O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma resolução que proíbe a oferta e negociação de contratos baseados em eventos esportivos, políticos e de entretenimento em plataformas de mercados preditivos no Brasil.
A medida foi divulgada pelo Banco Central do Brasil em abril de 2026. A norma entra em vigor em 4 de maio de 2026.
Na prática, a decisão atinge plataformas como Kalshi e Polymarket, proibindo contratos sobre eleições, jogos, reality shows e outros eventos não econômicos.
A regulamentação detalhada e a fiscalização caberão à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O que o CMN proibiu nos mercados preditivos?
O CMN proibiu, a partir de 4 de maio de 2026, a negociação de contratos baseados em eventos não econômicos — como eleições, esportes e entretenimento — em plataformas de mercado preditivo. Permanecem permitidos apenas contratos ligados a indicadores econômicos e financeiros, como inflação, juros, câmbio e commodities.
O que muda na prática
A nova regra cria um corte claro:
Proibido
- Apostas sobre eleições
- Resultados de jogos esportivos
- Reality shows e entretenimento
- Eventos sociais ou culturais
Permitido
- Inflação
- Taxa de juros
- Câmbio
- Commodities
- Ações e ativos financeiros
Ou seja: o mercado preditivo passa a ser tratado como instrumento financeiro, não como aposta.
Para facilitar a visualização, veja abaixo o resumo do que é permitido e proibido pela nova regra do Conselho Monetário Nacional:
| Categoria | Permitido | Proibido |
|---|---|---|
| Indicadores econômicos | Inflação, juros, câmbio | — |
| Mercado financeiro | Ações, commodities, crédito | — |
| Política | — | Eleições e eventos políticos |
| Esportes | — | Resultados de jogos |
| Entretenimento | — | Reality shows e eventos culturais |
Bet vs. mercado preditivo: entenda a diferença
Apesar da semelhança, os modelos são distintos:
Casas de apostas (bets)
- Usuário aposta contra a plataforma
- Retorno fixo
- A “casa” assume o risco
Mercados preditivos
- Usuário compra contratos de “sim” ou “não”
- Preços variam como ações
- Negociação entre participantes
Esse modelo se aproxima de derivativos financeiros, usados para proteção contra oscilações de mercado.
LEIA TAMBÉM: EUA contestam anúncios do governo Lula sobre cooperação e veem “exagero”
Por que o governo decidiu proibir
A decisão do Conselho Monetário Nacional indica três objetivos principais:
- Evitar a mistura entre investimento e aposta
- Reduzir riscos de manipulação (especialmente em eleições)
- Proteger o sistema financeiro de instrumentos especulativos não regulados

Impacto no Brasil
- Plataformas globais podem restringir ou encerrar operações no país
- Investidores perdem acesso a apostas disfarçadas de “ativos”
- Mercado financeiro tradicional ganha mais segurança regulatória
Por outro lado, contratos ligados à economia podem ganhar mais legitimidade.
Contraponto: mercado vê proteção… mas também risco de atraso
Embora a medida do Conselho Monetário Nacional seja vista como um avanço regulatório, ela não é consenso entre especialistas.
Argumentos a favor da proibição
Reguladores e parte do mercado defendem que a decisão:
- evita a “financeirização” de apostas
- reduz riscos de manipulação, especialmente em eleições
- protege investidores de produtos com alto grau especulativo
- separa claramente investimento de jogo
Esse alinhamento aproxima o Brasil de uma postura mais conservadora de supervisão.
Críticas e riscos apontados
Por outro lado, analistas e participantes do setor levantam preocupações relevantes:
- Perda de inovação financeira: mercados preditivos são usados globalmente para sinalizar probabilidades e antecipar tendências
- Fuga de plataformas: empresas como Kalshi e Polymarket podem restringir acesso ao Brasil
- Migração para mercado informal: usuários podem buscar alternativas fora do ambiente regulado
- Menor eficiência informacional: esses mercados agregam expectativas de forma rápida, algo valorizado por investidores
Em outras palavras: ao restringir demais, o país pode abrir mão de um instrumento que, em tese, ajuda a “precificar o futuro”.
Como o mundo trata o tema
O debate não é exclusivo do Brasil:
- Nos EUA, plataformas enfrentam disputas regulatórias sobre o que é aposta vs. derivativo
- Em mercados com regras mais flexíveis, contratos sobre eventos diversos ainda são permitidos
- Reguladores globais também enfrentam o mesmo dilema: inovação vs. proteção
O que são mercados preditivos (guia rápido)
Os mercados preditivos são plataformas que permitem negociar contratos baseados na probabilidade de um evento acontecer no futuro.
Na prática, funcionam como um “mercado de previsões”, onde os participantes compram posições de “sim” ou “não” para determinados acontecimentos.
Por exemplo:
um contrato pode perguntar se a inflação vai superar determinado nível ou se a taxa de juros vai subir. O preço desse contrato varia conforme a percepção do mercado — quanto maior a probabilidade, maior o valor.
Como funcionam na prática
- Cada evento gera um contrato (ex: inflação acima de 5%)
- Usuários compram ou vendem posições
- O preço reflete a probabilidade percebida
- No vencimento, o contrato paga conforme o resultado real
Esse modelo se aproxima de instrumentos financeiros negociados no mercado tradicional.
Por que se parecem com derivativos
Assim como contratos futuros e opções, os mercados preditivos permitem:
- proteção contra riscos (hedge)
- antecipação de cenários econômicos
- formação de preços baseada em expectativas
Por isso, entram na área de atuação de reguladores como o Conselho Monetário Nacional e a Comissão de Valores Mobiliários.
Onde está a polêmica
O ponto central do debate é que esses mercados podem assumir dois papéis diferentes:
- Ferramenta financeira legítima
quando usados para prever inflação, juros ou indicadores econômicos - Aposta disfarçada de investimento
quando envolvem eleições, esportes ou entretenimento
É justamente essa linha que a nova regra tenta separar.
Por que isso importa para o investidor
Mesmo com as restrições, os mercados preditivos continuam relevantes porque:
- ajudam a entender expectativas do mercado
- funcionam como termômetro econômico
- podem influenciar decisões de investimento
Resumo rápido
Mercados preditivos são plataformas onde usuários negociam contratos baseados na probabilidade de eventos futuros. Eles funcionam de forma semelhante a ativos financeiros, com preços variando conforme as expectativas do mercado.
VEJA TAMBÉM: Lula soma 16 dias fora do Brasil em 2026 em quatro meses e gastos — o…
Casos internacionais: EUA no centro do debate regulatório
O embate entre inovação e regulação nos mercados preditivos já é realidade em economias avançadas — especialmente nos Estados Unidos.
Disputa regulatória: quem manda?
Nos EUA, há uma divisão clara de competências:
- A Commodity Futures Trading Commission regula contratos futuros e derivativos
- A Securities and Exchange Commission supervisiona valores mobiliários
O problema: mercados preditivos ficam na zona cinzenta entre aposta e derivativo.
Caso Kalshi: autorizado, mas sob pressão
A Kalshi é hoje o principal exemplo regulado nos EUA:
- É registrada junto à Commodity Futures Trading Commission
- Pode operar contratos baseados em eventos reais
- Já lançou mercados sobre inflação, taxa de juros e até clima
Dado relevante: contratos econômicos (como inflação) são considerados legítimos porque têm utilidade para hedge e precificação.
Porém, quando tentou avançar para contratos políticos (como eleições), enfrentou forte resistência regulatória.
Abaixo veja o infográfico com as diferenças regulatórias do mercado preditivo Brasil x EUA:

Eleições: linha vermelha nos EUA
A Commodity Futures Trading Commission já sinalizou oposição a contratos ligados a eleições, com argumentos como:
- risco de manipulação de processos democráticos
- incentivo financeiro a interferências
- dificuldade de supervisão
Resultado: o tema segue em disputa, com decisões judiciais e pressão política.
Caso Polymarket: descentralização vs. regulação
A Polymarket representa o outro lado:
- Opera via blockchain, fora do modelo tradicional
- Ganhou popularidade com apostas sobre eleições e eventos globais
- Já enfrentou ações regulatórias nos EUA
Em 2022, a plataforma fez acordo com reguladores americanos para encerrar determinados mercados e ajustar operações.
Mesmo assim, continua sendo amplamente usada — muitas vezes fora de jurisdições restritivas.
O que os dados mostram
Estudos acadêmicos e de mercado apontam que:
- mercados preditivos podem ser mais precisos que pesquisas tradicionais em alguns cenários
- funcionam como mecanismo de agregação de informação
- são usados por empresas para prever demanda, vendas e riscos
Mas essa eficiência vem acompanhada de um problema: quanto mais sensível o evento, maior o risco regulatório.
O que isso significa para o Brasil
A decisão do Conselho Monetário Nacional segue uma tendência internacional:
- liberar contratos com utilidade econômica clara
- restringir eventos com risco político, social ou manipulável
Em outras palavras, o Brasil não está isolado — está alinhado ao núcleo mais cauteloso da regulação global.
Insight estratégico
O padrão global que emerge é claro:
Mercados preditivos são aceitos quando funcionam como instrumentos financeiros — e rejeitados quando se aproximam de apostas.
Dúvidas Frequentes
O Banco Central proibiu mercados preditivos?
Não. A norma foi criada pelo Conselho Monetário Nacional e apenas divulgada pelo Banco Central do Brasil. O que foi proibido são contratos sobre eventos não econômicos.
Mercados preditivos vão acabar no Brasil?
Não. Eles continuam permitidos, desde que estejam ligados a indicadores econômicos e financeiros.
Posso apostar em eleições ou esportes nesses mercados?
Não. A partir de 4 de maio de 2026, esse tipo de contrato está proibido.
Quem vai fiscalizar as plataformas?
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) será responsável por regulamentar e fiscalizar.
Qual a diferença entre bets e mercado preditivo?
Bets têm retorno fixo contra a casa. Já mercados preditivos funcionam como negociação de contratos com preços variáveis, semelhantes a ativos financeiros.
A nova resolução do Conselho Monetário Nacional redefine os limites dos mercados preditivos no Brasil e envia um sinal claro ao mercado:








