Transação imobiliária entra no radar da Polícia Federal e amplia suspeitas de captura regulatória no caso Banco Master
Uma transação imobiliária envolvendo o ex-diretor do Banco Central, ou seja, ex-integrante da cúpula regulatória do sistema financeiro brasileiro passou a integrar o conjunto de investigações que cercam o escândalo do Banco Master.
Documentos analisados por investigadores indicam que o ex-diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil, Paulo Sérgio Neves de Souza, vendeu uma fazenda de café por R$ 3 milhões a um fundo ligado ao empresário Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do banco investigado.
A operação ocorreu enquanto Neves de Souza ainda exercia uma das funções mais sensíveis da autoridade monetária: a diretoria responsável pela fiscalização de instituições financeiras.
O caso passou a ser examinado no contexto da investigação conduzida pela Polícia Federal dentro da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, fraude financeira e interferência em processos regulatórios.
Paulo Sérgio Neves de Souza entrou no Banco Central como servidor de carreira e chegou ao cargo de diretor de fiscalização. Ele foi afastado em março de 2026, durante a Operação Compliance Zero, que investigou sua ligação com o Banco Master.
Paulo Sérgio Neves de Souza é economista e ingressou no Banco Central como funcionário público concursado.
Venda ocorreu durante mandato na diretoria de fiscalização do BC
De acordo com informações reveladas por reportagens e confirmadas em documentos da investigação, a negociação da propriedade rural ocorreu em 2021.
Naquele momento, Neves de Souza ocupava o cargo de diretor de Fiscalização do Banco Central — posição estratégica responsável por:
- supervisionar bancos e instituições financeiras
- conduzir processos sancionadores
- avaliar riscos sistêmicos no setor bancário
Ou seja, o próprio Banco Master estava dentro do universo regulatório supervisionado pela área dirigida por ele.
Essa coincidência temporal passou a levantar suspeitas entre investigadores sobre potencial conflito de interesses ou benefício indireto.
Suspeita de atuação informal em favor do Banco Master
Relatórios preliminares citados na investigação indicam que o ex-diretor teria atuado como “consultor informal” dentro da estrutura regulatória, supostamente auxiliando interesses do banco.
Entre as suspeitas analisadas:
- facilitação de interlocução com o Banco Central
- orientação estratégica sobre processos regulatórios
- possível interferência em análises de supervisão
Investigadores passaram então a avaliar se negócios privados paralelos, como a venda da fazenda, poderiam ter servido como forma indireta de compensação financeira.
O próprio Banco Central identificou a transação e encaminhou as informações às autoridades.
Arranjo imobiliário também chama atenção
Outro elemento que passou a ser analisado na investigação é o modelo de transação adotado após a venda da propriedade.
Segundo relatos apresentados à investigação:
- Neves de Souza vendeu a fazenda
- posteriormente arrendou novamente a área para continuar utilizando a produção de café
Esse tipo de estrutura contratual pode ser legítimo no mercado agrícola, mas também pode funcionar — dependendo da estrutura financeira — como mecanismo de transferência indireta de recursos, hipótese ainda em análise.
Cunhado de Vorcaro aparece como peça financeira do esquema
O comprador indireto da propriedade, Fabiano Zettel, já havia surgido em outras frentes da investigação.
Ele é apontado por investigadores como possível operador financeiro dentro da rede empresarial ligada ao Banco Master.
Entre os elementos sob análise pelas autoridades:
- movimentações financeiras entre empresas vinculadas ao grupo
- contratos utilizados para justificar transferências
- uso de estruturas empresariais e fundos para formalização de negócios
A proximidade familiar com o controlador do banco ampliou o interesse dos investigadores na transação.
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Episódio reforça tese de captura regulatória
Especialistas em governança e supervisão financeira classificam episódios desse tipo dentro de um fenômeno conhecido como captura regulatória.
Esse conceito descreve situações em que agentes regulados passam a exercer influência direta ou indireta sobre autoridades responsáveis por fiscalizá-los.
Entre os sinais típicos analisados em investigações desse tipo estão:
- relações financeiras privadas entre regulador e regulado
- atuação informal dentro de processos regulatórios
- benefícios indiretos ou operações patrimoniais paralelas
Se confirmadas as suspeitas, o caso pode se tornar um dos exemplos mais graves de conflito de interesses envolvendo a supervisão bancária brasileira nas últimas décadas.
Crise do Banco Master segue produzindo novos desdobramentos
A investigação ocorre no contexto da crise envolvendo o Banco Master, que passou a ser alvo de uma ampla apuração sobre possíveis irregularidades financeiras.
Entre os pontos analisados pelas autoridades estão suspeitas de:
- criação de carteiras de crédito de alto risco
- emissão agressiva de títulos de captação
- manipulação de estruturas financeiras
- organização de rede de operadores e intermediários
O caso também preocupa o mercado pelo possível impacto no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — mecanismo responsável por proteger depósitos bancários.
Ponto de atenção para o sistema financeiro
Para analistas do setor, o episódio expõe um problema estrutural recorrente em crises bancárias: a proximidade entre reguladores e instituições supervisionadas.
Quando relações privadas passam a ocorrer paralelamente à atividade de supervisão, surgem riscos relevantes como:
- perda de independência regulatória
- falhas na fiscalização
- ampliação de riscos sistêmicos no mercado financeiro
O avanço das investigações deverá determinar se a transação imobiliária foi apenas um negócio privado legítimo ou parte de uma estrutura mais ampla de influência e benefícios cruzados.



