Juros e spread bancário recuaram em julho, mas a inadimplência no crédito livre atingiu 6,4%, maior nível da série histórica do Banco Central. A combinação revela que o problema do endividamento brasileiro pode estar migrando do preço do dinheiro para a capacidade de pagamento de famílias e empresas.
O sistema financeiro brasileiro terminou julho com uma contradição que merece muito mais atenção do que o simples recorde da inadimplência.
O crédito ficou um pouco mais barato, mas ficou mais difícil de pagar.
A taxa média cobrada pelos bancos nas operações com recursos livres caiu 2 pontos percentuais no mês, para 47,7% ao ano. O spread bancário também recuou, de 35,7 para 33,8 pontos percentuais.
Mesmo assim, a inadimplência avançou de 6,0% para 6,4%, atingindo o maior nível da série histórica iniciada pelo Banco Central em março de 2011.
É justamente essa combinação que transforma o dado de julho em um sinal econômico relevante.
Se o problema fosse apenas o custo do dinheiro, uma redução dos juros deveria, ao menos em parte, aliviar a pressão sobre os tomadores.
Mas não foi isso que aconteceu.
A inadimplência continuou subindo mesmo com a redução das taxas.
O problema pode estar além dos juros
O debate sobre o crédito brasileiro costuma começar e terminar na mesma pergunta: quanto os bancos estão cobrando?
O dado de julho sugere que essa explicação já não é suficiente.
Uma taxa média de 47,7% ao ano no crédito livre continua extremamente elevada. Portanto, o custo financeiro permanece um problema.
Mas existe uma diferença importante entre uma dívida cara e uma dívida que o tomador já não consegue pagar.
Quando uma família ou empresa chega ao limite de sua capacidade financeira, uma pequena redução dos juros não necessariamente resolve o problema.
A dívida acumulada continua existindo.
As parcelas continuam vencendo.
As despesas correntes continuam consumindo renda.
E o tomador pode estar utilizando uma nova operação de crédito não para investir ou ampliar o consumo, mas simplesmente para reorganizar dívidas anteriores.
É aí que o recorde de julho ganha outra dimensão.
O risco não está apenas no preço do crédito. Está na capacidade de pagamento de quem tomou esse crédito.
R$ 7,37 trilhões: o tamanho importa, mas a qualidade importa ainda mais
O estoque total de crédito do sistema financeiro alcançou R$ 7,372 trilhões em julho, alta de 0,3% sobre junho.
É uma cifra gigantesca.
Mas o tamanho do estoque, isoladamente, não diz se o sistema está saudável.
Uma economia pode ter uma grande quantidade de crédito porque famílias e empresas estão investindo, aumentando produção e antecipando renda futura.
Também pode ter uma grande quantidade de crédito porque consumidores e empresas estão recorrendo ao sistema financeiro para financiar despesas e dificuldades acumuladas.
A diferença está na capacidade de pagamento.
E é justamente nesse ponto que o recorde de inadimplência chama atenção.
Quanto maior o estoque de crédito, maior também a importância de acompanhar a qualidade desse crédito.
Se o volume continua crescendo enquanto a parcela de operações em atraso aumenta, o mercado precisa olhar menos para o tamanho da carteira e mais para o risco existente dentro dela.
O crédito novo também perdeu força
Outro dado importante reforça essa leitura.
As concessões totais de empréstimos recuaram 1,6% em julho na comparação com o mês anterior.
Nas operações com recursos livres, a queda foi ainda maior: 1,9%.
Já as concessões com recursos direcionados, que seguem parâmetros estabelecidos pelo governo, avançaram 1,0%.
Essa diferença é importante porque mostra que a fraqueza não está distribuída igualmente por todo o mercado de crédito.
No segmento livre, em que bancos e clientes negociam as condições das operações, houve simultaneamente queda nas novas concessões e aumento da inadimplência.
Isso pode indicar uma combinação de menor demanda por crédito, maior seletividade das instituições financeiras ou deterioração da capacidade financeira de parte dos tomadores.
Nenhuma dessas hipóteses, isoladamente, pode ser comprovada pelo dado mensal.
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A contradição que o mercado não deveria ignorar
Há uma aparente boa notícia nos números.
Os juros caíram.
O spread caiu.
Isso significa que o custo médio das novas operações de crédito livre diminuiu.
Mas existe uma diferença fundamental entre melhorar o preço do crédito novo e resolver o problema de quem já está endividado.
Quem está inadimplente não começa do zero a cada mês.
Existe um passivo acumulado.
Pode haver renegociação.
Pode haver juros e encargos anteriores.
Pode existir comprometimento elevado da renda.
Por isso, uma redução das taxas médias não necessariamente produz uma reversão imediata da inadimplência.
O Banco Central pode registrar uma melhora no preço do crédito enquanto famílias e empresas continuam enfrentando dificuldade para pagar as dívidas contratadas no passado.
É essa defasagem que torna o dado especialmente relevante.

O efeito dominó pode chegar à economia real
Inadimplência não é apenas um problema entre banco e cliente.
Quando uma família compromete parcela excessiva da renda com dívidas, sobra menos dinheiro para consumo.
Quando uma empresa enfrenta dificuldade para pagar seus empréstimos, sobra menos espaço para capital de giro, contratação, investimento e expansão.
O problema pode então atravessar o sistema financeiro e chegar à economia real.
O mecanismo é conhecido:
mais endividamento → maior comprometimento da renda → menor consumo e investimento → menor geração de caixa → maior dificuldade de pagamento.
Isso não significa que esse ciclo já esteja instalado em toda a economia brasileira.
O dado de julho, sozinho, não permite essa conclusão.
Mas mostra que a inadimplência já alcançou um ponto historicamente elevado, tornando a evolução dos próximos meses especialmente importante.
E os bancos também entram na equação
O aumento da inadimplência também cria consequências para as próprias instituições financeiras.
Operações que deixam de ser pagas exigem maior esforço de cobrança, renegociação e recuperação.
Quando o risco de perda aumenta, os bancos precisam considerar esse cenário na gestão de suas carteiras.
Isso pode influenciar a disposição de conceder novos empréstimos.
E surge uma consequência potencialmente perversa:
quanto maior o risco percebido, maior tende a ser a seletividade do crédito.
Os melhores tomadores continuam conseguindo financiamento.
Os mais endividados podem encontrar mais dificuldade justamente quando mais precisam de uma alternativa para reorganizar suas finanças.
O resultado pode ser um mercado de crédito cada vez mais dividido entre quem ainda possui capacidade de pagamento e quem já está próximo do limite.
O que realmente merece ser acompanhado daqui para frente
O recorde de 6,4% não permite afirmar que o Brasil esteja entrando em uma crise de crédito.
Seria uma conclusão precipitada.
Mas ele estabelece um novo nível de atenção.
Três movimentos serão particularmente importantes nos próximos meses.
Primeiro: a inadimplência.
Se continuar subindo, ficará mais difícil tratar o resultado de julho como um episódio isolado.
Segundo: as concessões de crédito livre.
Novas quedas podem indicar maior cautela dos bancos, menor demanda solvente ou uma combinação dos dois fatores.
Terceiro: o estoque de crédito.
Se continuar crescendo enquanto a inadimplência também avança, a discussão deixará de ser simplesmente quanto crédito o sistema financeiro está fornecendo e passará a ser qual é a qualidade desse crédito.
Essa é uma diferença fundamental.
O Brasil não precisa apenas de mais crédito
Durante anos, o crescimento do crédito foi associado à expansão do consumo, do investimento e da atividade econômica.
Mas crédito só funciona como motor de crescimento quando consegue ser pago.
Quando a dívida cresce mais rapidamente do que a capacidade de geração de renda, o mecanismo pode se inverter.
O crédito que antes impulsionava o consumo passa a consumir renda futura.
O empréstimo que deveria financiar investimento pode virar uma obrigação financeira.
E a parcela que antes antecipava uma compra pode começar a impedir outras compras.
É por isso que o recorde de julho merece ser lido para além da manchete.
O Brasil tem R$ 7,372 trilhões em crédito no sistema financeiro. Mas o dado mais importante não é apenas quanto dinheiro foi emprestado. É quanto desse dinheiro os tomadores ainda conseguem pagar.
E os números de julho trouxeram uma resposta preocupante.
Os juros caíram.
O spread caiu.
Mas a inadimplência subiu para o maior nível da série histórica.
Isso sugere que o próximo capítulo do problema do crédito brasileiro pode não ser determinado apenas pelo preço do dinheiro.
Pode ser determinado pelo limite da renda de quem precisa pagar a conta.



