Saída precoce de três mercados estratégicos pode retirar um importante catalisador de consumo no terceiro trimestre, especialmente para a dona da Ambev
O impacto de grandes eventos esportivos sobre o consumo de cerveja não é uma hipótese inédita do Morgan Stanley. Fabricantes globais costumam incorporar campeonatos como Copa do Mundo, Eurocopa e grandes ligas nacionais em suas projeções sazonais de demanda. Em apresentações de resultados, empresas do setor frequentemente destacam que eventos de grande audiência elevam o fluxo em bares, ampliam o consumo doméstico e impulsionam campanhas promocionais, embora fatores como clima, renda e preços continuem sendo determinantes para o desempenho final do trimestre.
Resumo executivo
A eliminação de Brasil, México e Estados Unidos nas oitavas de final da Copa do Mundo pode ter reflexos que vão além do futebol. Em relatório aos clientes, o Morgan Stanley avalia que a saída precoce das três seleções reduz um importante vetor de consumo pode pressionar os resultados da AB InBev (NYSE: ABI), controladora da Ambev, e da Heineken (AMS: HEIA), justamente em alguns dos maiores mercados consumidores de cerveja do mundo.
E a Ambev? Embora o relatório trate da AB InBev, investidores brasileiros também tendem a acompanhar os reflexos para a Ambev (B3: ABEV3), principal operação do grupo na América Latina e responsável por uma parcela relevante do mercado brasileiro de cerveja.
Na avaliação do banco, o efeito ocorre porque o aumento das vendas durante grandes torneios costuma se concentrar nos países cujas seleções avançam às fases decisivas. Com menos partidas para mobilizar torcedores, bares, restaurantes e consumidores domésticos tendem a registrar menor demanda do que a projetada antes do início da competição.
Embora o impacto estimado seja incremental e não altere, por si só, a tese de investimento das companhias, ele pode influenciar o desempenho operacional do terceiro trimestre, período que tradicionalmente concentra os efeitos econômicos da Copa do Mundo.
LEIA TAMBÉM: Presidente do Bradesco faz alerta sobre juros real impraticável no Brasil: sem ajuste das contas..
Morgan Stanley vê mudança relevante no cenário esperado
O banco afirma que a realidade do torneio divergiu de forma significativa das expectativas traçadas antes do início da competição.
Segundo o relatório, as projeções baseadas nas probabilidades da Bet365 indicavam, no começo de junho, que o Brasil tinha elevada chance de disputar partidas nas fases finais da Copa. O México também possuía expectativa positiva, embora menor.
No modelo utilizado pelo Morgan Stanley, essa expectativa é medida pelo conceito de “deep run”, que representa o número esperado de jogos que uma seleção disputa nas fases decisivas do torneio. Quanto maior esse número, maior tende a ser o impacto positivo sobre o consumo de cerveja, já que partidas eliminatórias costumam reunir grandes audiências e estimular encontros entre amigos e familiares.
Antes do início da Copa, o banco estimava que o Brasil disputaria, em média, 0,90 jogo nas fases avançadas, enquanto o México apresentava expectativa de 0,26 jogo.
Com a eliminação de ambas as seleções ainda nas oitavas de final, essas projeções deixaram de se materializar.
Para os analistas, a surpresa negativa foi particularmente relevante no caso brasileiro.
O que significa “deep run”?
“Deep run” é a estimativa do número de partidas que uma seleção deve disputar nas fases finais de um torneio. Quanto maior essa expectativa, maior tende a ser o impacto positivo sobre o consumo associado ao evento, segundo modelos utilizados por bancos e empresas.
“A eliminação precoce do Brasil é, portanto, a surpresa negativa mais relevante, dado o tamanho do mercado de cerveja brasileiro e a maior expectativa de avanço”, destacou o Morgan Stanley.
Brasil concentra o maior impacto esperado
Entre os países analisados pelo banco, o Brasil aparece como o mercado mais sensível às eliminações precoces.
Isso ocorre por dois fatores principais: o tamanho do mercado brasileiro de cerveja e a elevada expectativa de que a seleção nacional chegasse às fases finais da competição.
Brasil está entre os maiores mercados cervejeiros do mundo. A operação brasileira costuma ser uma das principais geradoras de caixa da AB InBev. O mercado brasileiro influencia a divisão América Central e do Sul.
Segundo as estimativas do Morgan Stanley, a eliminação brasileira representa um diferencial de aproximadamente 60 pontos-base em relação ao cenário originalmente esperado para o crescimento das vendas no ano fiscal. Antes do torneio, o banco projetava que o avanço da seleção poderia adicionar cerca de 70 pontos-base ao desempenho comercial.
AJUDA PARA O INVESTIDOR: DARF de Opções: Guia Completo de Tributação, Cálculo e Pagamento
No caso do México, o impacto estimado é menor, mas também negativo. O banco calcula um diferencial de aproximadamente 20 pontos-base, frente à expectativa anterior de ganho de cerca de 30 pontos-base.
Embora essas variações pareçam pequenas à primeira vista, movimentos dessa magnitude podem representar volumes expressivos de vendas quando aplicados a grupos globais que comercializam centenas de milhões de hectolitros de cerveja por ano.
Pontos-base (bps) correspondem a centésimos de ponto percentual e são amplamente utilizados pelo mercado financeiro para medir pequenas variações em indicadores de crescimento.
Por que uma Copa do Mundo influencia as vendas de cerveja?
A relação entre grandes eventos esportivos e o consumo de bebidas alcoólicas é conhecida pelo mercado há décadas e faz parte das projeções de diversas empresas do setor de bebidas.
Cada partida adicional de uma seleção nacional tende a prolongar um ciclo de consumo que envolve diferentes canais de venda.
Durante o torneio, cresce a movimentação em bares e restaurantes, aumentam as compras em supermercados para reuniões entre amigos e familiares, e as cervejarias intensificam campanhas promocionais, ativações de marca e distribuição de produtos.
Quanto mais tempo uma seleção permanece na competição, maior costuma ser esse efeito multiplicador sobre o consumo.
Quando uma equipe favorita é eliminada precocemente, parte desse impulso desaparece antes do esperado, reduzindo um catalisador sazonal importante para o desempenho das fabricantes de cerveja no trimestre.
É justamente essa dinâmica que levou o Morgan Stanley a revisar suas expectativas para os resultados da AB InBev e da Heineken após as eliminações de Brasil e México.
LEITURA SUGERIDA: Governo Trump cria patrimônio desde o nascimento com depósito inicial para investimento de crianças..
Eliminação dos Estados Unidos amplia a preocupação
Antes mesmo da partida entre Estados Unidos e Bélgica, o Morgan Stanley já havia alertado que uma eliminação da seleção norte-americana poderia ampliar os riscos para os resultados da AB InBev no terceiro trimestre.
O motivo é o peso do mercado americano para a companhia. Segundo o banco, os Estados Unidos responderam por cerca de 20% da receita da AB InBev em 2025, tornando o país um dos pilares financeiros do grupo.
Com a derrota por 4 a 1 para a Bélgica, os norte-americanos também deixaram a competição nas oitavas de final, eliminando mais um potencial fator de estímulo ao consumo durante as fases decisivas da Copa.
Na avaliação dos analistas, a combinação das eliminações de Brasil, México e Estados Unidos concentra o risco justamente em três mercados relevantes para as operações globais das maiores cervejarias do mundo.
Brasil segue estratégico para as gigantes do setor
O peso atribuído pelo Morgan Stanley ao Brasil não está relacionado apenas ao desempenho da seleção, mas principalmente à importância do mercado brasileiro para a indústria mundial de cerveja.
O país figura entre os maiores consumidores de cerveja do mundo e representa o principal mercado da Ambev, controlada pela AB InBev. Além do elevado volume de vendas, o Brasil possui uma ampla rede de distribuição, forte presença nos canais de bares, restaurantes e supermercados e grande capacidade de geração de caixa para o grupo.
A Heineken também ampliou significativamente sua participação no mercado brasileiro nos últimos anos, intensificando a disputa com a Ambev tanto no segmento premium quanto nas marcas voltadas ao consumo de massa.
Por isso, qualquer fator que reduza o consumo durante um dos principais eventos esportivos do calendário passa a ser acompanhado de perto pelos investidores.
ENTENDA COM OS NÚMEROS ABAIXO:
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Brasil | Eliminado nas oitavas |
| México | Eliminado nas oitavas |
| Estados Unidos | Eliminados nas oitavas |
| Receita da AB InBev vinda dos EUA (2025) | Cerca de 20% |
| Expectativa de “deep run” do Brasil | 0,90 jogo |
| Expectativa de “deep run” do México | 0,26 jogo |
SAIBA TAMBÉM: Governo com nova regra pede falência da Dolly por dívida de R$ 15 bilhões coloca em xeque direito da recuperação judicial
O que o mercado observará nos próximos balanços
Embora o Morgan Stanley tenha identificado um risco adicional para o terceiro trimestre, o relatório não sugere que as eliminações sejam suficientes, isoladamente, para alterar a visão estrutural sobre AB InBev ou Heineken.
O foco agora se desloca para a divulgação dos próximos resultados financeiros, quando será possível medir se o menor número de partidas envolvendo mercados estratégicos efetivamente reduziu o consumo.
Entre os indicadores mais acompanhados pelos investidores estarão:
- evolução do volume de cerveja vendido no terceiro trimestre;
- crescimento da receita por hectolitro;
- desempenho das operações na América Latina;
- evolução das margens operacionais;
- eventuais revisões de guidance para o restante do ano.
Caso os resultados confirmem desaceleração dos volumes em relação às expectativas anteriores, a Copa poderá ser apontada como um dos fatores que limitaram o desempenho comercial no período.
O próprio relatório trata o efeito como um risco potencial, e não como uma revisão definitiva das estimativas para as companhias. O desempenho final dependerá de outros fatores operacionais, incluindo política de preços, condições macroeconômicas, clima e comportamento do consumidor em cada mercado.
Por que a eliminação de uma seleção afeta as cervejarias?
A permanência de uma seleção na Copa prolonga o número de partidas assistidas pelos torcedores, aumentando o consumo em bares, restaurantes e reuniões em casa. Com menos jogos, há menos ocasiões de consumo, reduzindo parte do impulso sazonal nas vendas de cerveja.
Por que isso importa para o investidor
Para empresas de consumo, grandes eventos esportivos costumam funcionar como catalisadores temporários de receita. No entanto, esse efeito depende diretamente do engajamento do público ao longo da competição.
Quando seleções de mercados estratégicos permanecem vivas até as semifinais ou à decisão, o período de consumo elevado se prolonga por várias semanas. Em contrapartida, eliminações precoces reduzem rapidamente o número de ocasiões de consumo, afetando principalmente bares, restaurantes e compras para encontros entre amigos e familiares.
É justamente esse comportamento que o Morgan Stanley considera em seus modelos de projeção.
Embora o impacto estimado seja relativamente pequeno diante da dimensão global das companhias, ele ajuda a explicar como fatores aparentemente distantes do mercado financeiro podem influenciar indicadores operacionais de empresas multinacionais.
Para os acionistas da AB InBev, da Ambev e da Heineken, a temporada de resultados mostrará se a eliminação precoce de Brasil, México e Estados Unidos ficou restrita ao campo esportivo ou se também deixou marcas perceptíveis nas vendas de cerveja durante um dos trimestres mais importantes do ano para o setor.
A confirmação dessa tese dependerá dos resultados trimestrais. Caso os volumes vendidos permaneçam resilientes, outros fatores — como clima, inflação, preços ou ganho de participação de mercado — poderão compensar o efeito negativo da Copa. Por outro lado, uma desaceleração acima do esperado reforçaria a leitura apresentada pelo Morgan Stanley.



