Presidente do Bradesco faz alerta sobre juros: sem ajuste das contas públicas, crédito continuará caro para empresas e famílias

Luiz Carlos Trabuco afirma que política fiscal e política monetária precisam caminhar na mesma direção para permitir a queda sustentável dos juros. A declaração reforça um debate que vai muito além do mercado financeiro: o custo do crédito, dos financiamentos e da dívida pública depende da confiança nas contas do governo.

O alerta de Trabuco vai muito além da Selic

Quando Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, afirmou que o Brasil precisará conviver com juros elevados caso política fiscal e política monetária permaneçam desalinhadas, sua declaração não foi apenas uma opinião sobre a economia. Ela resume um dos principais dilemas enfrentados pelo país nos últimos anos.

Durante a conferência Brasil em Pauta Nova York, realizada na abertura da Brazil Week no início de junho, o executivo afirmou que um juro real próximo de 10% é “proibitivo” para empresas, consumidores e para o próprio Tesouro Nacional.

Na prática, Trabuco chamou atenção para um mecanismo frequentemente ignorado fora do mercado financeiro: o Banco Central controla apenas uma parte da economia. A outra parte depende da política fiscal conduzida pelo governo federal.

Quando essas duas políticas caminham em sentidos opostos, a redução dos juros torna-se muito mais difícil, mesmo que a inflação esteja desacelerando.

É justamente essa combinação que investidores acompanham diariamente ao definir quanto cobrar para financiar o governo brasileiro.

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Por que a política fiscal interfere diretamente nos juros

Muitos brasileiros acreditam que a Selic depende exclusivamente das decisões do Banco Central. Na realidade, a taxa básica responde também ao comportamento das contas públicas.

Sempre que o governo Lula gasta mais do que arrecada, precisa emitir novos títulos públicos para financiar esse déficit.

Quanto maior o volume de dívida colocado no mercado, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores para emprestar dinheiro ao governo. Neste caso o prêmio é o que paga o risco do investidor, mais risco maior prêmio.

Esse prêmio de risco acaba contaminando toda a economia.

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Os títulos públicos servem como referência para praticamente todas as operações financeiras do país. Bancos utilizam essa taxa para precificar empréstimos, financiamentos imobiliários, crédito empresarial e diversas modalidades de investimento.

Em outras palavras, uma deterioração fiscal não afeta apenas o Tesouro Nacional. Ela aumenta o custo do dinheiro para toda a economia.

Por isso economistas costumam dizer que política fiscal expansionista e juros baixos dificilmente convivem durante longos períodos sem gerar pressões inflacionárias ou aumento da percepção de risco.

O que significa um juro real de aproximadamente 10%

A maior parte da população acompanha apenas a taxa Selic nominal divulgada pelo Banco Central.

Entretanto, profissionais do mercado observam principalmente o chamado juro real, que corresponde à remuneração acima da inflação esperada.

É esse indicador que determina o verdadeiro custo do capital, ou seja, do dinheiro.

Quando Trabuco afirma que um juro real próximo de 10% é proibitivo, ele está dizendo que o retorno exigido para investir no Brasil está entre os mais elevados das grandes economias.

Na prática, isso produz diversos efeitos:

  • empresas adiam projetos de expansão;
  • novas fábricas deixam de ser construídas;
  • investimentos produtivos tornam-se menos rentáveis;
  • consumidores postergam compras financiadas;
  • pequenas empresas encontram maior dificuldade para acessar crédito.

O efeito não aparece apenas no mercado financeiro. Ele reduz o ritmo da atividade econômica como um todo.

Quanto maior o custo do dinheiro, menor tende a ser o investimento privado, principal motor do crescimento sustentável de longo prazo.

À primeira vista, pode parecer contraditório um grande banco defender juros menores, já que instituições financeiras costumam ampliar receitas financeiras em períodos de taxas elevadas. Entretanto, bancos também dependem de uma economia dinâmica para expandir crédito, aumentar concessões, reduzir inadimplência e elevar receitas com serviços. Em um ambiente de juros estruturalmente menores e crescimento consistente, o volume de negócios tende a compensar margens financeiras menores.

O tamanho da conta que o mercado acompanha

Quando o mercado financeiro fala em responsabilidade fiscal, o foco não está apenas no resultado do orçamento anual, mas principalmente na trajetória da dívida pública. Na gestão de Lula isto vem extrapolando todos os recordes anteriores.

Os dados mais recentes do Banco Central mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 81,1% do PIB em maio de 2026, acima dos 80,2% registrados em abril e também acima da expectativa do mercado. Pela metodologia utilizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que considera um conjunto mais amplo de passivos do Tesouro, esse indicador chega a 94,3% do PIB, colocando o Brasil acima da média das economias emergentes acompanhadas pelo organismo internacional.

Na prática, quanto maior a percepção de crescimento da dívida, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando toda a estrutura de juros da economia.

O custo dos juros já pesa nas contas públicas

Além do crescimento da dívida, outro indicador observado diariamente pelo mercado é a despesa com juros.

Em maio, o setor público desembolsou R$ 107,5 bilhões apenas com pagamentos nominais de juros. No acumulado de doze meses, essa conta chegou ao equivalente a 8,48% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior percentual registrado desde 2016, período marcado por forte recessão econômica e deterioração fiscal.

Esse aumento cria um efeito circular: juros elevados ampliam o custo da dívida pública, enquanto uma dívida crescente dificulta a redução sustentável dos próprios juros.

É justamente esse mecanismo que explica por que investidores acompanham simultaneamente as decisões do Banco Central e a condução da política fiscal.

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O próprio Tesouro reconhece o desafio fiscal

O debate sobre responsabilidade fiscal não se restringe ao mercado financeiro.

Em seu relatório mais recente de projeções fiscais, o próprio Tesouro Nacional reconheceu que, sem novas medidas de ajuste, as metas fiscais atualmente previstas passam a se tornar inviáveis a partir de 2028, mesmo considerando o congelamento máximo das despesas discricionárias permitido pelas regras atuais.

Segundo o órgão, o crescimento das despesas obrigatórias — como Previdência, benefícios sociais e pisos constitucionais para saúde e educação — tende a reduzir progressivamente o espaço do orçamento para investimentos e outras despesas discricionárias.

Para o mercado, esse diagnóstico reforça a percepção de que o controle das contas públicas continuará sendo um dos principais fatores para a trajetória futura dos juros.

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Por que um banqueiro defende juros menores?

À primeira vista, pode parecer contraditório que o presidente do conselho de um dos maiores bancos do país defenda juros mais baixos.

Na prática, porém, bancos não dependem apenas de margens financeiras elevadas. O crescimento sustentável do setor também exige expansão do crédito, maior investimento privado, redução da inadimplência e aumento da atividade econômica.

Em um ambiente de juros estruturalmente elevados, empresas adiam projetos, consumidores reduzem a demanda por financiamentos e o volume de novas operações de crédito tende a crescer em ritmo menor.

Por isso, instituições financeiras costumam defender um cenário em que a redução dos juros ocorra de forma sustentável, sustentada por inflação controlada e maior previsibilidade das contas públicas, e não por cortes artificiais da taxa básica.

VEJA O INFOGRÁFICO DA TRAJETÓRIA DOS JUROS:

juros
Selic ao longo do tempo: Fonte Banco Central

Como o problema chega ao bolso do trabalhador

O impacto dos juros elevados não fica restrito aos grandes bancos ou ao Tesouro Nacional.

Ele aparece diariamente na vida das famílias.

Quando a estrutura de juros permanece elevada durante muito tempo, instituições financeiras aumentam o custo de diversas linhas de crédito.

Entre elas:

  • financiamento imobiliário;
  • crédito para veículos;
  • capital de giro das empresas;
  • empréstimos pessoais;
  • crédito consignado;
  • financiamentos para pequenos negócios.

Empresas também repassam parte desse aumento para os preços finais de produtos e serviços.

Além disso, projetos de expansão são adiados, reduzindo contratações, investimentos e geração de renda.

Em outras palavras, uma política fiscal considerada pouco sustentável pode produzir efeitos indiretos sobre emprego, salários, consumo e crescimento econômico.

É justamente por isso que o debate fiscal deixou de ser um tema restrito aos economistas e passou a influenciar diretamente o cotidiano das famílias brasileiras.

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O que o mercado realmente observa antes de reduzir as apostas em juros

Embora as decisões do Comitê de Política Monetária sejam amplamente acompanhadas, investidores profissionais olham primeiro para outro indicador: a trajetória das contas públicas.

O mercado procura responder algumas perguntas fundamentais.

O governo conseguirá estabilizar o crescimento da dívida?

As despesas obrigatórias continuarão aumentando acima da arrecadação?

Será necessário emitir mais títulos públicos nos próximos anos?

As metas fiscais possuem credibilidade suficiente?

As respostas influenciam diretamente a curva futura de juros.

Mesmo antes de qualquer decisão oficial do Banco Central, contratos negociados diariamente já incorporam essas expectativas.

É por isso que anúncios fiscais frequentemente provocam movimentos imediatos no dólar, na Bolsa e nos juros futuros.

Em muitos casos, a reação do mercado ocorre antes mesmo de qualquer impacto efetivo sobre a economia.

O que precisa acontecer para os juros caírem de forma sustentável

A experiência brasileira mostra que reduzir juros apenas por decisão administrativa dificilmente produz resultados duradouros.

Para que a taxa básica permaneça em níveis estruturalmente menores, economistas costumam apontar alguns requisitos.

O primeiro deles é maior previsibilidade fiscal.

Quando investidores acreditam que a dívida pública permanecerá controlada ao longo dos próximos anos, o prêmio de risco tende a diminuir.

O segundo é a manutenção das expectativas de inflação próximas da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

O terceiro envolve credibilidade institucional.

Mercados financeiros reagem não apenas aos números atuais, mas principalmente à confiança de que regras fiscais, metas e compromissos serão mantidos no futuro.

É justamente esse ambiente que permite ao Banco Central reduzir juros sem elevar significativamente o risco inflacionário.

Na ausência desses fatores, cortes agressivos da Selic costumam gerar desvalorização cambial, aumento das expectativas de inflação e necessidade posterior de novas altas de juros.

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O que o investidor deve entender da declaração do presidente do Bradesco

A fala de Luiz Carlos Trabuco não representa uma previsão de que os juros permanecerão elevados indefinidamente.

Ela funciona como um alerta sobre a relação entre confiança fiscal da gestão Lula e custo do dinheiro.

Na visão predominante entre economistas e participantes do mercado, o Brasil possui espaço para conviver com juros menores no longo prazo. No entanto, esse movimento depende menos da vontade do Banco Central e mais da percepção de que as contas públicas caminham para uma trajetória sustentável.

Enquanto persistirem dúvidas sobre o equilíbrio fiscal, investidores continuarão exigindo remuneração maior para financiar a dívida pública, pressionando toda a estrutura de crédito da economia.

Para empresas, isso significa investimentos mais caros. Para famílias, financiamentos mais elevados. Para o Tesouro Nacional, aumento da despesa com juros. E para o crescimento econômico, um ambiente menos favorável à expansão da atividade produtiva.

É essa cadeia de efeitos que explica por que a declaração de um dos principais executivos do sistema financeiro brasileiro repercute muito além do setor bancário. No fim da conta, a discussão sobre política fiscal e juros não diz respeito apenas ao mercado — ela influencia diretamente quanto custa comprar uma casa, financiar um carro, abrir uma empresa ou investir no próprio país.

A mensagem deixada por Trabuco não é apenas um comentário sobre política econômica. Ela sintetiza um princípio observado diariamente pelo mercado financeiro: enquanto investidores enxergarem risco crescente nas contas públicas, o custo do dinheiro continuará elevado. Nesse cenário, o impacto não se limita aos bancos ou ao governo. Ele alcança famílias, empresas, investidores e toda a economia por meio de financiamentos mais caros, menor investimento produtivo e crescimento mais lento. É por isso que o debate sobre responsabilidade fiscal deixou de ser um tema restrito aos economistas e passou a influenciar diretamente o bolso do brasileiro.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
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