O Habib’s entrou em recuperação judicial, mas o alerta é para o bolso do brasileiro: quando até a comida barata pesa no orçamento

Grupo Gennius acumula R$ 265,2 milhões em dívidas e coloca 178 empresas dentro da recuperação judicial; por trás da crise estão juros altos, custos maiores e um consumidor com menos renda disponível — uma combinação que pode ser muito mais perigosa para a economia do que o caso isolado de uma rede de restaurantes.

A recuperação judicial do grupo que controla Habib’s, Ragazzo e Tendall não deveria ser lida apenas como mais um caso de uma empresa que acumulou dívidas.

O Grupo Gennius declarou um passivo de R$ 265,2 milhões e levou para a Justiça um processo que reúne 178 empresas e dois produtores rurais. O pedido foi aceito pela Justiça de São Paulo em 25 de agosto.

O fato chama atenção pelo tamanho da dívida. Mas existe uma pergunta muito mais importante escondida por trás dela:

o que está acontecendo com o bolso do brasileiro quando até uma das marcas mais conhecidas de alimentação popular precisa recorrer à recuperação judicial?

A resposta não está apenas no delivery.

Também não está apenas no home office.

E seria simplista atribuir a crise à pandemia.

O que o caso revela é uma combinação potencialmente muito mais perigosa: um consumidor pressionado, empresas enfrentando custos elevados, crédito caro e margens cada vez mais difíceis de preservar.

É uma espécie de tesoura econômica.

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De um lado, o brasileiro precisa controlar despesas porque seu dinheiro disponível não cresce na mesma velocidade de suas obrigações.

Do outro, as empresas precisam lidar com salários, aluguel, energia, logística, fornecedores, tecnologia, impostos, crédito e outros custos.

No meio dessa disputa está o preço.

A empresa precisa cobrar mais para sobreviver, mas o consumidor precisa gastar menos para conseguir sobreviver.

É aí que uma crise empresarial pode se transformar em um sinal econômico.

O Habib’s não é uma história sobre o fim dos restaurantes

O Grupo Gennius atribuiu sua crise a três fatores principais: os efeitos da pandemia, as mudanças no comportamento dos consumidores e a alta dos juros.

Os fatores são reais.

Mas a interpretação exige cuidado.

O trabalho remoto mudou a circulação nas grandes cidades. O delivery ganhou espaço. O consumidor passou a alternar mais entre restaurantes, aplicativos e consumo dentro de casa.

Isso aconteceu no mundo inteiro.

E, evidentemente, não significa que o brasileiro tenha abandonado os restaurantes.

Se tivesse acontecido isso, shopping centers estariam com suas praças de alimentação vazias, restaurantes de rua teriam desaparecido e redes de alimentação de diferentes países estariam enfrentando exatamente o mesmo problema pelo mesmo motivo.

Não é isso que está acontecendo.

O que torna o caso brasileiro particularmente relevante é outra coisa:

quanto dinheiro o consumidor ainda tem depois de pagar todas as contas?

Essa é a pergunta que precisa ser feita.

O problema começa antes do caixa do restaurante

Um consumidor que perde renda disponível não necessariamente deixa de consumir imediatamente.

Primeiro, ele troca.

Troca o restaurante mais caro pelo mais barato.

Troca o prato completo por uma opção promocional.

Diminui a frequência.

Corta sobremesa.

Evita determinados horários.

Pesquisa descontos.

Usa cupons.

Passa a consumir apenas quando existe alguma promoção.

E, quando nem isso resolve, simplesmente deixa de comprar.

O problema é que milhares de decisões individuais produzem um efeito gigantesco quando acontecem simultaneamente.

Para uma empresa de alimentação, não é necessário que o consumidor desapareça.

Basta que ele gaste menos e volte menos vezes.

Uma pequena redução no consumo pode ter um efeito desproporcional sobre uma operação que trabalha com margens apertadas e custos fixos elevados.

É por isso que o caso Habib’s merece ser observado além da própria empresa.

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Quando o consumidor começa a financiar o cotidiano na crise da economia

Existe ainda um sinal que merece atenção especial: a crescente dependência do crédito para despesas correntes.

É importante não transformar relatos individuais em uma estatística nacional sem dados que comprovem essa dimensão.

Mas a pergunta econômica é inevitável:

o que significa para uma família precisar recorrer ao parcelamento para despesas que voltarão a existir no mês seguinte?

Financiar um eletrodoméstico é diferente de financiar uma despesa recorrente.

A geladeira é comprada uma vez.

A alimentação volta para o orçamento no mês seguinte.

Quando o crédito começa a ocupar espaço cada vez maior em despesas essenciais ou recorrentes, surge uma questão incômoda: o consumidor está apenas antecipando consumo ou está tentando cobrir uma insuficiência de renda disponível?

Essa diferença é fundamental.

Porque crédito pode sustentar o consumo durante algum tempo.

Mas não substitui permanentemente renda.

A dupla pressão sobre o Habib’s : menos dinheiro para o cliente, mais custos para a empresa

É aqui que a crise fica mais séria.

Uma empresa de alimentação não vende apenas comida.

Ela precisa pagar toda uma cadeia para colocar aquela comida diante do consumidor.

Há fornecedores, trabalhadores, aluguel, energia, equipamentos, tecnologia, manutenção, logística, taxas, impostos, marketing e financiamento.

Quando esses custos aumentam, a empresa enfrenta uma escolha difícil.

Pode aumentar o preço.

Pode reduzir margem.

Pode cortar custos.

Pode investir menos.

Pode fechar unidades deficitárias.

Ou pode buscar crédito.

Nenhuma dessas soluções é gratuita.

E o crédito fica especialmente problemático quando os juros estão elevados.

O próprio Grupo Gennius afirma que dívidas contraídas para sustentar as operações ficaram mais caras com a alta da Selic, fazendo com que uma parcela maior do dinheiro gerado pelas operações fosse destinada ao pagamento de juros e dívidas.

É o momento em que o faturamento deixa de significar geração de caixa suficiente.

A empresa pode continuar vendendo.

Pode continuar recebendo clientes.

Pode continuar funcionando.

Mas uma parte cada vez maior do dinheiro que entra já chega comprometida.

A conta dos impostos também aparece no preço final

Existe outro componente que não pode ser ignorado na equação brasileira: a tributação.

O imposto não precisa aparecer explicitamente na conta do restaurante para afetar o consumidor.

Ele pode estar embutido no custo dos produtos, na folha, na energia, nos serviços contratados, na logística, nos investimentos e em diversas etapas da cadeia.

No final, empresas precisam recuperar seus custos.

E o consumidor paga uma parcela dessa conta no preço.

É por isso que discutir apenas o preço da esfiha, do prato ou do pedido não é suficiente.

É preciso olhar para toda a estrutura que existe antes de o produto chegar à mesa.

E quando a renda disponível do consumidor está pressionada, qualquer aumento adicional de preço pode provocar uma reação: consumir menos.

A empresa então vende menos.

Para compensar, tenta elevar preços ou reduzir custos.

O consumidor reage novamente.

E o ciclo continua.

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A dívida do Habib’s mostra quem está na linha de fogo

O tamanho do passivo deixa claro que a crise não está restrita ao acionista ou controlador.

O Grupo Gennius declarou R$ 265.207.959,83 em dívidas.

Desse total, R$ 22,3 milhões são trabalhistas.

Outros R$ 241,7 milhões estão concentrados em credores sem garantia específica, categoria que inclui grande parte das dívidas com bancos, fornecedores e outros parceiros comerciais.

Há ainda R$ 1,15 milhão devido a micro e pequenas empresas.

Isso transforma a recuperação judicial em um problema de cadeia.

Se um grande grupo reduz pagamentos, fornecedores sentem.

Se fornecedores recebem menos, precisam administrar seu próprio caixa.

Se pequenas empresas são credoras, a capacidade de absorver um atraso pode ser ainda menor.

E se bancos e outros credores passam a restringir crédito, a empresa perde justamente uma das ferramentas utilizadas para atravessar períodos de dificuldade.

A crise se propaga pela cadeia.

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O momento mais preocupante veio antes da recuperação judicial os Bancos seguraram o dinheiro

Outro detalhe do caso merece atenção.

O Grupo Gennius não chegou diretamente à recuperação judicial.

Antes, tentou negociar com os credores.

Em 25 de junho, buscou proteção temporária contra cobranças enquanto participava de uma mediação que deveria durar 60 dias.

A negociação, porém, não foi suficiente.

Segundo o grupo, instituições financeiras estavam retendo recursos e havia risco de interrupção de serviços e fornecimentos essenciais para manter as lojas funcionando. Entre os riscos estava a interrupção dos sistemas tecnológicos utilizados nas operações.

Esse é um dos sinais mais importantes de toda a história.

Porque uma empresa pode sobreviver a uma dívida elevada.

O que se torna muito mais perigoso é quando o próprio capital de giro começa a ficar comprometido a ponto de ameaçar a operação diária.

Sem caixa, não basta ter clientes.

É preciso conseguir comprar, pagar, operar e continuar vendendo.

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Quem ganha e quem perde com a recuperação judicial?

A recuperação judicial existe justamente para tentar evitar que uma crise de liquidez transforme uma empresa em falência.

Portanto, não significa que as lojas serão fechadas.

O grupo continua operando, e a Justiça suspendeu temporariamente parte das ações e cobranças contra as empresas, respeitadas as exceções legais.

Mas isso não significa que todos sairão vencedores.

Quem pode ganhar

A empresa, porque ganha tempo para reorganizar suas dívidas e tentar preservar a operação.

Os funcionários, caso a recuperação consiga manter as atividades e os empregos.

Os franqueados, se a estrutura da franqueadora permanecer funcionando adequadamente.

Os credores, em tese, porque uma empresa funcionando pode gerar mais recursos para pagamento do que uma operação liquidada imediatamente.

Quem corre risco

Fornecedores, especialmente os menores, que podem ter dificuldade para absorver atrasos.

Credores sem garantia, que representam a maior parcela do passivo declarado.

Pequenas empresas credoras, que têm menor capacidade financeira para suportar uma longa espera.

Unidades deficitárias, que podem ser revistas durante a reestruturação.

E, principalmente, a própria operação, caso o grupo não consiga gerar caixa suficiente para sustentar o negócio enquanto reorganiza as dívidas.

Para o funcionário, recuperação judicial não significa demissão automática

Outro ponto importante é não confundir recuperação judicial com fechamento.

A legislação e a lógica do processo buscam preservar a atividade empresarial e os empregos.

Segundo a explicação apresentada no caso, salários correntes continuam sendo pagos normalmente, enquanto eventuais dívidas trabalhistas anteriores ao pedido entram no processo de recuperação, observadas as regras aplicáveis.

Portanto, o simples fato de o grupo ter entrado em recuperação judicial não significa que as lojas serão fechadas ou que todos os funcionários serão demitidos.

Mas existe uma ressalva importante.

Durante uma reestruturação, podem ocorrer mudanças na operação, fechamento de unidades deficitárias ou venda de ativos, dependendo do plano que será apresentado aos credores.

E os franqueados?

A situação também exige atenção de quem opera uma unidade franqueada.

A recuperação judicial da franqueadora não extingue automaticamente os contratos de franquia.

Também não significa, por si só, que royalties ou outras obrigações contratuais deixam de existir.

A recomendação apresentada no caso é que cada franqueado revise seu contrato e a Circular de Oferta de Franquia, acompanhe o processo e documente eventuais falhas concretas da franqueadora.

Entre os problemas que podem ser relevantes estão falta de produtos, problemas de abastecimento e interrupções em sistemas, publicidade, treinamento ou suporte operacional.

Ou seja:

para o franqueado, o problema não termina na notícia da recuperação judicial. Ele começa agora.

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Os próximos 60 dias podem ser decisivos

A Justiça nomeou a KPMG Corporate Finance como administradora judicial, responsável por acompanhar o processo e auxiliar a Justiça na fiscalização das informações apresentadas pelo grupo.

O Grupo Gennius terá 60 dias para apresentar seu plano de recuperação.

É esse documento que começará a mostrar a dimensão real do problema.

A empresa terá de explicar como pretende reorganizar suas dívidas, preservar a operação e voltar a gerar caixa suficiente para sobreviver.

Se o plano não for apresentado no prazo, o processo poderá ser convertido em falência.

Mas mesmo antes disso, os números e as condições do plano serão fundamentais para responder à principal pergunta:

há um negócio saudável escondido atrás de uma estrutura financeira sufocada ou a operação também perdeu capacidade de gerar caixa?

Essa é a diferença entre uma crise financeira e uma crise estrutural.

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O verdadeiro alerta não está na esfiha está na economia

É possível olhar para a recuperação judicial do Habib’s e concluir que uma empresa tomou decisões erradas, contraiu dívidas demais, sofreu com a pandemia e foi atingida pelos juros.

Tudo isso pode ser verdadeiro.

Mas essa explicação é insuficiente.

O que torna o caso relevante para o restante da economia é a possibilidade de que empresas e consumidores estejam sendo pressionados simultaneamente.

O consumidor tem menos espaço para gastar.

A empresa tem menos espaço para reduzir custos.

O crédito custa caro.

Os maiores juros do mundo

Os impostos e custos operacionais pressionam a estrutura.

Os preços não podem subir indefinidamente.

E o faturamento, sozinho, não resolve uma empresa que precisa destinar uma parcela crescente do caixa ao serviço da dívida.

É uma combinação particularmente perigosa.

juros
Selic ao longo do tempo: Fonte Banco Central

A pergunta que o caso Habib’s deixa para o Brasil

O Habib’s não prova que o brasileiro parou de consumir.

Também não prova, sozinho, que o país entrou em uma crise generalizada de consumo.

Mas oferece um ponto de partida para uma investigação que deveria interessar a qualquer pessoa que acompanhe a economia brasileira:

quanto da renda do brasileiro ainda sobra depois que ele paga todas as suas obrigações?

Essa talvez seja uma variável mais importante do que simplesmente olhar para o crescimento nominal das vendas.

Porque uma economia pode continuar movimentando dinheiro enquanto o consumidor está cada vez mais apertado.

Pode haver faturamento.

Pode haver crédito.

Pode haver parcelamento.

Pode haver promoções.

Pode haver aplicativos.

Mas, se cada vez menos dinheiro sobra no fim do mês, o consumo discricionário começa a ser comprimido.

E quando isso acontece em milhões de famílias simultaneamente, o efeito chega às empresas.

Primeiro aparecem os cortes.

Depois, a redução de frequência.

Depois, a pressão sobre margens.

Depois, o endividamento.

E, em casos extremos, a recuperação judicial.

Foi isso que aconteceu com o Grupo Gennius?

Ainda é cedo para afirmar que o caso seja uma fotografia completa da economia brasileira.

Mas há uma certeza:

a crise do Habib’s não é apenas sobre esfihas, delivery ou home office.

É sobre uma questão muito maior e muito mais difícil de esconder:

quanto tempo uma economia consegue sustentar o consumo quando consumidor e empresa começam a ficar sem espaço ao mesmo tempo?

O plano de recuperação do Grupo Gennius será o próximo capítulo dessa história.

Mas o verdadeiro indicador que merece ser acompanhado está muito além dos balanços da empresa:

é o bolso do brasileiro.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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