ICC da FGV cai 3,6 pontos em agosto, para 84,7 pontos; forte deterioração das expectativas acende alerta para o consumo das famílias no segundo semestre
A confiança do consumidor brasileiro entrou em uma trajetória de deterioração mais intensa em agosto. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), calculado pelo FGV IBRE, caiu 3,6 pontos, para 84,7 pontos, registrando a quarta queda consecutiva e atingindo o menor nível desde novembro de 2022, quando estava em 83,5 pontos.
A gestão do governo Lula 3 está terminando o mandato com a confiança do consumidor em nível menor do que o período da maior Pandemia da história. O que já pode revelar muito sobre a economia e situação real dos brasileiros.
O resultado mostra que o pessimismo das famílias não apenas persiste, como ganhou força. E o principal sinal de alerta está nas expectativas para os próximos meses, justamente em um momento no qual juros elevados, endividamento e inadimplência continuam pressionando o orçamento dos consumidores.
Na média móvel trimestral, o ICC também recuou, cedendo 1,4 ponto, para 87,2 pontos, reforçando que a piora não se limita a uma oscilação pontual do indicador.
Expectativas despencam e puxam confiança do consumidor para baixo
O componente que mais chama atenção é o Índice de Expectativas (IE).
O indicador caiu 5,4 pontos em agosto, para 86,1 pontos, o menor nível desde julho de 2022. Já o Índice de Situação Atual (ISA) recuou 0,6 ponto, para 83,8 pontos.
A diferença entre os dois movimentos é importante.
Enquanto a percepção sobre a situação atual apresentou uma deterioração relativamente moderada, as expectativas para o futuro sofreram uma queda muito mais expressiva.
Na prática, o consumidor brasileiro está demonstrando maior preocupação não apenas com o orçamento de hoje, mas principalmente com aquilo que poderá acontecer nos próximos meses.
Segundo Anna Carolina Gouveia, economista do FGV IBRE, a quarta queda consecutiva sinaliza uma piora do humor das famílias em relação à economia, acompanhada por uma percepção mais desfavorável tanto sobre o futuro quanto sobre o momento presente.
Compra de bens duráveis despenca
Um dos dados mais preocupantes da pesquisa aparece na intenção de compra de bens duráveis.
O indicador recuou expressivos 10 pontos em agosto, para 74,7 pontos, atingindo o menor nível desde julho de 2022.
O movimento é relevante porque compras de veículos, eletrodomésticos, móveis e outros bens de maior valor frequentemente dependem de financiamento ou comprometem uma parcela significativa da renda familiar.
Quando o consumidor passa a adiar esse tipo de compra, o impacto potencial deixa de ser restrito às famílias e pode alcançar toda a cadeia de consumo.
A percepção sobre a situação financeira futura das famílias também piorou. O indicador caiu 4,6 pontos, para 82,9 pontos, menor nível desde agosto de 2025.
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Endividamento e juros elevados pesam sobre as famílias
A deterioração ocorre em um cenário no qual os consumidores ainda enfrentam condições financeiras difíceis.
A própria FGV destaca a combinação de elevado endividamento, inadimplência e taxas de juros elevadas como fatores que ajudam a explicar a perda de confiança.
Esse cenário cria um efeito particularmente negativo.
Famílias endividadas precisam destinar uma parcela maior da renda ao pagamento de compromissos já assumidos. Com o crédito caro, novas compras financiadas ficam menos atrativas — ou simplesmente deixam de caber no orçamento.
O resultado é uma tendência de maior cautela.
O consumidor reduz compras de maior valor, adia decisões e passa a priorizar o equilíbrio financeiro.

Até a percepção sobre a situação atual piorou
O problema não está restrito às expectativas.
Dentro do Índice de Situação Atual, o indicador que mede a situação financeira atual das famílias caiu 1,2 ponto, para 74,3 pontos.
Já o indicador de percepção sobre a situação econômica local atual recuou 0,1 ponto, para 93,6 pontos, atingindo o menor nível desde setembro de 2025.
Ou seja, a deterioração começa a aparecer também na avaliação que as famílias fazem do presente.
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Mercado de trabalho ainda é o principal contraponto
Existe, porém, um fator importante impedindo que o cenário seja ainda mais negativo: o mercado de trabalho continua forte.
É justamente essa resistência que torna o resultado da pesquisa ainda mais relevante.
Mesmo com um mercado de trabalho sustentando a renda de parte das famílias, a confiança vem caindo pelo quarto mês consecutivo.
Para a FGV, o movimento dos últimos meses parece sinalizar uma desaceleração do consumo das famílias no segundo semestre de 2026, apesar da manutenção de um mercado de trabalho forte.
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O alerta para o crescimento econômico
A perda de confiança não significa automaticamente uma recessão. Mas é um sinal que merece atenção porque o consumo das famílias possui papel importante na atividade econômica.
Se o consumidor acredita que sua situação financeira irá piorar, a tendência é aumentar a cautela.
Primeiro, são adiadas compras de bens duráveis. Depois, podem ser reduzidos gastos discricionários. Em um cenário de juros elevados, esse comportamento pode se prolongar enquanto as famílias tentam reduzir dívidas e recuperar capacidade financeira.
O problema é que, se o movimento se disseminar, o impacto pode chegar ao comércio, à indústria e aos setores dependentes da demanda doméstica.
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O dado que mais preocupa
Mais do que o ICC ter atingido 84,7 pontos, o que merece atenção é a combinação de três movimentos:
a confiança cai pelo quarto mês seguido; as expectativas despencam 5,4 pontos; e a intenção de compra de bens duráveis desaba 10 pontos.
É uma combinação que sugere um consumidor mais cauteloso e menos disposto a assumir compromissos de maior valor.
O cenário também merece ser observado à luz das expectativas econômicas. No relatório Focus divulgado pelo Banco Central, a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026 aparece em 1,95%, mostrando uma economia com ritmo de expansão mais moderado.
Nesse ambiente, uma eventual perda de força do consumo pode se tornar mais relevante para as perspectivas de crescimento.
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O que pode acontecer daqui para frente
A grande questão para os próximos meses será descobrir se a deterioração da confiança ficará restrita aos indicadores de sentimento ou se começará a aparecer de forma mais clara nos dados efetivos de consumo.
Se o mercado de trabalho continuar sustentando renda e emprego, parte dessa pressão poderá ser absorvida.
Por outro lado, se juros elevados, endividamento e inadimplência continuarem comprimindo o orçamento das famílias, a perda de confiança poderá transformar-se em menor disposição para consumir e investir em bens de maior valor.
O resultado de agosto, portanto, funciona como um sinal de alerta para a economia brasileira.
O consumidor ainda conta com o suporte de um mercado de trabalho relativamente forte, mas está dizendo, por meio da pesquisa da FGV, que está mais preocupado com o futuro e cada vez menos disposto a abrir a carteira.
Números que resumem o alerta
- ICC: 84,7 pontos
- Queda em agosto: 3,6 pontos
- Quarta queda consecutiva
- Menor nível: desde novembro de 2022
- IE: 86,1 pontos
- Queda do IE: 5,4 pontos
- ISA: 83,8 pontos
- Queda do ISA: 0,6 ponto
- Compras previstas de bens duráveis: 74,7 pontos
- Queda desse indicador: 10 pontos
- Situação financeira futura: 82,9 pontos
- Principal pressão: endividamento, inadimplência e juros elevados
- Sinal da FGV: possível desaceleração do consumo no segundo semestre de 2026
Nossa leitura
A queda da confiança do consumidor é um dos sinais mais claros de que juros elevados e famílias financeiramente pressionadas começam a limitar o potencial de consumo da economia.
O mercado de trabalho ainda funciona como uma proteção, mas a deterioração das expectativas mostra que o consumidor não está olhando apenas para a renda de hoje. Ele está antecipando dificuldades para os próximos meses — e, por isso, está adiando compras.
Se essa tendência continuar, o segundo semestre poderá ser marcado por um consumidor mais defensivo, justamente quando a economia precisaria de demanda doméstica para sustentar o crescimento.
Fonte: FGV IBRE e Banco Central do Brasil.



