Magalu (MGLU3) quer ganhar dinheiro com o delivery de comida, Mercado Livre e aiqfome viram parceiros

INVESTIDORES BRASIL

Enquanto o e-commerce recua e a companhia volta ao prejuízo, Magazine Luiza coloca o aiqfome dentro do seu aplicativo e abre seus produtos no Mercado Livre; por trás da disputa com o iFood está uma tentativa de transformar ativos já existentes em novas fontes de receita e frequência

O Magazine Luiza (MGLU3) apresentou o Magalu Delivery como uma expansão de seu ecossistema. A explicação oficial fala em conveniência, integração e aumento da frequência de compras.

Mas existe uma pergunta mais importante para o acionista:

por que o Magazine Luiza está acelerando justamente agora a transformação do delivery em uma peça central de seu aplicativo?

A resposta pode estar menos na guerra contra o iFood e mais no próprio balanço da companhia.

No segundo trimestre de 2026, o Magazine Luiza registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro ajustado de R$ 1,8 milhão de um ano antes. A receita líquida caiu 2,6%, para R$ 8,9 bilhões, enquanto o e-commerce recuou 11,9%.

Ao mesmo tempo, o Magalu lançou o Magalu Delivery e fechou uma parceria para colocar cerca de 27 mil produtos de estoque próprio no Mercado Livre.

Não são necessariamente duas notícias separadas.

Juntas, elas revelam uma empresa tentando encontrar novas maneiras de monetizar sua estrutura em um ambiente no qual simplesmente vender mais pelo canal digital próprio deixou de ser suficiente.

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O Magalu já comprou a infraestrutura. Agora quer monetizá-la

O detalhe mais importante do Magalu Delivery é que a companhia não está começando do zero.

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O grupo comprou o aiqfome em 2020. A plataforma já possui tecnologia, estabelecimentos, conhecimento operacional e presença regional.

Agora, seis anos depois, o Magazine Luiza colocou essa operação dentro de seu próprio aplicativo.

O serviço oferece refeições, mercado, farmácia e conveniência e já estava disponível em mais de 400 cidades de Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Com a integração a plataformas regionais, a estrutura tem capacidade potencial de chegar a 1.170 cidades.

É aqui que a história muda.

O Magalu não precisa necessariamente construir uma operação nacional de delivery para disputar espaço com o iFood.

Ele já possui uma plataforma adquirida, uma rede de parceiros e tecnologia desenvolvida para esse mercado.

O que faltava era colocar essa infraestrutura diante de uma base muito maior de consumidores.

É exatamente isso que o aplicativo Magalu oferece.

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A aposta não é apenas vender comida

Uma compra de eletrodomésticos pode acontecer poucas vezes por ano.

Um pedido de comida pode acontecer várias vezes por semana.

Supermercado, farmácia e conveniência também têm frequência muito maior.

Essa diferença é fundamental.

O Magalu precisa fazer seu aplicativo ser aberto mais vezes.

Quanto maior a frequência, maior a quantidade de oportunidades para vender outros produtos e serviços.

Por isso, o delivery pode ter valor econômico mesmo que sua margem direta não seja extraordinária.

O verdadeiro ativo pode ser a frequência.

A própria companhia afirmou que espera aumentar a frequência de compras e o tempo de permanência dos usuários no aplicativo com o novo serviço.

Mas há uma diferença entre repetir essa declaração e entender o que ela significa financeiramente.

Se o delivery trouxer usuários ao aplicativo com maior frequência, o Magalu passa a ter mais oportunidades de vender produtos de maior tíquete, serviços financeiros e outros itens do seu ecossistema.

O pedido de comida pode, portanto, ser apenas a porta de entrada.

O aiqfome pode ser uma máquina de monetização de um ativo que já estava no balanço

Essa é uma das partes menos óbvias da operação.

O Magalu comprou o aiqfome há seis anos.

Durante esse período, a plataforma permaneceu como uma operação própria, mas separada da experiência principal do consumidor do Magazine Luiza.

Agora, a companhia está tentando mudar essa equação.

Em vez de o aiqfome ser apenas um negócio de delivery dentro do grupo, sua infraestrutura passa a funcionar como uma engrenagem de frequência do aplicativo Magalu.

E isso pode permitir que o grupo extraia mais valor de um ativo que já possui.

A operação também conta com um integrador que conecta diferentes plataformas regionais de delivery. O comerciante consegue administrar cardápio, preços, disponibilidade e pedidos a partir de uma única estrutura.

A coalizão reúne, além do aiqfome e do Magalu Delivery, outras plataformas regionais, ampliando o alcance potencial da rede.

Isso é importante porque o Magalu não está tentando simplesmente comprar mercado de um concorrente dominante.

Está tentando aproveitar um mercado que já existe.

E então aparece o Mercado Livre

No mesmo dia do lançamento do Delivery, o Magazine Luiza anunciou que passaria a vender aproximadamente 27 mil produtos de estoque próprio no marketplace do Mercado Livre.

A operação envolve produtos das marcas Magazine Luiza, KaBuM! e Época Cosméticos.

À primeira vista, parece uma decisão estranha.

Por que uma varejista que possui seu próprio marketplace colocaria seus produtos dentro do maior marketplace do país?

Porque o Magalu parece ter chegado a uma conclusão importante:

não precisa necessariamente possuir todo o tráfego para monetizar seu estoque.

O consumidor já está no Mercado Livre.

Então o produto do Magalu vai até ele.

É uma mudança de filosofia.

Antes:

“Entre no Magalu para comprar do Magalu.”

Agora:

“Se você está em outra plataforma, o Magalu também pode vender para você.”

Frederico Trajano afirmou que a estratégia é somar a audiência dos canais próprios à de outras plataformas relevantes para acelerar as vendas online no curto prazo e de forma rentável.

A estratégia começa a fazer sentido quando o balanço entra na equação

Aqui está o ponto que muda completamente a leitura da notícia.

O e-commerce do Magalu caiu 11,9% no segundo trimestre.

As vendas totais recuaram 5,1%, para R$ 14,5 bilhões.

O prejuízo líquido ajustado foi de R$ 50,4 milhões.

Ao mesmo tempo, o resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 572,3 milhões, segundo dados do balanço.

Portanto, a companhia não está simplesmente procurando uma nova categoria para vender.

Ela precisa encontrar crescimento que seja compatível com rentabilidade.

É nesse contexto que o delivery ganha outra dimensão.

O Magazine Luiza possui uma plataforma de delivery.

Possui uma base digital de cerca de 50 milhões de clientes.

Possui lojas físicas.

Possui logística.

Possui estoque.

Possui marketplace.

E possui serviços financeiros.

A questão passa a ser:

como fazer todos esses ativos produzirem mais receita sem precisar reconstruir cada negócio individualmente?

O modelo que o Magalu está tentando montar

A lógica pode ser resumida assim:

Delivery → frequência

Frequência → mais acessos ao aplicativo

Mais acessos → mais oportunidades de venda

Mercado Livre → audiência adicional

Audiência adicional → mais giro de estoque

Mais pedidos → maior utilização da logística

Mais utilização da infraestrutura → potencial diluição de custos

Isso não significa que todos esses efeitos necessariamente acontecerão.

Significa que essa é a lógica econômica que torna os dois anúncios de 2 de setembro muito mais interessantes quando analisados em conjunto.

O detalhe que impede a história de virar propaganda

Existe, porém, um problema.

O Magalu não divulgou uma projeção de receita ou lucro específica para o Magalu Delivery.

Também não há, até agora, evidência de que o serviço seja grande o suficiente para mudar sozinho o resultado consolidado da companhia.

Portanto, seria errado dizer que o delivery será responsável por tirar a empresa do prejuízo.

O máximo que os dados permitem afirmar neste momento é que ele pode funcionar como uma nova avenida de monetização e frequência.

E essa diferença é fundamental.

O investidor não deveria comprar a tese simplesmente porque a empresa chamou a iniciativa de “ecossistema”.

Deveria acompanhar se ela começa a aparecer nos números.

O que precisa acontecer para a tese funcionar

Há quatro indicadores que passam a ser particularmente importantes.

1. Frequência

O usuário realmente passa a abrir mais vezes o aplicativo Magalu?

2. Monetização

O crescimento dos pedidos gera receita e margem suficientes para justificar a operação?

3. Venda cruzada

Quem entra para pedir comida também compra produtos, serviços ou outros itens do ecossistema?

4. Eficiência

O aumento do volume melhora a utilização da logística e da tecnologia ou simplesmente aumenta custos?

Essas respostas serão muito mais importantes do que o número de cidades alcançadas.

Porque uma operação pode estar presente em 1.170 cidades e ainda assim não produzir retorno econômico relevante.

E existe uma ironia no movimento do Mercado Livre

A parceria com o Mercado Livre também não é uma vitória automática.

Os produtos do Magalu não receberão necessariamente tratamento privilegiado no marketplace. A companhia terá de competir de acordo com critérios como preço, entrega e atendimento.

Ou seja:

o Magalu está entrando no território do seu concorrente para buscar vendas.

Isso pode ampliar o mercado endereçável.

Mas também significa aceitar uma parcela menor de controle sobre a relação com o consumidor.

É uma troca.

A companhia abre mão de parte da exclusividade do canal para ganhar acesso a uma audiência que já está formada.

Para uma empresa que viu seu e-commerce recuar quase 12% no segundo trimestre, essa troca pode fazer sentido.

O verdadeiro teste será o lucro, não o número de usuários

É fácil criar uma narrativa de superapp.

Mais difícil é fazer essa estrutura gerar retorno.

O Magazine Luiza terminou o segundo trimestre com R$ 5,8 bilhões em caixa total, enquanto a dívida líquida estava em R$ 3,18 bilhões. O problema, portanto, não é simplesmente falta de ativos ou ausência de escala. É fazer a estrutura produzir resultado em um ambiente de juros elevados e consumo pressionado.

É por isso que o Magalu Delivery merece ser observado por outro ângulo.

O delivery não precisa derrotar o iFood para ser importante para MGLU3.

Ele precisa fazer algo mais simples:

gerar frequência suficiente para aumentar a monetização do ecossistema e ajudar a transformar ativos existentes em receita recorrente.

Se conseguir, a companhia terá encontrado uma forma de extrair mais valor de uma aquisição realizada há seis anos.

Se não conseguir, terá apenas acrescentado mais uma operação a uma estrutura que já precisa melhorar sua rentabilidade.

O que o Magalu realmente está tentando fazer

O movimento de 2 de setembro pode ser resumido em uma frase:

o Magazine Luiza está tentando parar de depender de um único caminho para chegar ao consumidor.

Seu estoque pode chegar ao cliente pelo Mercado Livre.

Seu aplicativo pode trazer o cliente por meio do delivery.

O aiqfome fornece a infraestrutura.

A rede regional amplia o alcance.

A Magalog movimenta os pedidos.

As lojas físicas permanecem como ativos de distribuição.

E o ecossistema passa a ter mais oportunidades de gerar receita a partir do mesmo cliente.

Essa é a parte que merece atenção.

Não é simplesmente o Magalu entrando na guerra do iFood.

É uma varejista que voltou ao prejuízo, viu o e-commerce encolher 11,9% e agora está tentando fazer com que ativos que já possui — inclusive uma plataforma de delivery comprada há seis anos — trabalhem mais vezes e por mais canais.

A pergunta para MGLU3, portanto, não é se o Magalu conseguirá vencer o iFood.

É se o delivery conseguirá ajudar o Magalu a transformar frequência em margem.

Essa resposta ainda não está no anúncio.

Vai aparecer no balanço.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
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