Jornada de 40 horas de trabalho vai criar uma nova conta para empresas, e o consumidor pode acabar pagando, alerta estudo

Estudo estima impacto de até 6,85% no custo total de empresas intensivas em mão de obra com a jornada de 40 horas de trabalho. Mas o número mais importante não é esse: é quem ficará com a conta, empresas, trabalhadores ou consumidores

A proposta de reduzir a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários, entrou em uma zona muito mais complexa do que o debate político costuma mostrar.

Um levantamento da Íntegra Associados, obtido pela CNN Brasil, estima que a mudança poderia elevar em até 6,85% o custo total de empresas de determinados segmentos intensivos em mão de obra.

Mas esse não é necessariamente o número que deveria preocupar empresários, investidores e consumidores.

O verdadeiro ponto de atenção é outro:

quem vai pagar essa conta?

A empresa poderá absorver o aumento e aceitar margens menores.

Poderá investir em tecnologia e produtividade para compensá-lo.

Poderá contratar mais trabalhadores para preencher as horas que deixarão de ser trabalhadas.

Poderá repassar parte do aumento para os preços.

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Ou poderá fazer uma combinação de todas essas alternativas.

O resultado final dependerá de uma variável que pode determinar o sucesso ou o fracasso econômico da transição:

produtividade por hora trabalhada.

E é justamente aí que a discussão sobre as 40 horas deixa de ser apenas uma pauta trabalhista e passa a interessar diretamente ao mercado.

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23,4 milhões de vínculos estão acima de 40 horas

O levantamento da Íntegra Associados considera vínculos ativos em dezembro de 2025, em estabelecimentos com pelo menos 20 empregados.

A base reúne 28,8 milhões de contratos com informação disponível sobre jornada.

Desse universo, aproximadamente 23,4 milhões de vínculos formais possuem jornadas superiores a 40 horas semanais.

Isso representa 81,2% dos vínculos celetistas considerados no estudo.

A maior concentração está nos contratos de 44 horas semanais, que correspondem a 76,1% dos vínculos analisados.

A matemática é simples, mas suas consequências econômicas não são.

Se um empregado que trabalha 44 horas passar a trabalhar 40 horas, mantendo o mesmo salário, a empresa terá 9,1% menos horas disponíveis para o mesmo custo salarial.

Em termos de custo por hora efetivamente trabalhada, o aumento chega a aproximadamente 10%.

Mas isso não significa que o custo total da empresa subirá 10%.

E essa diferença é fundamental.

O número que parece assustador, mas pode enganar

Uma das principais armadilhas da discussão é confundir custo da hora trabalhada com custo total da empresa.

Uma indústria pode ter milhares de funcionários trabalhando acima de 40 horas e, ainda assim, sofrer um impacto relativamente pequeno sobre seu custo total.

Isso ocorre porque salários e encargos são apenas uma parte das despesas.

Matérias-primas, energia, máquinas, logística, aluguel e outros componentes podem representar uma parcela muito maior da estrutura de custos.

Por isso, o levantamento encontra situações bastante diferentes.

Na fabricação de alimentos, por exemplo, o custo da hora trabalhada poderia subir 9,82%, enquanto o impacto estimado sobre o custo total seria de apenas 0,80%.

No comércio atacadista, o aumento da hora trabalhada chegaria a 9,58%, mas o custo total avançaria aproximadamente 0,42%.

Segundo o estudo, 19 setores teriam aumento inferior a 1% no custo total.

Ou seja:

o tamanho do impacto não depende apenas de quantas pessoas terão a jornada reduzida. Depende de quanto a folha pesa no negócio.

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É nos serviços que a conta fica mais pesada com a jornada de 40 horas de trabalho

O cenário muda radicalmente quando a empresa depende diretamente de pessoas para entregar o produto ou serviço.

Na atividade de seleção e agenciamento de mão de obra, as despesas com pessoal representam 81,34% do custo total.

Nesse segmento, a redução da jornada provocaria um aumento estimado de 6,85% no custo total.

Em vigilância e segurança, o impacto estimado chega a 6,83%.

Nos serviços para edifícios e atividades paisagísticas, aproximadamente 6,27%.

Também aparecem entre os segmentos mais expostos:

  • atividades jurídicas e contábeis: 4,70%;
  • correios e serviços de entrega: 4,45%;
  • serviços de escritório e apoio administrativo: 4,11%;
  • alojamento: 3,50%.

O padrão é claro.

Quanto maior a dependência de mão de obra e quanto maior o peso da folha, maior a dificuldade de absorver uma redução das horas trabalhadas sem alterar a estrutura operacional.

E aqui começa a verdadeira disputa pela conta

Imagine uma empresa de segurança.

Ela precisa manter determinado número de profissionais trabalhando durante 24 horas.

Se cada trabalhador passar a trabalhar menos horas, simplesmente reduzir a jornada não resolve o problema.

A empresa continuará precisando entregar praticamente a mesma quantidade de horas de serviço ao cliente.

Então surgem algumas alternativas.

Contratar mais pessoas.

Reorganizar turnos.

Aumentar produtividade.

Investir em tecnologia.

Reduzir margem.

Repassar custos.

É nesse ponto que a discussão sobre jornada pode chegar ao consumidor.

Porque, se a empresa não conseguir compensar o aumento de custo por meio de produtividade, alguém terá de absorver a diferença.

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Quem pode pagar a conta?

1. A empresa

A primeira possibilidade é a própria companhia absorver o impacto.

Isso significa menor margem operacional.

Para empresas já pressionadas por custos, juros, impostos e concorrência, pode ser uma alternativa difícil de sustentar.

2. O consumidor

Outra possibilidade é o repasse.

Serviços de segurança, limpeza, hotelaria, entrega, apoio administrativo e outras atividades intensivas em mão de obra podem ter maior dificuldade para absorver permanentemente um aumento de custos.

Nesse cenário, o preço final pode subir.

O impacto seria particularmente relevante porque serviços possuem peso importante na inflação e podem apresentar maior persistência de preços quando custos salariais aumentam.

3. O mercado de trabalho

Existe ainda uma terceira possibilidade.

A empresa pode tentar compensar a redução das horas por meio de contratações adicionais.

Isso poderia aumentar a demanda por trabalhadores.

Mas existe um contraponto.

Se o custo adicional for considerado excessivo, algumas empresas podem simplesmente reduzir o ritmo de contratação, automatizar funções ou reorganizar operações.

Portanto, o efeito sobre o emprego não é automaticamente positivo nem negativo.

Dependerá da reação de cada setor.

4. A produtividade

Existe, finalmente, a alternativa mais desejável para a economia:

produzir mais por hora trabalhada. O Brasil atualmente está entre os países menos produtivos do mundo, e isto não pode ser ignorado no cálculo dos efeitos e consequências desta mudança proposta.

Se um trabalhador produzir significativamente mais em 40 horas do que produzia em 44, parte do custo adicional poderá desaparecer.

É aqui que a discussão fica realmente econômica.

A variável que pode mudar toda a equação

O Brasil não precisa necessariamente escolher entre trabalhadores ganhando qualidade de vida e empresas perdendo competitividade.

Existe uma terceira variável:

produtividade.

Se a redução da jornada vier acompanhada de menos absenteísmo, menor rotatividade, maior retenção, melhor organização dos turnos e ganhos de eficiência, parte do impacto poderá ser compensada.

A própria Íntegra Associados reconhece que sua metodologia pode superestimar o aumento médio do custo do trabalho, justamente porque não incorpora integralmente possíveis ganhos de produtividade e outros efeitos compensatórios.

Isso é importante.

O estudo não afirma que toda empresa terá aumento de 6,85%.

Ele estima o impacto potencial com base em determinadas premissas.

E algumas dessas premissas podem mudar quando as empresas efetivamente reorganizarem suas operações.

Mas existe um risco do outro lado

Também seria um erro imaginar que toda empresa conseguirá simplesmente aumentar produtividade.

Uma indústria altamente automatizada possui ferramentas diferentes de um hotel.

Uma empresa de tecnologia possui estrutura diferente de uma empresa de limpeza.

Um banco possui capacidade de digitalização diferente de um serviço de portaria.

E uma empresa de segurança não consegue substituir indefinidamente trabalhadores por software quando o cliente exige presença física.

É por isso que a mudança pode criar vencedores e perdedores dentro da própria economia.

Quem está mais exposto?

A lógica do estudo permite identificar um grupo especialmente vulnerável:

empresas com alta participação da folha de pagamento, grande número de trabalhadores acima de 40 horas e baixa capacidade de automatização.

É nesse grupo que o impacto tende a ser mais difícil de absorver.

Entre os segmentos que merecem atenção estão:

  • segurança;
  • limpeza;
  • facilities;
  • terceirização;
  • hotelaria;
  • serviços administrativos;
  • entrega;
  • alimentação;
  • determinadas atividades de construção;
  • empresas de serviços com margens reduzidas.

Para o investidor, essa leitura é mais importante do que simplesmente olhar para o percentual de trabalhadores atingidos.

A pergunta relevante passa a ser:

quanto cada hora de trabalho representa no custo e na geração de receita da empresa?

MAIS INFORMAÇÃO: Flávio Rocha da Riachuelo prevê inflação, demissões e alta de custos com fim da escala 6×1

Indústria e comércio não estão fora da equação

A exposição também é elevada em outros segmentos.

A parcela de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas chega a aproximadamente 97% na agropecuária, 95% no comércio e 92% na indústria.

Nos serviços, fica em cerca de 67%.

Mas novamente existe uma diferença fundamental entre percentual de trabalhadores atingidos e impacto sobre o custo total.

No varejo, por exemplo, o estudo estima aumento de 9,93% no custo da hora trabalhada.

Na fabricação de alimentos, 9,82%.

Na construção de edifícios, 9,81%.

Isso não significa que os custos totais dessas empresas subirão nessa mesma proporção.

O efeito final depende da estrutura econômica de cada atividade.

O fim da 6×1 acrescenta outra camada de complexidade

A redução da jornada para 40 horas não deve ser confundida com o impacto específico do fim da escala 6×1.

O próprio estudo ressalta que as bases oficiais utilizadas não permitem identificar adequadamente a escala efetivamente cumprida por cada trabalhador.

Por isso, não é possível calcular, com a mesma metodologia, quanto custaria especificamente o fim da escala 6×1.

Essa distinção é essencial.

Uma coisa é reduzir o teto semanal de 44 para 40 horas. Outra é mudar a forma como essas horas são distribuídas ao longo da semana.

Os dois efeitos podem se somar, dependendo do desenho final da legislação.

O Brasil está diante de uma mudança estrutural que não deveria ocorrer agora com a economia em crise

A discussão chega em um momento particularmente sensível.

A proposta de redução da jornada passou a ocupar espaço relevante na agenda política e econômica de 2026, para muitos analistas, ocorre agora porque Lula busca a reeleição e precisa de uma bandeira que garanta votos já que o país passa por uma crise econômica em crescimento.

De um lado, defensores da mudança argumentam que jornadas menores podem melhorar qualidade de vida, reduzir desgaste e aumentar produtividade.

De outro, empresas alertam para o aumento do custo por trabalhador e para as dificuldades de adaptação de setores que dependem de cobertura contínua.

E as pessoas já enfrentam dificuldade financeira crescente, neste cenário a qualidade de vida seria conseguir pagar as contas e reduzir o próprio endividamento. A pessoa não consegue descansar independente da quantidade de horas que trabalhe se estiver sem dinheiro e endividado.

As duas preocupações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

O trabalhador pode ganhar tempo.

A empresa pode enfrentar custo adicional.

E o consumidor pode acabar recebendo esta conta na forma de preços maiores.

Essa é justamente a complexidade que o debate político frequentemente simplifica, principalmente quando de eleição e votos em jogo.

O que o brasileiro deveria observar

Para o mercado, a discussão abre uma nova frente de análise.

Não basta perguntar:

“Quantos funcionários uma empresa possui?”

Será necessário observar:

Qual é a jornada média?

Qual é o peso da folha na receita e nos custos?

Qual é a margem operacional?

Quanto da operação pode ser automatizado?

Existe capacidade de repassar preços?

A empresa depende de trabalhadores presenciais?

Qual é a produtividade por funcionário?

Essas variáveis podem determinar quais companhias atravessarão a transição com pouco impacto e quais precisarão sacrificar margem ou reajustar preços.

A conta pode ser menor, ou maior, do que parece

O número de 6,85% é relevante, mas não deve ser tratado como uma previsão universal, tem muito mais a se considerar nesta conta.

Ele representa uma estimativa setorial sob determinadas premissas.

O resultado efetivo dependerá da reação das empresas.

Uma companhia pode compensar parte do impacto com produtividade, o que vai ser difícil.

Outra pode automatizar.

Outra pode reduzir margem, o que já está na mínima.

Outra pode aumentar preços.

Outra pode contratar.

Outra pode combinar todas essas estratégias.

E algumas podem descobrir que simplesmente não possuem margem suficiente para absorver a mudança e fechar as portas.

A grande pergunta não é se a jornada menor custa mais

Em algum nível, a resposta é matemática.

Se o salário permanece igual e o trabalhador passa a oferecer menos horas, o custo por hora trabalhada aumenta.

A pergunta realmente importante é outra:

a produtividade conseguirá crescer o suficiente para compensar esse aumento?

Se conseguir, a redução da jornada poderá ser absorvida com impacto limitado sobre empresas e consumidores.

Se não conseguir, a conta inevitavelmente aparecerá em algum lugar.

Na margem da empresa.

No preço do serviço.

Na velocidade das contratações.

Ou em uma combinação dos três.

A leitura do Investidores Brasil

A discussão sobre 40 horas semanais está sendo apresentada muitas vezes como uma escolha entre trabalhar menos ou trabalhar mais.

Economicamente, a questão é muito maior. Principalmente com a realidade atual da economia brasileira, com pessoas e empresas afundados em dívidas e com o poder de compra reduzido.

É uma disputa sobre quem ficará com o custo da hora que deixará de ser trabalhada. Mas qual o lucro de ter mais horas livres, se está sem dinheiro e com muitas dívidas?

Os dados da Íntegra Associados mostram que o impacto não será distribuído igualmente pela economia brasileira.

Para setores industriais e comerciais, o efeito sobre o custo total pode ser relativamente pequeno.

Para empresas altamente dependentes de mão de obra, porém, a pressão pode chegar perto de 7%.

E isso cria uma cadeia que merece ser acompanhada de perto:

menos horas → maior custo por hora → necessidade de produtividade → pressão sobre margens → possível repasse para preços → impacto sobre inflação e emprego.

É nesse ponto que uma discussão aparentemente trabalhista se transforma em uma questão de competitividade, inflação, investimentos e mercado.

Para o investidor, portanto, o número de 6,85% é apenas o começo.

A pergunta decisiva será quem conseguirá transformar menos horas trabalhadas em mais produtividade — e quem não conseguirá.

Porque, no fim, alguém terá de pagar a conta, o governo Lula e Congresso podem estar criando uma nova fatura para os brasileiros pagarem nos próximos anos.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas

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