente esses ativos como potenciais vantagens estratégicas do Monzo, além da possibilidade de acelerar a expansão internacional do Nubank no Reino Unido.
A Axios também apontou que uma eventual aquisição proporcionaria ao Nubank uma plataforma bancária já estabelecida no Reino Unido e uma possível porta de entrada para a expansão europeia.
O problema: Nubank e Monzo têm modelos diferentes
A operação também traz uma questão de integração de negócios.
Segundo analistas do UBS BB citados pela Reuters, o modelo do Monzo apresenta diferenças em relação ao Nubank: o banco britânico possui menor foco em crédito e maior orientação para serviços de carteira digital.
Isso significa que uma eventual aquisição não seria simplesmente a incorporação de uma empresa com exatamente o mesmo modelo de negócio.
Seria necessário integrar estruturas e estratégias diferentes.
O UBS BB também apontou o risco de execução como um fator importante, especialmente diante dos esforços do Nubank para ampliar sua operação nos Estados Unidos.
O mercado já vinha pressionando as ações
A queda desta segunda-feira não ocorreu em um papel que vinha de uma trajetória de alta recente.
Os dados históricos mostram que as ações da Nu Holdings haviam encerrado o pregão anterior a US$ 13,59 e chegaram a US$ 12,35 durante a sessão desta segunda-feira. O fechamento em US$ 12,43 representou perda diária de 8,57%.
Com isso, o rumor sobre o Monzo adicionou uma nova variável à avaliação dos investidores justamente em um momento em que a ação já vinha negociando em níveis mais baixos.
EUA, México e agora Reino Unido
O momento da possível negociação também chama atenção.
O Nubank vem ampliando sua atuação internacional. Nos Estados Unidos, a companhia iniciou recentemente a oferta de produtos bancários por meio de uma parceria e recebeu anteriormente aprovação condicional para sua própria licença bancária.
No México, a companhia passou a operar como banco completo em agosto. Na Colômbia, a instituição já possuía mais de 5 milhões de clientes ao final de junho, segundo informações citadas pela Axios.
Uma eventual aquisição do Monzo acrescentaria uma terceira frente estratégica de grande porte: a entrada direta no Reino Unido e, potencialmente, uma plataforma para expansão na Europa.
O que ninguém comenta
O ponto menos evidente da operação está justamente na diferença entre crescer construindo e crescer comprando.
A expansão orgânica permite que a instituição controle gradualmente investimentos, tecnologia, estrutura e aquisição de clientes.
Uma aquisição acelera o acesso ao mercado, mas transfere para o comprador uma série de riscos já existentes no ativo adquirido.
No caso do Monzo, a eventual compra envolveria ainda uma instituição inserida em um ambiente regulatório diferente do brasileiro e em um mercado no qual o Nubank ainda não possui operação estabelecida.
Por isso, o preço da operação não seria o único número relevante para os investidores.
O custo de integração e a capacidade de transformar a aquisição em crescimento adicional também seriam determinantes para o resultado econômico da transação.
Desenrola 3.0 também entrou no radar
A queda das ações ocorreu no mesmo dia em que o mercado repercutiu o anúncio do governo federal sobre o Desenrola Brasil 3.0.
O programa pretende permitir a renegociação de dívidas em atraso entre dois e quatro anos e meio.
Segundo analistas do UBS BB citados pela Reuters, o programa pode beneficiar bancos no curto prazo porque permite a monetização de carteiras de crédito já baixadas como prejuízo.
Ao mesmo tempo, os analistas alertaram para possíveis efeitos de longo prazo de programas recorrentes de renegociação e refinanciamento.
Esse fator, porém, aparece como elemento secundário diante do impacto provocado pelas notícias sobre o Monzo.
Contraponto: a aquisição também poderia acelerar a expansão
A reação negativa das ações não significa que uma eventual aquisição necessariamente destruiria valor.
O outro lado da equação é o ganho de escala.
O Monzo ofereceria ao Nubank uma operação já estabelecida no Reino Unido, uma base de clientes, depósitos, marca e infraestrutura para entrar em um mercado no qual ainda não possui presença relevante.
Analistas do UBS BB consideraram que uma eventual transação seria compatível com a estratégia de expansão global da companhia e poderia representar uma porta de entrada para o Reino Unido e a Europa.
O ponto central, portanto, não está apenas na existência do ativo, mas no preço pago, na forma de financiamento e na capacidade de integração.
O que está confirmado
Até o momento, os fatos públicos são:
- existem relatos de conversas preliminares entre Nubank e Monzo;
- o Monzo estaria avaliando alternativas estratégicas;
- o banco britânico teria contratado Morgan Stanley e Qatalyst para assessorá-lo;
- o valor potencial citado para o Monzo está entre £8 bilhões e £10 bilhões;
- o Nubank não confirmou a operação;
- as ações da Nu Holdings chegaram a cair 9% em Nova York;
- os papéis terminaram o pregão em US$ 12,43, queda de 8,57%.
A reação das ações mostra que uma possível aquisição do Monzo já é relevante para o mercado antes mesmo de existir um acordo.
O motivo está no tamanho potencial da operação e, principalmente, no que ela representaria para a estratégia do Nubank.
A companhia deixaria de depender exclusivamente da construção orgânica de novas operações para utilizar uma aquisição de grande porte como instrumento de expansão internacional.
O Monzo poderia oferecer acesso imediato ao Reino Unido e uma plataforma para a Europa. Em contrapartida, uma operação dessa dimensão envolveria preço elevado, integração de modelos diferentes, riscos regulatórios e execução simultânea com a expansão do Nubank em outros mercados.
Por enquanto, porém, a operação permanece no campo das negociações preliminares. A queda das ações reflete a avaliação dos investidores sobre a possibilidade, não um negócio já fechado.



