Transparência Internacional e mais 21 países acionam OCDE para que cobre do STF julgamento sobre provas da Odebrecht na operação Lava Jato anuladas por Toffoli

Três anos após decisão do ministro do STF, 30 organizações de 21 países pedem intervenção institucional da OCDE para pressionar pelo julgamento dos recursos

A anulação das provas da Odebrecht pelo ministro Dias Toffoli ganhou uma dimensão internacional. A Transparência Internacional e outras 29 organizações de 21 países acionaram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para cobrar uma resposta sobre os efeitos da decisão e pressionar pelo julgamento dos recursos que permanecem pendentes no Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento ocorre três anos depois da decisão monocrática que atingiu elementos dos sistemas Drousys e My Web Day B, utilizados nas investigações de corrupção envolvendo a empreiteira.

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O que mudou agora

O ponto novo não é a decisão de Toffoli, tomada em setembro de 2023. É o fato de uma controvérsia judicial brasileira ter se transformado em questão de cooperação internacional anticorrupção.

A carta enviada à OCDE é assinada por 30 organizações de 21 países. As entidades alegam que os efeitos da decisão brasileira alcançaram investigações e processos em diferentes jurisdições e pedem que o organismo acompanhe o caso.

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O impasse no STF

A decisão de Toffoli declarou imprestáveis as provas provenientes dos sistemas Drousys e My Web Day B, com efeitos abrangentes. O próprio STF informou que a determinação alcançava provas utilizadas em qualquer âmbito ou grau de jurisdição.

Desde então, recursos contra a decisão foram apresentados pelo Ministério Público de São Paulo, pela Associação Nacional dos Procuradores da República e pela Procuradoria-Geral da República.

O ponto de maior peso institucional é que, segundo a Transparência Internacional, esses recursos ainda aguardam análise colegiada.

Ou seja: três anos depois, os efeitos de uma decisão de enorme alcance continuam produzindo consequências enquanto a contestação ainda não recebeu uma definição definitiva do colegiado.

O documento foi encabeçado pela ONG Transparência Internacional e encaminhado a Kathleen Roussel, presidente do Grupo de Trabalho sobre Suborno da OCDE, no dia 6 de setembro.

Entre os signatários, há organizações de nove países que fazem parte da Convenção Antissuborno da entidade.

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A carta foi enviada no dia em que a decisão de Toffoli completou três anos. Em setembro de 2023, o ministro declarou imprestáveis as provas obtidas a partir do acordo de leniência firmado entre a Odebrecht e autoridades brasileiras.

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O dinheiro por trás da disputa

O caso também envolve bilhões de reais.

O acordo de leniência firmado em 2018 entre a Odebrecht, a CGU e a AGU estabeleceu pagamentos de R$ 2,727 bilhões ao Estado brasileiro e outros compromissos relacionados à reparação de danos e ilícitos.

A discussão sobre as provas, portanto, não diz respeito apenas a condenações criminais. Ela também alcança recuperação de ativos, acordos de leniência e cooperação entre autoridades de diferentes países.

“Na prática, isso desmontou o maior e mais bem documentado caso de corrupção transnacional já registrado, provocando anulações em massa no Brasil e no exterior, obstruindo a assistência jurídica mútua e até mesmo revertendo resultados de recuperação de ativos” afirmam as entidades, em tradução livre.

O alcance internacional

Segundo as entidades que recorreram à OCDE, decisões relacionadas à invalidação das provas beneficiaram pelo menos 28 pessoas e empresas em oito países.

Esse efeito é particularmente relevante porque o caso Odebrecht envolveu suspeitas de suborno transnacional e investigações conduzidas por autoridades estrangeiras.

Mas há um contraponto importante: uma decisão do STF não obriga automaticamente tribunais estrangeiros a descartar provas.

A própria existência de decisões internacionais que não seguiram o entendimento brasileiro mostra que cada jurisdição pode avaliar autonomamente a validade dos elementos utilizados em seus processos.

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O que ninguém está discutindo

O debate costuma ser reduzido a uma disputa entre críticos e defensores da Lava Jato.

A questão mais importante é outra:

qual é o grau de segurança jurídica de um acordo de leniência quando informações entregues ao Estado podem posteriormente ter sua utilização invalidada por uma decisão judicial de alcance amplo?

A resposta interessa tanto ao combate à corrupção quanto às empresas que negociam acordos com o poder público.

Se a leniência perde previsibilidade, o Estado pode ter mais dificuldade para obter colaboração voluntária em futuras investigações complexas.

O contraponto da OCDE

Há, porém, um dado que impede conclusões exageradas.

Em seu acompanhamento mais recente sobre o Brasil, a própria OCDE registrou a controvérsia envolvendo a Odebrecht, mas avaliou que os problemas relacionados à anulação das provas estavam ligados às circunstâncias específicas daquele caso e não significavam, por si só, a quebra do marco jurídico geral dos acordos de leniência brasileiros.

Isso coloca a discussão no lugar correto: não se trata de afirmar que todo o sistema de leniência foi destruído, mas de questionar os efeitos e a duração da incerteza criada em torno de um dos maiores casos de corrupção empresarial já investigados no país.

A questão que permanece

A pressão internacional não transforma a OCDE em instância de recurso do STF. A organização não pode revogar a decisão de Toffoli.

Pode, entretanto, cobrar explicações e acompanhar os impactos do caso sobre os compromissos assumidos pelo Brasil no combate ao suborno transnacional.

No fim, a questão central permanece dentro do próprio STF:

três anos depois, quando o colegiado dará uma resposta definitiva sobre uma decisão monocrática que continua produzindo efeitos no Brasil e repercussões fora dele?

É essa resposta que poderá definir não apenas o destino das provas da Odebrecht, mas também o grau de previsibilidade jurídica dos mecanismos brasileiros de combate à corrupção.

Decisão: 6 de setembro de 2023, Dias Toffoli.

Provas atingidas: sistemas Drousys e My Web Day B.

Acordo de leniência: R$ 2,727 bilhões.

Pressão internacional: 30 organizações de 21 países.

Recursos pendentes: MP-SP, ANPR e PGR, segundo a Transparência Internacional.

Dimensão internacional: pelo menos 28 pessoas e empresas em oito países, segundo as entidades que acionaram a OCDE.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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