Mensagens mostram que pedido passou pelo escritório de Viviane Barci de Moraes e chegou diretamente a Daniel Vorcaro; caso se soma ao contrato de R$ 131 milhões entre o banco e a banca da esposa do ministro
A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master revelou uma relação que vai além dos contatos entre o ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram que dois filhos de Moraes receberam autorização para cartões de crédito com limite de R$ 300 mil cada, totalizando R$ 600 mil em limite potencial.
O episódio ganha relevância porque o pedido não aparece nas mensagens como uma operação bancária convencional. A solicitação partiu de um representante do escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e chegou diretamente ao então controlador do Banco Master.
Vorcaro autorizou o prosseguimento.
A informação consta do material produzido pela Polícia Federal e tornado público depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo da investigação.
LEITURA SUGERIDA: Lula se cala enquanto chefe da PF Andrei Rodrigues é citado no caso Vorcaro: o escândalo que deixou de ser apenas de Moraes, envolve…
O caminho do pedido até o dono do banco
As mensagens permitem reconstruir a sequência da solicitação.
Em outubro de 2025, Guilherme, identificado como funcionário do escritório de Viviane Barci de Moraes, procurou Daniel Vorcaro.
A mensagem fazia referência aos cartões para Giuliana e Alexandre, filhos de Moraes, e perguntava a quem deveria recorrer para tratar da emissão.
Vorcaro encaminhou o contato de uma funcionária do Banco Master.
Na sequência, Adriana Solano, ligada ao banco, voltou a falar com Vorcaro para confirmar se poderia efetivar a emissão.
A mensagem registrada no material da investigação questionava:
“O Guilherme que trabalha com a dra. Viviane me ligou para emitir cartão para os filhos dela… Limite de 300 para cada… Posso seguir?”
A resposta atribuída a Vorcaro foi:
“Ok.”
É esse percurso que diferencia o episódio de uma simples notícia sobre cartões de crédito.
O pedido saiu do escritório da esposa do ministro, chegou ao controlador do banco, foi encaminhado a uma executiva da instituição e retornou a Vorcaro para autorização.
MAIS INFORMAÇÃO: Banco Master: PF revela que Vorcaro autorizou despesas para filho de Gonet em Londres; PGR foi indicado por Lula
R$ 600 mil em limite
Os dois cartões tinham limite individual de R$ 300 mil.
Na soma, a capacidade de crédito autorizada chegava a R$ 600 mil.
O número, entretanto, precisa ser lido corretamente: limite de cartão não equivale a dinheiro entregue ao titular.
O escritório Barci de Moraes confirmou a existência dos cartões e afirmou que eles não foram utilizados. Essa informação também aparece nas reportagens que tiveram acesso ao material.
O fato documentado pela investigação é a autorização para emissão dos cartões e os limites estabelecidos.
A eventual utilização é uma questão diferente.
LEIA TAMBÉM: “Conseguiu bloquear?”: CPMI liga mensagens a número do STF e pressiona por afastamento de Moraes
O escritório da esposa e o contrato milionário
A revelação dos cartões ocorre no mesmo contexto em que a PF analisou a relação comercial entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes.
A banca de Viviane Barci de Moraes mantinha um contrato milionário com o banco de Daniel Vorcaro.
O valor informado nos documentos e reportagens é de R$ 131 milhões.
A investigação também identificou registros digitais relacionados à elaboração da minuta contratual. Reportagens baseadas no material da PF apontaram que o ministro Alexandre de Moraes teria editado a versão do contrato encontrada no aparelho de Vorcaro.
O próprio escritório confirmou que Moraes foi consultado pelo setor de compliance da banca sobre a existência de eventuais impedimentos relacionados ao contrato.
A combinação dos dois episódios — um contrato de dezenas de milhões de reais e cartões de alto limite destinados aos filhos do ministro — passou a integrar o conjunto de fatos examinados na investigação.
Não são episódios isolados no material da PF
As mensagens reveladas pela investigação não se limitam aos cartões.
O material também expõe contatos entre Moraes e Vorcaro e outras situações envolvendo o banqueiro e pessoas próximas ao ministro.
A retirada do sigilo por André Mendonça permitiu que essas informações passassem a ser examinadas publicamente.
Entre os elementos divulgados estão mensagens em que Vorcaro buscava orientação de Moraes diante dos problemas enfrentados pelo Banco Master e da possibilidade de prisão.
A investigação também examinou relações envolvendo autoridades e pessoas ligadas ao banco.
O resultado é um conjunto de documentos que passou a colocar sob escrutínio a natureza da proximidade entre o banqueiro e integrantes do círculo familiar e profissional do ministro.
O que as mensagens acrescentam ao caso Master
O ponto mais relevante da revelação não está simplesmente no valor dos cartões.
Está na forma como a operação aparece nas mensagens.
Em uma operação bancária comum, o cliente solicita o produto, o banco avalia a operação e os procedimentos internos são cumpridos.
Neste caso, segundo o material da PF, a conversa registrada mostra um representante do escritório da esposa do ministro tratando diretamente com o controlador do banco sobre cartões destinados aos filhos de Alexandre de Moraes.
Depois, uma funcionária do próprio banco consulta Vorcaro antes de seguir com a emissão.
Isso deixa registrado quem participou da cadeia de comunicação e quem autorizou o prosseguimento.
São esses fatos, e não uma conclusão antecipada sobre sua legalidade, que agora integram a apuração.
A pergunta que o documento deixa
A revelação dos cartões cria uma questão objetiva para a investigação:
por que uma solicitação de cartões de crédito para os filhos de um ministro do STF chegou diretamente ao controlador de um banco que mantinha, simultaneamente, um contrato milionário com o escritório de advocacia de sua esposa?
A documentação divulgada pela PF permite reconstruir o caminho da solicitação.
Cabe às autoridades avaliar se a operação respeitou os procedimentos internos do Banco Master, quais foram as condições da concessão e se houve alguma consequência financeira ou institucional decorrente da relação.
O que está documentado
Até aqui, os elementos divulgados permitem estabelecer alguns fatos:
- os cartões foram solicitados para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes;
- o limite indicado nas mensagens era de R$ 300 mil para cada um;
- o pedido foi tratado por um representante do escritório Barci de Moraes;
- Daniel Vorcaro foi envolvido diretamente na conversa;
- uma funcionária do Banco Master consultou Vorcaro antes de prosseguir;
- Vorcaro autorizou a emissão;
- o escritório confirmou a existência dos cartões;
- o escritório afirmou que os cartões não foram utilizados;
- o escritório mantinha contrato milionário com o Banco Master;
- a PF encontrou registros relacionados à elaboração do contrato;
- André Mendonça retirou o sigilo da investigação e levou o caso para discussão no STF.
O caso agora está sob escrutínio público
A retirada do sigilo mudou o alcance da investigação.
O conteúdo que antes estava restrito aos autos passou a ser conhecido publicamente, enquanto o STF discute os desdobramentos das mensagens e da atuação de Mendonça no caso.
Ao mesmo tempo, a revelação dos cartões acrescenta uma nova dimensão ao caso Master.
Não se trata apenas das conversas entre um banqueiro investigado e um ministro do STF.
O material divulgado pela PF mostra uma cadeia que envolve o banco, o controlador da instituição, o escritório de advocacia da esposa do ministro e os filhos de Moraes da Suprema Corte, recebendo tratamento diferenciado porque?
O contrato de R$ 131 milhões e os cartões de R$ 300 mil por filho aparecem, portanto, dentro do mesmo universo de relações que passou a ser examinado após a apreensão do celular de Vorcaro.
Os documentos não encerram as perguntas.
Eles ampliam o número de perguntas que precisam ser respondidas.



