XP restringiu divulgação de ETFs em seu evento, dizem gestoras; decisão expõe disputa por um dos mercados de investimentos que mais cresce no País

INVESTIDORES BRASIL

Gestoras afirmam ter sido orientadas a não promover ETFs nem divulgar tickers durante a Expert XP 2026. A corretora nega exclusão do tema e diz que os fundos tiveram espaço na programação oficial. Episódio ocorre enquanto os ETFs registram captação recorde e ganham importância na estratégia das plataformas de investimento.

O fato: uma polêmica na Expert XP colocou os ETFs no centro do debate

A Expert XP 2026, considerada o maior evento de investimentos do Brasil, terminou cercada por uma discussão que vai além da organização da feira e ajuda a explicar uma das maiores transformações da indústria financeira brasileira.

Gestoras participantes afirmaram ter recebido orientações para não promover ETFs (Exchange Traded Funds) em seus estandes durante o evento. O pedido teria incluído a retirada de materiais promocionais e a não divulgação dos tickers dos fundos, obrigando algumas empresas a alterar peças de comunicação poucos dias antes da abertura da feira. A controvérsia foi divulgada pelo E-Investidor, do Estadão, e confirmada por nossa reportagem.

Em nota, a XP Investimentos afirmou que os ETFs tiveram participação na programação oficial da Expert por meio de painéis, entrevistas e debates e explicou que as regras comerciais aplicadas aos estandes seguem diretrizes voltadas aos produtos distribuídos pela plataforma, independentemente da classe de ativos.

Independentemente da controvérsia, o episódio evidenciou uma realidade difícil de ignorar: os ETFs deixaram de ser um segmento de nicho e passaram a ocupar posição estratégica na disputa entre plataformas, gestoras e consultores de investimentos.

Os números mostram por que os ETFs passaram a chamar tanta atenção

O crescimento dos ETFs em 2026 ajuda a entender por que essa classe de ativos ganhou espaço nas discussões do mercado.

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os ETFs registraram captação líquida de R$ 32,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, tornando-se a segunda categoria de fundos que mais recebeu recursos no período.

No mesmo intervalo de 2025, a entrada líquida havia sido de R$ 5,1 bilhões.

A diferença mostra uma aceleração significativa do interesse dos investidores por esse tipo de produto.

Grande parte dessa expansão ocorreu nos ETFs de renda fixa, favorecidos pelo ambiente de juros elevados e pelo lançamento de novos produtos por grandes gestoras.

ACESSO AO GRUPO VIP INVESTIDORES BRASIL

Ao contrário dos fundos tradicionais, os ETFs são negociados em bolsa, normalmente acompanham índices ou estratégias específicas e costumam apresentar estruturas de custos menores.

SAIBA TAMBÉM: Fundo ligado ao caso Banco Master perde R$ 1,78 bilhão em um mês e amplia dúvidas sobre estrutura investigada

A disputa não é pelos ETFs, mas pelo futuro da distribuição de investimentos

A discussão observada durante a Expert provavelmente não será lembrada apenas como uma polêmica envolvendo um evento.

Ela ocorre justamente quando o mercado brasileiro passa por uma transformação estrutural.

Durante muitos anos, boa parte da indústria de investimentos cresceu apoiada em um modelo no qual diferentes produtos geravam diferentes remunerações para a cadeia de distribuição.

Nos últimos anos, porém, plataformas, bancos e escritórios passaram a acelerar a migração para o modelo conhecido como fee based, também chamado de fee fixo.

Nesse sistema, o profissional é remunerado pelo serviço de consultoria prestado ao cliente e não necessariamente pela venda de um produto específico.

Essa mudança reduz a importância da remuneração individual de cada produto e aumenta o foco na construção de carteiras eficientes para o investidor.

É justamente nesse ambiente que os ETFs ganham força.

Como normalmente apresentam custos reduzidos, ampla diversificação e transparência, eles se adaptam naturalmente ao modelo consultivo.

Na avaliação de executivos do setor, a expansão dos ETFs está diretamente ligada à evolução desse novo modelo de atendimento.

xp investimentos

A estratégia da XP para disputar esse mercado

Apesar da polêmica envolvendo a divulgação dos ETFs durante a Expert, a própria XP vem ampliando sua presença nesse segmento.

Durante painel realizado na sexta-feira (24), o CEO da XP Asset, Leandro Bousquet, afirmou que a gestora possui atualmente 22 ETFs e trabalha em novos lançamentos para ampliar sua oferta.

Segundo o executivo, o objetivo da companhia é construir uma plataforma capaz de atender diferentes perfis de investidores antes de avançar para a criação de carteiras-modelo baseadas nesses produtos.

“A experiência atual que o cliente encontra em todas as instituições não é a melhor. Nosso trabalho é completar a grade para ter produtos para atender todas as as demandas. Depois disso, o segundo passo será criar carteiras-modelo”, afirmou Bousquet durante o evento.

A declaração indica que os ETFs fazem parte da estratégia de crescimento da própria XP, mesmo em um momento em que o tema acabou gerando questionamentos entre outras gestoras participantes da feira.

SAIBA TAMBÉM: Polícia identifica elo entre facções brasileiras e operador ligado à Al-Qaeda…

A mudança para o fee fixo ajuda a explicar por que os ETFs ganharam protagonismo

Embora a discussão na Expert tenha girado em torno da divulgação dos ETFs, executivos do mercado afirmam que a expansão dessa indústria está diretamente ligada a uma mudança estrutural na forma como os investimentos são distribuídos no Brasil.

Nos últimos anos, grandes plataformas e escritórios de investimentos passaram a acelerar a migração do modelo de remuneração baseado em comissões para o chamado fee based — ou fee fixo.

Nesse modelo, o profissional é remunerado pelo serviço prestado ao cliente, normalmente com uma taxa previamente acordada, e não pela comissão gerada por determinado produto financeiro.

Na avaliação de participantes da indústria, essa mudança reduz potenciais conflitos de interesse existentes no modelo tradicional, no qual determinados produtos podem oferecer remunerações diferentes para a cadeia de distribuição.

Os ETFs acabam sendo beneficiados por essa transformação porque, em geral, possuem custos menores para o investidor e não oferecem as mesmas estruturas de remuneração presentes em diversos fundos tradicionais.

Foi justamente esse movimento que executivos presentes na Expert apontaram como um dos principais motores para o crescimento da indústria nos próximos anos.

A mudança no modelo de remuneração para tentar melhorar a confiança do investidor ajuda a explicar o avanço dos ETFs

O crescimento dos ETFs também acompanha uma transformação mais ampla na indústria de investimentos. Muitos investidores começaram a ficar descontentes com seus investimentos indicados por assessores de corretoras, que segundo reclamações na justiça, ” buscavam mais retorno com as indicações do que de fato auxiliar o cliente das corretoras”

Nos últimos anos, grandes plataformas e escritórios de assessoria passaram a ampliar o modelo conhecido como fee based, em que a remuneração do profissional ocorre por meio de uma taxa fixa de consultoria, e não pela comissão recebida sobre determinados produtos financeiros.

Nesse formato, o incentivo para recomendar ativos de maior comissão tende a diminuir, enquanto produtos de baixo custo, como os ETFs, ganham espaço na construção das carteiras.

Executivos do setor avaliam que essa mudança deverá acelerar ainda mais o desenvolvimento da indústria de ETFs nos próximos anos, seguindo um movimento observado anteriormente em mercados como Estados Unidos e Europa.

LEIA MAIS: Governo quer ampliar emissão de dívida no exterior para US$ 35 bilhões…

Quem ganha e quem perde com a popularização dos ETFs?

O avanço dos ETFs representa uma mudança que vai além da preferência dos investidores por um novo tipo de produto. Na prática, ele altera a dinâmica econômica entre gestoras, plataformas de investimento, assessores e clientes.

Para o investidor, os ETFs costumam oferecer vantagens como diversificação em uma única aplicação, transparência na composição da carteira, liquidez em bolsa e, em muitos casos, taxas de administração inferiores às cobradas por fundos de gestão ativa. Isso ajuda a explicar por que a indústria vem registrando forte crescimento no Brasil.

Para as gestoras, o cenário é mais competitivo. O sucesso de um ETF depende de fatores como escala, patrimônio sob gestão, liquidez e capacidade de atrair investidores em um mercado onde diversos produtos disputam o mesmo espaço. Ao mesmo tempo, o crescimento da demanda abre oportunidades para o lançamento de novas estratégias, especialmente em renda fixa, índices internacionais, setores específicos e investimentos temáticos.

Nas plataformas de investimento e nos escritórios de assessoria, a transformação é mais complexa. Historicamente, parte da receita do setor foi construída sobre modelos de distribuição em que diferentes produtos geravam remunerações distintas para a cadeia comercial. Com a expansão do modelo consultivo e do fee fixo (fee based), em que o profissional é remunerado pelo serviço prestado ao cliente e não pela venda de um produto específico, os ETFs passam a se encaixar com maior facilidade nas recomendações por serem instrumentos de baixo custo e ampla diversificação.

Isso não significa que os fundos de gestão ativa perderão espaço automaticamente. Especialistas apontam que ambos os modelos podem coexistir, atendendo objetivos diferentes dentro de uma carteira. Fundos ativos continuam sendo utilizados em estratégias que buscam superar índices de referência ou explorar nichos específicos de mercado, enquanto os ETFs costumam ser utilizados para compor a parcela estrutural da alocação.

Nesse contexto, a disputa observada durante a Expert XP 2026 ocorre justamente em um momento em que o mercado brasileiro discute não apenas quais produtos serão oferecidos aos investidores, mas também como será o modelo de distribuição predominante nos próximos anos. À medida que os ETFs ganham participação na indústria, cresce também a concorrência entre plataformas, gestoras e consultores para ocupar posição de destaque em um segmento que vem atraindo bilhões de reais em novos investimentos.

O Brasil segue um movimento que já ocorreu no exterior com a BlackRock

O crescimento dos ETFs no Brasil acompanha uma tendência observada há vários anos em mercados desenvolvidos.

Nos Estados Unidos, gigantes como BlackRock, Vanguard e State Street ajudaram a transformar os ETFs em um dos principais instrumentos utilizados por investidores individuais, consultores financeiros e investidores institucionais.

A combinação entre custos reduzidos, facilidade operacional e ampla oferta de estratégias fez com que esses produtos conquistassem participação crescente nas carteiras ao longo da última década.

O mercado brasileiro ainda está distante do tamanho observado no exterior, mas os números recentes indicam que essa diferença pode diminuir nos próximos anos.

LEITURA SUGERIDA: Vanguard destrona BlackRock nos ETFs dos EUA: o que a vitória do investimento passivo revela sobre o futuro do mercado para bancos, corretoras e analistas

vanguard, blackrock
Vanguard destrona BlackRock nos ETFs dos EUA. Imagem: Investidores Brasil

O que diz a XP

Em nota enviada ao E-Investidor, a XP afirmou que a Expert reúne centenas de patrocinadores e expositores e que a comunicação realizada nos estandes segue diretrizes comerciais aplicáveis aos produtos distribuídos pela plataforma.

Segundo a empresa:

“A Expert XP reúne centenas de patrocinadores e expositores, e oferece amplo espaço para discussão sobre o mercado financeiro e diferentes estratégias de investimento. Em linha com anos anteriores, a comunicação nos estandes segue diretrizes comerciais aplicáveis à participação das gestoras no evento, sendo direcionada aos produtos distribuídos pela XP, o que vale para qualquer classe de ativos.”

A companhia acrescentou que os ETFs tiveram participação na programação oficial.

“Os ETFs, inclusive, tiveram ampla presença na programação da Expert XP, sendo tema de painéis, entrevistas e debates ao longo do evento.”

O que isso significa para o investidor

A discussão ocorrida durante a Expert vai além da organização de um evento.

Ela acontece justamente em um momento em que os ETFs ganham participação na carteira dos brasileiros e passam a disputar espaço com fundos tradicionais, títulos estruturados e outros produtos distribuídos pelas plataformas de investimento.

Para o investidor pessoa física, o episódio reforça a importância de avaliar diferentes alternativas disponíveis no mercado, comparando custos, riscos, liquidez, estratégia e aderência aos objetivos financeiros antes de tomar qualquer decisão de investimento. Nós do Portal Investidores Brasil, ensinamos tudo que precisa aprender para tomar suas decisões

Independentemente da forma como os produtos são apresentados em eventos ou plataformas recomendamos que a escolha seja baseada na qualidade da estratégia e no perfil do investidor, e não apenas na forma de distribuição.

A verdadeira disputa acontece nos próximos anos

A polêmica registrada durante a Expert XP provavelmente será lembrada apenas como um episódio dentro de uma transformação muito maior.

O mercado brasileiro está migrando gradualmente de um modelo baseado na distribuição de produtos para outro em que consultoria, transparência e eficiência tendem a ganhar espaço.

Nesse cenário, os ETFs deixaram de ser apenas uma alternativa de investimento.

Eles passaram a representar uma das principais apostas da indústria para conquistar a próxima geração de investidores.

Independentemente das divergências comerciais entre plataformas e gestoras, os números mostram que essa mudança já começou — e deverá continuar moldando o mercado brasileiro de investimentos nos próximos anos.

Perguntas frequentes

O que é um ETF?

É um fundo de investimento negociado em bolsa que busca acompanhar um índice, setor, estratégia ou classe de ativos.

Por que os ETFs cresceram tanto ?

A combinação de juros elevados, expansão dos ETFs de renda fixa, novos lançamentos e a migração para modelos consultivos ajudou a impulsionar a captação da indústria.

O que é o modelo fee based?

É um modelo de remuneração em que o consultor ou assessor recebe pelo serviço prestado ao cliente, e não pela comissão de um produto específico.

Os ETFs substituem os fundos tradicionais?

Não necessariamente. Eles podem coexistir em uma carteira, dependendo dos objetivos, do perfil de risco e da estratégia do investidor.

O que o mercado não quer que você saiba

Chega de receber informação controlada?

Receba gratuitamente no seu e-mail aquilo que o mercado sabe mas não divulga.

  • ✓ Informação independente
  • ✓ O que as instituições financeiras não querem que o brasileiro saiba
  • ✓ Tome suas decisões sem depender de influenciadores pagos pelo mercado
  • ✓ Entenda quem ganha e quem perde em cada movimento, e porque
Publicidade
Publicidade
Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
spot_img

Últimas

Publicidade

RELACIONADOS

PUBLICIDADE