
Magazine Luiza sai de lucro para prejuízo, vê o comércio eletrônico despencar e enfrenta R$ 572,3 milhões de resultado financeiro negativo; enquanto isso, a presidente do conselho da companhia participa do principal colegiado empresarial do governo Lula
O Magazine Luiza (MGLU3) chegou a um daqueles momentos em que o balanço deixa de ser apenas uma coleção de números e passa a revelar o custo de um ambiente econômico inteiro.
No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro ajustado de R$ 1,8 milhão obtido um ano antes.
No resultado contábil, o prejuízo foi ainda maior: R$ 72,5 milhões, contra uma perda de R$ 24,4 milhões no segundo trimestre de 2025.
A receita líquida caiu 2,6%, para R$ 8,9 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado recuou 2,5%, para R$ 708,8 milhões. As vendas totais chegaram a R$ 14,5 bilhões, mas recuaram 5,1% em relação ao ano anterior.
Até aqui, seria apenas mais um balanço fraco.
Mas existe uma segunda camada nessa história.
O Magazine Luiza está sendo atingido por um ambiente de juros elevados que encarece o crédito, aumenta o custo financeiro das empresas e reduz a capacidade de consumo das famílias.
E sua presidente do Conselho de Administração, Luiza Helena Trajano, ocupa simultaneamente uma posição institucional no governo Lula: ela integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável, o chamado Conselhão, desde 2023.
Não existe evidência para afirmar que a participação de Trajano no Conselhão causou o prejuízo do Magalu.
Mas existe uma pergunta econômica legítima que não pode ser escondida:
quando o varejo paga a conta dos juros elevados, quem está ganhando e quem está perdendo?
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A conta começa nos juros
O Brasil continua convivendo com uma taxa básica de juros extraordinariamente elevada.
A Selic está em 14% ao ano, enquanto a estrutura da dívida pública também se tornou mais sensível às taxas de juros. Em agosto, o Tesouro Nacional elevou para 53% a previsão da parcela da dívida federal vinculada a taxas flutuantes em 2026. A dívida bruta do governo geral havia chegado a 81,9% do PIB.
Esse ambiente não fica restrito ao mercado financeiro.
Ele atravessa a economia inteira.
O governo precisa financiar sua dívida.
Os bancos precificam o crédito considerando o custo do dinheiro e o risco.
As empresas pagam mais para captar.
O consumidor paga mais para financiar.
E o varejista encontra um cliente com menos capacidade de assumir novas parcelas.
É uma cadeia.
Juros altos → crédito mais caro → famílias mais endividadas → consumo pressionado → varejo vende menos → empresas pagam mais despesas financeiras → lucro diminui.
O Magazine Luiza está no final dessa cadeia.
O número que explica o prejuízo está no resultado financeiro
Um dos números mais importantes do balanço não é a receita.
É o resultado financeiro.
O Magazine Luiza registrou resultado financeiro líquido ajustado negativo de R$ 572,3 milhões no segundo trimestre.
A cifra representa uma piora de aproximadamente 15,5% em relação ao mesmo período anterior.
A própria administração atribuiu parte relevante da pressão ao ambiente de juros. O diretor financeiro Roberto Bellissimo afirmou que o resultado líquido do trimestre foi muito influenciado pela taxa de juros elevada e pelo impacto sobre as despesas financeiras.
Isso muda a leitura do balanço.
O problema não está somente na capacidade de vender produtos.
A empresa vende bilhões, produz EBITDA e ainda assim vê o custo financeiro consumir uma parcela enorme do resultado.
É exatamente por isso que o investidor iniciante precisa parar de olhar apenas faturamento.
Uma empresa pode vender mais e ganhar menos.
Pode crescer receita e destruir margem.
Pode apresentar EBITDA positivo e terminar o trimestre no prejuízo.
E pode ter uma operação operacionalmente eficiente enquanto o dinheiro caro transforma o resultado final.
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O comércio eletrônico também acendeu o alerta
O segundo problema aparece dentro da própria operação.
As lojas físicas do Magalu cresceram 10,3% no trimestre.
Mas o comércio eletrônico recuou 11,9%.
A diferença é grande.
A companhia afirma que a queda nas vendas online está relacionada à sua disciplina comercial e ao foco na rentabilidade, inclusive diante do aumento dos custos de componentes como chips de memória.
Essa explicação é importante, mas não elimina o problema.
O Magalu precisa provar que consegue proteger margem sem perder participação de mercado.
Porque reduzir vendas para preservar margem pode fazer sentido em determinadas categorias.
Mas, se a redução de volume se prolongar, a estratégia passa a exigir uma resposta para uma pergunta mais difícil:
quanto tempo uma varejista consegue trocar crescimento por rentabilidade sem perder relevância competitiva?
E o consumidor também está pagando
Existe uma dimensão da história que normalmente desaparece quando o balanço é apresentado.
O consumidor.
Juros altos não significam apenas dinheiro mais caro para empresas.
Eles aparecem no cartão, no financiamento, no crédito pessoal e nas compras parceladas.
E isso atinge justamente o modelo de consumo que sustenta boa parte do varejo brasileiro.
Dados divulgados em agosto mostram que o varejo brasileiro fechou 7.896 postos formais de trabalho nos primeiros sete meses de 2026.
O ministro interino do Trabalho, Chico Macena, apontou as taxas elevadas de juros como um dos fatores que restringem crédito e investimentos no setor, além do avanço das vendas online.
Portanto, a pressão não está restrita ao Magalu.
Ela aparece no emprego.
No crédito.
No consumo.
Na margem das empresas.
E, finalmente, no lucro do acionista.
Quem ganha com esse cenário?
É aqui que a discussão fica mais interessante.
Nem todo mundo perde com juros altos.
Quem possui dinheiro aplicado em ativos remunerados por taxas elevadas encontra uma vantagem que não existe para quem precisa tomar crédito.
Bancos e instituições financeiras também podem se beneficiar de spreads e receitas relacionadas à intermediação financeira, embora enfrentem simultaneamente maior risco de inadimplência.
O próprio setor financeiro do Magalu é uma demonstração dessa dualidade.
A Luizacred apresentou lucro líquido de R$ 135,3 milhões no segundo trimestre, enquanto a carteira de cartões chegou a R$ 20,2 bilhões.
Ou seja:
o mesmo ambiente que aperta o varejo pode produzir receita financeira dentro do ecossistema da companhia.
É uma das contradições mais importantes do balanço.
E quem perde?
A lista é maior.
1. O consumidor endividado
Paga mais juros e precisa comprometer uma parcela maior da renda para adquirir o mesmo produto.
2. O varejista dependente de crédito
Enfrenta custo financeiro maior justamente quando o cliente está mais cauteloso.
3. O pequeno comerciante
Tem menos acesso a crédito barato e menor capacidade de absorver aumento de custos.
4. O trabalhador do varejo
Quando vendas e investimentos desaceleram, a contratação também sofre.
5. O acionista
É quem recebe a consequência final quando a empresa transforma uma operação de bilhões em prejuízo líquido.
E existe ainda uma sexta categoria:
6. O próprio governo
Juros elevados aumentam o custo de carregamento de uma dívida pública enorme.
É por isso que a discussão sobre juros não pode ser reduzida a “Banco Central contra governo”.
Existe uma equação fiscal por trás.
Quanto maior o risco percebido sobre a trajetória das contas públicas, maior tende a ser a exigência de remuneração dos investidores para financiar o Estado.
E quanto maior o custo do dinheiro, maior é a pressão sobre toda a economia.
Onde Luiza Trajano entra nessa história?
Aqui está a parte politicamente sensível — e que precisa ser tratada com precisão.
Luiza Trajano não é ministra da Fazenda.
Não define a Selic.
Não comanda o Banco Central.
E não existe evidência de que sua participação no Conselhão tenha produzido o prejuízo do Magazine Luiza.
Mas ela também não é uma empresária completamente distante do debate econômico do governo.
Trajano integra o Conselhão do governo Lula, órgão criado para reunir empresários, representantes da sociedade civil e outros setores na discussão de políticas públicas e desenvolvimento econômico.
Ao mesmo tempo, ela é presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza.
E agora existe uma coincidência econômica impossível de ignorar:
a empresa que ela ajuda a comandar está sentindo diretamente o peso de um ambiente de juros elevados.
Mais do que isso: a própria Trajano declarou recentemente que os juros atrapalham o varejo e associou parte das dificuldades do setor às taxas elevadas.
Portanto, a discussão não deveria ser transformada em ataque pessoal.
Ela deveria ser transformada em uma pergunta econômica.
Se os juros são ruins para o varejo, quais condições econômicas precisam mudar para que empresas como o Magalu recuperem rentabilidade?

O ponto que o mercado não pode ignorar
Há uma diferença enorme entre culpar o governo por um prejuízo específico e analisar o impacto de suas escolhas econômicas sobre as empresas.
A primeira afirmação exigiria prova de causalidade.
A segunda pode ser medida.
E os números já mostram parte dessa transmissão.
O Magalu terminou o trimestre com R$ 5,8 bilhões em caixa total e gerou aproximadamente R$ 259 milhões de caixa operacional no período.
Portanto, não estamos falando de uma empresa sem liquidez ou à beira de desaparecer.
Estamos falando de uma companhia de grande escala que continua operacionalmente relevante, mas que precisa transformar essa escala novamente em lucro.
Essa distinção é fundamental.
O problema do Magalu hoje não é simplesmente “falta de vendas”.
É a combinação de:
consumo mais pressionado + comércio eletrônico em queda + competição intensa + custo financeiro elevado + necessidade de preservar margens.
O que pode mudar esse jogo?
O próprio Magalu aposta em quatro frentes:
multicanalidade, serviços financeiros, inteligência artificial e grandes datas do varejo no segundo semestre.
A empresa pretende usar sua estrutura física, digital e financeira para recuperar rentabilidade.
Mas existe uma variável que não está totalmente nas mãos da administração:
o custo do dinheiro.
Se os juros começarem a cair de maneira consistente, há potencial para aliviar simultaneamente o consumidor, o crédito e o custo financeiro das empresas.
Se permanecerem elevados por mais tempo, o varejo continuará tendo de operar em um ambiente no qual vender não necessariamente significa ganhar dinheiro.
E esse é o verdadeiro teste para o Magalu.
A conta final chega em três lugares
O balanço do Magazine Luiza permite enxergar uma cadeia que vai muito além da empresa.
O governo precisa financiar sua dívida.
O mercado exige remuneração elevada para financiar esse risco.
Os juros permanecem altos.
O crédito fica caro.
O consumidor reduz ou posterga compras.
O varejo sofre.
A despesa financeira aumenta.
O lucro desaparece.
E, no final da cadeia, alguém precisa absorver a conta.
Parte dela chega ao consumidor.
Parte chega às empresas.
Parte chega aos trabalhadores.
E parte chega ao acionista.
Enquanto isso, quem possui dinheiro aplicado em ativos remunerados por juros elevados pode estar em uma posição muito diferente.
É por isso que a pergunta mais importante diante do prejuízo do Magazine Luiza não é simplesmente “o Magalu está em crise?”
Os números mostram uma empresa pressionada, mas ainda com escala, caixa e geração operacional de recursos.
A pergunta mais importante é outra:
quanto do problema é operacional e quanto é o preço que o varejo brasileiro está pagando por um ambiente de crédito caro e juros elevados?
E existe uma segunda pergunta, ainda mais incômoda:
quando a própria presidente do conselho de uma grande varejista participa do Conselhão do governo e reconhece que os juros prejudicam o varejo, quem está efetivamente conseguindo se proteger — e quem está ficando com a conta?
O próximo balanço começará a responder.
Não com discurso.
Com margem, caixa, dívida, vendas e lucro.
Esse é o enquadramento que eu publicaria: não transforma Luiza Trajano em responsável pelo prejuízo — o que seria uma afirmação sem prova —, mas também não esconde o fato politicamente relevante de sua participação no Conselhão. E coloca no centro aquilo que realmente interessa ao leitor de finanças: a transmissão dos juros para o consumidor, para o varejo e para o acionista.