A saída definitiva da Bunge do setor sucroenergético brasileiro revela uma contradição que merece mais atenção do que o anúncio da venda de duas usinas: ao mesmo tempo em que o governo amplia artificialmente o mercado doméstico para o etanol, grandes grupos continuam reduzindo exposição, vendendo ativos ou reorganizando operações no setor.
Na terça-feira (1º), a Bunge anunciou um acordo para vender as usinas de etanol Rio Vermelho, em Junqueirópolis (SP), e Nova Unialco, em Guararapes (SP), à chinesa Cofco International. Juntas, as unidades têm capacidade para processar cerca de 7 milhões de toneladas de cana por safra. O valor da transação não foi divulgado e a operação ainda depende das aprovações regulatórias habituais.
Com o negócio, a Bunge conclui sua retirada do setor sucroenergético brasileiro. Os ativos haviam chegado ao grupo após a combinação com a Viterra, concluída em julho de 2025.
A Cofco, por sua vez, faz o movimento oposto. A aquisição deverá elevar sua capacidade brasileira de moagem de aproximadamente 18,5 milhões para 25,5 milhões de toneladas de cana, transformando a estatal chinesa em um dos grandes nomes do setor no país. As duas novas unidades também devem adicionar cerca de 700 mil toneladas à produção anual de açúcar da companhia, segundo estimativa citada pela Reuters.
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O paradoxo brasileiro
É aqui que a operação ganha uma dimensão maior.
O governo Lula vem criando condições para ampliar o mercado do etanol no Brasil. A partir de 1º de agosto, a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina comum passou temporariamente de 30% para 32%, no chamado E32. A medida foi estabelecida pelo Conselho Nacional de Política Energética e tem duração inicial de 180 dias, prorrogável uma vez pelo mesmo período.
Em outras palavras: o Estado aumentou por decisão regulatória a demanda obrigatória pelo produto.
A lógica econômica parece simples. Se a gasolina passa a carregar mais etanol, aumenta-se o mercado potencial para produtores brasileiros de biocombustível.
Mas a fotografia corporativa do setor conta uma história menos confortável.
Enquanto o mercado doméstico recebe esse impulso regulatório, uma das maiores multinacionais do agronegócio do mundo está deixando completamente o segmento sucroenergético brasileiro.
E não se trata apenas da Bunge.
A Raízen é o outro lado dessa equação
A maior ironia está no fato de que a Raízen, uma das maiores plataformas de açúcar e etanol do mundo e ligada à Cosan e à Shell, atravessou em 2026 uma das maiores crises financeiras corporativas já vistas no país.
A companhia entrou em recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida da ordem de R$ 65 bilhões. O plano homologado prevê conversão de parte da dívida em participação acionária, aportes de capital e uma reorganização estrutural dos negócios.
A empresa também começou a vender ativos.
Em julho, por exemplo, a Raízen vendeu a usina Caarapó, em Mato Grosso do Sul, por R$ 760 milhões. O ativo tinha movimentado cerca de 3,5 milhões de toneladas de cana na safra 2025/26.
Ou seja, o setor que deveria estar entre os grandes beneficiários da expansão compulsória do etanol também está passando por um processo de seleção brutal de capital.
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O que isso diz sobre a política do etanol?
O ponto que costuma desaparecer no debate político é que criar demanda não é a mesma coisa que criar empresas fortes.
Aumentar de 30% para 32% a participação do etanol na gasolina cria uma demanda regulatória adicional. Mas isso não resolve automaticamente problemas como endividamento, custo de capital, produtividade agrícola, preço internacional do açúcar, eficiência industrial, logística e retorno sobre o investimento.
É justamente aí que a saída da Bunge se torna relevante.
A companhia não justificou a venda por falta de demanda por etanol. Ao anunciar a operação, afirmou que está concentrando seus esforços em suas prioridades estratégicas, especialmente originação, armazenamento e distribuição de grãos e processamento de oleaginosas.
Portanto, seria incorreto transformar a venda em uma prova de que a política de etanol “fracassou”.
Mas também seria ingênuo interpretar o aumento da mistura como prova de que a política está fortalecendo automaticamente a indústria nacional.
Os movimentos de capital mostram que as decisões empresariais são muito mais complexas.
E quem está comprando?
O detalhe mais estratégico da operação talvez esteja menos na saída da Bunge e mais no destino dos ativos.
A Cofco International é uma gigante chinesa de commodities que está aumentando sua presença industrial no Brasil.
Com a compra das duas usinas, a companhia passa a controlar seis unidades no estado de São Paulo e eleva substancialmente sua capacidade de moagem. A própria empresa afirma que pretende obter ganhos de eficiência, diversificação e maior resiliência operacional com a integração das novas plantas.
Existe, portanto, uma mudança importante na composição do capital do setor.
Uma multinacional americana sai. Uma estatal chinesa amplia sua posição.
Esse é um ponto muito mais relevante para o Brasil do que simplesmente contabilizar duas usinas vendidas.
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Ometto aparece no centro da equação
O movimento também acontece em um momento particularmente sensível para Rubens Ometto, controlador da Cosan e presidente do conselho da Raízen. Aliado histórico de Lula e maior doador pessoa física da campanha do PT em 2022.
O empresário tem defendido publicamente a recuperação da companhia. Em junho, afirmou que a Raízen “vai muito bem” e que o problema era essencialmente de estrutura de capital.
O plano de reestruturação prevê ainda uma possibilidade de aporte adicional de R$ 500 milhões por veículo ligado à família Ometto, enquanto a Shell deverá realizar aporte de R$ 3,5 bilhões.
É nesse contexto que a política pública de estímulo ao etanol precisa ser analisada com cuidado.
O governo Lula ampliou a mistura obrigatória, mas a gasolina não ficou mais barata.
O mercado ganhou uma demanda regulatória maior. Brasileiro passou a comprar mais etanol sem querer.
Mas a principal empresa ligada ao grupo de Ometto no setor sucroenergético precisou passar por uma gigantesca reestruturação financeira e começou a vender ativos.
E uma multinacional que estava no setor a anos deixou definitivamente o segmento.
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A pergunta que Brasília de Lula precisa responder
Se o objetivo da política é transformar a vantagem brasileira em biocombustíveis em uma indústria cada vez mais forte, a pergunta não deveria ser apenas quanto etanol será colocado na gasolina.
A questão central deveria ser:
por que uma indústria que recebe estímulos regulatórios continua exigindo reestruturações bilionárias, venda de ativos e mudanças na composição de seus grandes grupos?
A resposta passa por uma diferença fundamental entre criar mercado e criar rentabilidade.
Obrigar uma parcela maior de etanol na gasolina aumenta o mercado potencial. Mas não garante que todas as usinas serão competitivas, que o capital privado permanecerá no setor ou que os ativos continuarão nas mãos de empresas brasileiras.
A própria transação Bunge-Cofco demonstra isso.
O Brasil continua sendo uma potência mundial em açúcar e etanol. Mas os donos do capital estão mudando.
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O risco de confundir política energética com política empresarial
Há ainda uma segunda questão.
O governo Lula pode estabelecer regras que ampliem a utilização de biocombustíveis. Pode criar incentivos, estabelecer metas e aumentar percentuais obrigatórios.
Mas não consegue determinar quem será o vencedor da disputa empresarial.
A Bunge decidiu sair do Brasil.
A Cofco chinesa decidiu comprar. Empresas ligadas ao governo chinês estão entrando com força em setores estratégico do Brasil, e o risco aos brasileiros cresce, segundo especialistas.
A Raízen decidiu vender ativos para reorganizar seu balanço.
E os credores passaram a ter papel decisivo no futuro da Raízen após a reestruturação da dívida.
Esse é o retrato de um setor no qual a política pública pode alterar a demanda, mas o capital continua selecionando os ativos considerados mais eficientes e estratégicos.
A nova disputa não é apenas pelo etanol
O movimento da Cofco revela algo ainda maior.
A disputa pelo setor sucroenergético brasileiro não envolve apenas abastecer o motorista brasileiro. Envolve açúcar, etanol, exportações, logística, energia e acesso a uma das maiores bases agrícolas do mundo, e o governo chinês está colocando suas empresas aliadas com força neste jogo.
Para a China, garantir produção e capacidade industrial em território brasileiro pode representar uma estratégia de segurança de abastecimento de longo prazo. Analistas citados pela Reuters avaliam que as novas usinas devem elevar significativamente a produção de açúcar da Cofco no país.
Isso significa que o Brasil pode estar ampliando sua importância energética e agrícola ao mesmo tempo em que perde parte do controle nacional sobre os ativos que processam essa riqueza. Perder controle neste caso é perder soberania.
Não há, por si só, nada ilegal ou necessariamente negativo em uma empresa estrangeira comprar ativos brasileiros.
A questão estratégica é outra:
se o governo Lula está utilizando o poder regulatório para aumentar o mercado do etanol, quem está capturando o valor econômico dessa expansão?
Essa é a pergunta que a discussão sobre E32 ainda não respondeu.
O sinal mais importante da venda da Bunge
A saída da Bunge não prova que o etanol brasileiro esteja em crise, mas ele está mudando de mãos e se concentrando na China.
Pelo contrário: a Cofco está comprando porque enxerga valor estratégico nos ativos e na dominância do setor em um país onde seu atual presidente é aliado chinês.
Mas a operação deixa uma mensagem que deveria preocupar quem acredita que bastam incentivos estatais para construir gigantes nacionais:
mercado garantido não significa capital garantido. E não significa segurança jurídica para atuar no país.
O governo pode aumentar a mistura de etanol.
Pode criar demanda.
Mas, no fim, são retorno, dívida, produtividade, segurança jurídica, liberdade empresarial, eficiência e estratégia que decidem quais empresas permanecem.
E o mapa atual mostra uma transformação silenciosa: enquanto Brasília amplia o espaço do etanol, o setor passa por uma concentração de ativos e uma troca de protagonistas, onde a China está dominando de forma perigosa.
A Bunge sai.
A Cofco avança.
A Raízen se reestrutura e vende ativos.
E a Cosan, de Rubens Ometto, precisa atravessar uma das maiores reestruturações financeiras do setor.
O verdadeiro teste da política brasileira para o etanol, portanto, não será apenas medir quantos litros de combustível renovável estarão misturados à gasolina.
Será descobrir quem estará dono das usinas, quem terá capital para investir e quem ficará com a maior parcela do valor gerado por essa nova demanda criada pelo Estado. A China domina o setor e controla o dinheiro, como fica a soberania do Brasil neste caso?



