
Relatório da Polícia Federal mostra contatos intermediados por advogado, convite para evento em Londres, pedido para incluir filho do procurador e mensagens sobre charuto e Macallan; horas depois da divulgação, Gonet pediu o arquivamento do relatório ao STF
O caso envolvendo o Banco Master ganhou uma nova dimensão institucional após um relatório da Polícia Federal revelar mensagens e interações que indicam proximidade entre o então ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, indicado por Lula e reconduzido, aliado de Gilmar Mendes.
O documento, produzido a partir da análise do celular de Vorcaro e tornado público por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), registra contatos intermediados pelo advogado Ciro Soares, além de tratativas relacionadas a um evento em Londres que envolvia charutos e o uísque Macallan. Evento que Gonet, Moraes e o chefe da Polícia Federal participaram junto com Vorcaro, que pagou a conta milionária.
A revelação ocorre em um momento particularmente sensível: Gonet é o chefe do Ministério Público Federal e atua no caso envolvendo Vorcaro. Horas depois de o conteúdo do relatório se tornar público, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao STF o arquivamento do procedimento, sustentando que Mendonça teria determinado a produção do documento sem competência para isso.
Segundo juristas, o próximo STF tem normativa que permite a atuação feita por Mendonça, sendo assim então inverídica a afirmação de Gonet sobre a questão a qual está envolvido.
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A aproximação registrada pela PF
Segundo o relatório, os contatos ganharam intensidade em março de 2025.
Em 15 de março, Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia na qual aparecia ao lado de Paulo Gonet e escreveu que o procurador queria falar com o na época, banqueiro. Na sequência, foram registradas quatro chamadas para o telefone do advogado.
O próprio relatório, contudo, estabelece uma cautela importante: os registros não permitem afirmar de maneira conclusiva que Gonet tenha participado diretamente dessas ligações. O que está documentado é que as chamadas ocorreram no terminal de Ciro Soares depois do envio da fotografia.
Dias depois, em 28 de março, aparecem mensagens atribuídas a Gonet e encaminhadas por Soares a Vorcaro.
Em uma delas, o procurador teria afirmado estar “com saudade” do banqueiro e manifestado torcida por ele.
A resposta de Vorcaro também aparece no material analisado pela PF, com o empresário retribuindo a mensagem e sugerindo que os dois marcassem um encontro.
O conteúdo chama atenção menos por uma mensagem isolada e mais pelo conjunto das interações registradas no aparelho.
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Charuto, Macallan e um convite em Londres
A relação fica ainda mais explícita nas mensagens sobre uma viagem a Londres.
Segundo o relatório, Ciro Soares informou a Vorcaro que Gonet iria ao evento e encaminhou uma mensagem atribuída ao procurador:
“Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macallan.”
Vorcaro respondeu prometendo providenciar as preferências do convidado, em tom informal.
No dia seguinte, surgiu outro pedido. Soares informou ao banqueiro que Gonet queria saber se seu filho, Pedro Gonet, poderia acompanhá-los na viagem.
A resposta de Vorcaro foi afirmativa.
Posteriormente, novas mensagens voltaram a tratar da participação de Pedro Gonet e da presença de Ciro Soares em uma viagem cujas despesas seriam custeadas pela organização do evento, ligada a Vorcaro. Segundo as informações reunidas pela imprensa a partir do relatório, o evento de 2025 acabou não ocorrendo.
Não era a primeira aproximação em Londres
O episódio de 2025 também não aparece isoladamente.
Em abril de 2024, Paulo Gonet já havia participado de um evento em Londres ligado ao Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, patrocinado pelo Banco Master, então controlado por Vorcaro.
Na ocasião, Gonet esteve entre os participantes de uma degustação de Macallan e charutos. Também participaram do encontro autoridades e integrantes do Judiciário, entre eles Alexandre de Moraes e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, segundo informações divulgadas anteriormente pelo Poder360.
O ponto que passa a chamar atenção agora é que as mensagens recuperadas do celular de Vorcaro indicam que a relação não se limitava a uma participação protocolar em um evento.
Elas mostram conversas intermediadas por um advogado, manifestações pessoais de proximidade e articulações para a participação de familiares em uma viagem, custeadas pelo na época banqueiro, com que contrapartida?
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O problema institucional é maior que a mensagem
É importante fazer uma distinção.
As mensagens reveladas pela PF não permitem concluir, sozinhas, que Paulo Gonet tenha cometido crime ou interferido ilegalmente em qualquer processo. Tampouco demonstram automaticamente que algum benefício tenha sido concedido a Vorcaro.
A questão central é outra: qual é o grau de proximidade aceitável entre uma autoridade que exerce a chefia do Ministério Público Federal e uma pessoa diretamente envolvida em uma investigação e em processos relacionados ao sistema financeiro?
É justamente essa pergunta que transforma as mensagens em um problema institucional.
A PGR, por sua vez, não sustentou que as conversas sejam falsas. O argumento apresentado por Gonet ao STF está concentrado na origem e na validade do relatório produzido pela Polícia Federal.
Segundo a manifestação, Mendonça teria determinado a elaboração do documento sem provocação formal do Ministério Público ou da própria autoridade policial e sem a autorização que, na visão da PGR, seria necessária diante do fato de a apuração alcançar um ministro do STF.
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Arquivar o relatório não elimina as perguntas
Esse é o ponto que provavelmente terá maior repercussão no caso.
A discussão jurídica sobre a validade do relatório pode determinar se as informações poderão ou não ser utilizadas no procedimento. Mas, independentemente do destino processual do documento, as mensagens já se tornaram públicas e colocaram sob escrutínio a relação entre Vorcaro e integrantes das instituições que, posteriormente, passaram a atuar sobre assuntos relacionados ao Banco Master.
O debate, portanto, não se resume à pergunta sobre “o relatório pode ou não ser utilizado?”
Há uma segunda questão, de natureza institucional:
o que as mensagens revelam sobre a proximidade entre um banqueiro sob investigação e autoridades que ocupam posições centrais no sistema de Justiça brasileiro?
E há ainda uma terceira, que dependerá dos fatos que possam ser comprovados:
essa proximidade produziu algum efeito concreto sobre decisões, investigações ou interesses de Vorcaro?
Até o momento, a existência das mensagens está documentada no relatório divulgado pela PF. Já a existência de eventual favorecimento exige provas adicionais e não pode ser presumida apenas a partir dos diálogos.
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O caso Master entra em uma fase ainda mais delicada
A divulgação do relatório amplia o alcance do caso Banco Master porque desloca parte da discussão da esfera financeira para o funcionamento das próprias instituições responsáveis por investigar e julgar os fatos.
O relatório tem 218 páginas e reúne mensagens, registros de chamadas, arquivos e outros elementos encontrados no celular de Vorcaro. Seu conteúdo envolve não apenas Gonet, mas também outros nomes de alto escalão do Judiciário e da Polícia Federal.
Isso significa que o próximo capítulo não será definido apenas pela disputa sobre a situação do Banco Master.
O STF terá de enfrentar também a controvérsia sobre a validade da apuração determinada por Mendonça, enquanto as instituições envolvidas terão de lidar com uma questão que vai além da legalidade formal:
a confiança pública na independência de quem investiga, acusa e julga.
No caso de Gonet, a cronologia torna o episódio especialmente sensível: mensagens registradas pela PF revelam uma relação de proximidade com Vorcaro; o banqueiro aparece articulando sua participação em eventos e até a presença de seu filho; e, após a divulgação do relatório, o procurador-geral pede que o material seja arquivado por suposta ilegalidade na forma como foi produzido.
Isso não permite antecipar culpa de nenhuma das partes.
Mas torna inevitável uma pergunta que o caso ainda precisa responder:
onde termina a relação pessoal e começa o conflito de interesses quando o interlocutor é um investigado submetido à atuação da própria instituição comandada pela autoridade?