A menos de dois meses da eleição, Dino afasta aliado de seu opositor, Brandão, do TCE e governador pede suspeição do ministro no STF

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Defesa de Carlos Brandão questiona atuação de Flávio Dino em investigação que atinge seu grupo político; após afastamento de Daniel Brandão, ex-secretário de Dino assume comando do Tribunal de Contas do Maranhão

A disputa política do Maranhão ganhou uma nova dimensão institucional a menos de dois meses do primeiro turno das eleições de 2026.

O governador Carlos Brandão (MDB) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o afastamento do ministro Flávio Dino da relatoria dos inquéritos que atingem integrantes de seu grupo político. A defesa sustenta que o ex-governador do Maranhão mantém vínculos políticos no Estado e questiona se sua atuação no caso preserva a necessária imparcialidade.

O pedido ocorreu um dia depois de Dino determinar o afastamento, por 180 dias, de Daniel Itapary Brandão, sobrinho do governador e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).

A sequência dos acontecimentos produziu um elemento politicamente sensível: Daniel Brandão deixou o comando do TCE e Marcelo Tavares, ex-secretário-chefe da Casa Civil de Flávio Dino, reassumiu a presidência da Corte de Contas.

O calendário eleitoral torna o episódio ainda mais relevante. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e a propaganda eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto.

O que a defesa de Brandão está questionando

A defesa do governador não sustenta apenas uma divergência sobre a investigação.

Os advogados questionam a própria permanência de Dino como relator diante de seu histórico político no Maranhão e da atual disputa entre antigos aliados.

Dino foi governador do Estado antes de assumir uma cadeira no STF. Brandão foi seu vice-governador e posteriormente assumiu o governo.

Os dois grupos, entretanto, romperam politicamente.

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Hoje, estão em lados opostos na disputa pelo controle político do Maranhão.

É justamente essa trajetória que a defesa utiliza para sustentar a existência de possível conflito de interesses.

O governador também questiona a competência do STF para conduzir determinadas apurações e defende que o caso deveria tramitar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), considerando seu foro.

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O movimento que mudou o comando do TCE

O episódio mais relevante para entender a dimensão política do caso aconteceu dentro do próprio Tribunal de Contas.

Na segunda-feira (17), Dino determinou o afastamento cautelar de Daniel Brandão por 180 dias. A decisão está inserida no inquérito que apura suspeitas relacionadas ao assassinato de João Bosco Pereira, ocorrido em São Luís em 2022, além de possíveis esquemas de corrupção e favorecimento ilícito.

Daniel nega as acusações.

Com seu afastamento, Marcelo Tavares reassumiu a presidência do TCE-MA.

Tavares não foi nomeado por Dino para ocupar o cargo em decorrência da decisão. Ele já era conselheiro e vice-presidente da Corte e assumiu o posto dentro da estrutura sucessória do próprio tribunal.

O detalhe politicamente relevante é outro: Tavares foi secretário-chefe da Casa Civil durante o governo Flávio Dino.

Ou seja, o afastamento de Daniel Brandão retirou temporariamente do comando do TCE um integrante do grupo do atual governador e colocou na presidência interina um conselheiro com histórico de atuação no governo do antigo governador e atual ministro do STF.

Essa circunstância, por si só, não prova interferência política. Mas ajuda a explicar por que a defesa de Brandão passou a questionar com maior intensidade a atuação de Dino.

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Dino e Brandão já foram aliados

A atual disputa não envolve dois adversários políticos que nunca estiveram do mesmo lado.

A relação entre Dino e Brandão começou justamente pela aliança.

Brandão foi vice-governador durante o governo Dino e assumiu o Palácio dos Leões após a saída do então governador.

O rompimento posterior reorganizou o mapa político do Estado.

O grupo de Brandão passou a disputar espaço com os aliados de Dino, transformando antigos parceiros em adversários.

Agora, as duas forças chegam à reta final do calendário eleitoral de 2026 em lados opostos.

E é nesse ambiente que uma investigação conduzida por Dino atinge nomes centrais do grupo de Brandão.

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A investigação que chegou ao STF

O inquérito reúne diferentes linhas de investigação.

Uma delas envolve o assassinato de João Bosco Pereira, ocorrido em São Luís em agosto de 2022.

Segundo as apurações divulgadas, o crime teria relação com uma disputa envolvendo cobrança de propina e liberação de recursos públicos.

A Polícia Federal também investiga suspeitas de interferência nas apurações estaduais e possíveis conexões com desvios de emendas parlamentares.

Daniel Brandão passou a ser investigado no contexto desse caso. A defesa nega as acusações e afirma que ele está à disposição da Justiça.

O governador Carlos Brandão também está entre os investigados, segundo informações divulgadas sobre o inquérito.

Weverton Rocha também entrou no radar

Outro personagem importante da investigação é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice líder de Lula no senado.

A Polícia Federal investiga suspeitas de tentativa de interferência na apuração do homicídio. A investigação identificou comunicações entre o senador e o então ministro do STJ Humberto Martins durante a tramitação do caso.

Weverton nega irregularidades.

A presença de uma autoridade com foro privilegiado ajudou a levar a investigação ao STF e colocou Dino na posição de relator.

É esse ponto que torna a discussão sobre a relatoria particularmente importante.

A investigação não envolve apenas um conflito político local. Ela reúne autoridades com foro, um homicídio, suspeitas de corrupção, possíveis interferências em investigações e uma disputa política estadual que chega ao seu momento decisivo.

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O outro adversário de Dino atingido pela investigação

A lista de pessoas ligadas ao grupo de Brandão atingidas pelas medidas também inclui Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão e integrante da atual estrutura política do governador.

Cutrim também questionou a atuação de Dino e chegou a classificar publicamente o ministro como seu adversário político.

O episódio reforça a percepção de que as investigações atingem justamente nomes que estão no campo político oposto ao antigo governador.

Mas existe uma distinção essencial: a existência de uma rivalidade política não demonstra, por si só, perseguição ou parcialidade judicial.

Essa é justamente a questão que a defesa de Brandão tenta levar ao STF.

A eleição transforma o timing em um elemento central

O fator eleitoral não pode ser separado dos acontecimentos.

O Maranhão está a poucas semanas do primeiro turno.

O calendário oficial estabelece 4 de outubro como data da votação, enquanto a propaganda eleitoral começou em 16 de agosto.

Nesse intervalo extremamente curto, ocorreram três movimentos de grande impacto político:

  • a investigação avançou sobre integrantes do grupo de Carlos Brandão;
  • Daniel Brandão foi afastado da presidência do TCE por decisão de Flávio Dino;
  • Marcelo Tavares, ex-secretário de Dino, reassumiu o comando da Corte de Contas.

Tudo isso acontece enquanto os grupos políticos que disputam o governo do Maranhão se reorganizam para a eleição.

É por isso que o caso ultrapassa a dimensão criminal.

O ponto que o STF terá de responder

O STF agora terá de analisar o pedido da defesa de Brandão e decidir se existem fundamentos jurídicos para afastar Dino da relatoria.

A questão central não é determinar antecipadamente se as acusações contra os investigados são verdadeiras ou falsas.

Isso deverá ser apurado no próprio processo.

A questão levantada pela defesa é outra:

um ministro que foi governador do Estado onde ocorreram os fatos investigados, que possui uma história política direta com parte dos envolvidos e cujo antigo grupo político hoje disputa a eleição contra os investigados deve continuar conduzindo o caso?

A resposta jurídica dependerá dos critérios de impedimento e suspeição previstos no ordenamento brasileiro.

Mas existe também uma dimensão institucional.

Quanto maior a influência de uma investigação sobre a correlação de forças políticas às vésperas de uma eleição, maior é a necessidade de transparência sobre os critérios utilizados pela Justiça.

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O que está em jogo no Maranhão

O episódio criou uma situação incomum.

Um ex-governador que se tornou ministro do STF conduz investigações que atingem o grupo político do atual governador, seu antigo aliado e hoje adversário.

Ao mesmo tempo, uma decisão do ministro afastou o sobrinho do governador da presidência do TCE.

Na sequência, a presidência interina da Corte passou para um conselheiro que foi secretário-chefe da Casa Civil de Dino.

Nada disso, isoladamente, comprova que houve utilização política da Justiça.

Mas a combinação dos fatos explica por que a defesa de Brandão decidiu transformar a suspeição de Dino em uma questão formal dentro do próprio STF.

E o momento torna a disputa ainda mais sensível.

Faltam menos de dois meses para os eleitores maranhenses decidirem quem comandará o Estado.

Até lá, a investigação criminal continuará seguindo seu caminho, enquanto a disputa política entre os antigos aliados Flávio Dino e Carlos Brandão entra em sua fase mais decisiva.

No Maranhão, portanto, a eleição de 2026 não está acontecendo apenas nos palanques.

Ela também está sendo disputada dentro das instituições que concentram poder, fiscalização e decisões capazes de alterar o equilíbrio político do Estado.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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