99Pay recebe nova licença do Banco Central e muda de patamar: o que realmente muda para quem usa a fintech

A 99Pay acaba de dar um passo importante para ampliar sua atuação no mercado financeiro brasileiro. O Banco Central autorizou a fintech a operar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), modalidade conhecida popularmente como financeira.

Na prática, a mudança vai muito além de uma alteração regulatória.

A nova licença permite que a empresa deixe de depender exclusivamente do modelo utilizado pelas Sociedades de Crédito Direto (SCDs) e passe a operar com uma estrutura semelhante à de instituições financeiras tradicionais em diversas frentes do crédito.

Isso significa maior capacidade para captar recursos, desenvolver novos produtos e competir de forma mais agressiva com bancos digitais como Nubank, Inter, PicPay e Mercado Pago.

A autorização representa mais um capítulo da corrida das fintechs para se transformarem em plataformas financeiras completas — movimento que vem remodelando o sistema bancário brasileiro nos últimos anos.

O que mudou com a autorização do Banco Central

Até agora, a 99Pay operava como uma Sociedade de Crédito Direto (SCD).

Esse modelo foi criado pelo Banco Central em 2018 para estimular inovação no crédito, mas possui limitações importantes.

Com a migração para SCFI, a empresa ganha novas possibilidades regulatórias.

Entre elas:

  • emitir CDBs;
  • emitir RDBs;
  • ampliar fontes de financiamento;
  • expandir a carteira de crédito;
  • estruturar novos produtos financeiros;
  • reduzir dependência de capital próprio ou de investidores institucionais.

Segundo Rafael Leal, diretor jurídico e de compliance da empresa, a autorização representa um marco estratégico para acelerar o crescimento da plataforma financeira da companhia.

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O ponto que pouca gente percebe: a autorização muda principalmente a forma de captar dinheiro

A maior novidade não está exatamente no crédito.

Está no passivo da instituição.

Antes, como SCD, a 99Pay tinha limitações relevantes para captar recursos diretamente do mercado.

Agora poderá emitir:

Na prática, isso significa que investidores poderão financiar parte das operações da fintech comprando esses títulos.

Esse dinheiro pode ser utilizado para expandir a carteira de empréstimos.

É exatamente o modelo utilizado há décadas por bancos tradicionais.

O que é uma SCFI?

A Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento é uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central especializada em operações de crédito.

Popularmente, esse tipo de empresa é conhecido como financeira.

Ela pode atuar principalmente com:

  • crédito pessoal;
  • financiamento;
  • crédito ao consumo;
  • emissão de CDBs;
  • emissão de RDBs.

Embora não tenha todas as permissões de um banco comercial, possui um escopo operacional muito mais amplo do que uma Sociedade de Crédito Direto.

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O que muda para os clientes da 99Pay

Para quem utiliza a conta digital, nenhuma mudança acontece imediatamente.

A conta continuará funcionando normalmente.

O impacto aparece no médio e longo prazo.

A expectativa é que a empresa consiga lançar novos produtos, ampliar linhas de crédito e aumentar sua capacidade de financiamento.

Na prática, isso pode resultar em:

  • maior oferta de empréstimos;
  • produtos financeiros mais sofisticados;
  • expansão do ecossistema dentro do aplicativo;
  • possível aumento das ofertas de investimentos.

Hoje a plataforma informa possuir mais de 28 milhões de usuários cadastrados.

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A estratégia segue o movimento das grandes fintechs

Nos últimos anos, praticamente todas as grandes fintechs brasileiras passaram por processos semelhantes.

O objetivo é reduzir dependência de parceiros bancários e internalizar cada vez mais serviços financeiros.

Quanto maior o número de licenças regulatórias, maior tende a ser o controle sobre:

  • crédito;
  • pagamentos;
  • investimentos;
  • seguros;
  • meios de financiamento.

Essa estratégia melhora eficiência operacional e pode aumentar as margens ao longo do tempo.

O rendimento de 110% do CDI continua?

A empresa informou que mantém sua conta digital oferecendo rendimento equivalente a 110% do CDI para valores de até R$ 5 mil, conforme as regras vigentes do produto.

A nova licença, entretanto, não significa automaticamente aumento desse rendimento.

Qualquer alteração dependerá da estratégia comercial da fintech.

O que isso significa para o mercado financeiro

A autorização mostra uma tendência clara do sistema financeiro brasileiro.

As fronteiras entre bancos, financeiras, carteiras digitais e fintechs estão ficando cada vez menores.

Empresas que nasceram oferecendo apenas pagamentos agora disputam crédito, investimentos, seguros e produtos bancários completos.

Para o consumidor, isso costuma aumentar a concorrência.

Para o mercado, significa maior disputa por depósitos, crédito e relacionamento com clientes.

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A corrida das fintechs por licenças mais completas ganhou velocidade

A autorização concedida à 99Pay não é um caso isolado. Nos últimos anos, o mercado financeiro brasileiro passou por uma mudança estrutural: fintechs que nasceram oferecendo apenas pagamentos, carteiras digitais ou contas simplificadas passaram a buscar licenças regulatórias mais abrangentes para disputar espaço diretamente com bancos tradicionais.

O movimento ocorre porque o crescimento apenas por aquisição de clientes deixou de ser suficiente. Em um ambiente de juros elevados e maior seletividade do mercado, a rentabilidade passou a depender da capacidade de oferecer produtos financeiros de maior valor agregado, como crédito, investimentos, seguros e serviços bancários completos.

Nesse contexto, possuir uma licença que permita ampliar as fontes de financiamento e expandir a operação de crédito tornou-se um diferencial competitivo. A tendência é que mais instituições busquem estruturas regulatórias capazes de reduzir custos operacionais, aumentar receitas recorrentes e diminuir a dependência de parceiros financeiros.

Na prática, a competição deixou de ocorrer apenas pela melhor conta digital ou pelo menor custo de transferência. Agora, a disputa acontece pelo controle completo do relacionamento financeiro do cliente.

O verdadeiro ativo conquistado pela 99Pay não é o crédito, mas o funding

Embora a autorização tenha sido anunciada como uma expansão da operação de crédito, o ganho estratégico mais relevante está na capacidade de fortalecer o chamado funding — termo utilizado para definir as fontes de recursos que financiam as operações de uma instituição financeira.

Até então, a 99Pay possuía alternativas mais restritas para captar recursos destinados à expansão da carteira de empréstimos. Com a nova licença, a empresa passa a poder utilizar instrumentos tradicionais do sistema financeiro, como CDBs e RDBs, ampliando suas possibilidades de financiamento.

Essa mudança produz efeitos importantes.

Quanto maior a capacidade de captar recursos de forma competitiva, maior tende a ser a capacidade de:

  • expandir a oferta de crédito;
  • reduzir o custo médio de captação;
  • aumentar a previsibilidade financeira da operação;
  • diversificar as fontes de recursos;
  • reduzir a dependência de investidores institucionais.

Em outras palavras, a autorização fortalece a infraestrutura financeira da companhia. É essa base que permitirá acelerar novos produtos nos próximos anos.

Crescer no crédito também significa assumir riscos maiores

A expansão de uma carteira de crédito normalmente é percebida apenas pelo potencial de aumento das receitas. No entanto, existe um outro lado da equação que costuma receber menos atenção.

Cada novo empréstimo concedido aumenta a exposição da instituição ao risco de inadimplência.

Isso exige investimentos constantes em:

  • modelos de análise de crédito;
  • prevenção a fraudes;
  • sistemas de cobrança;
  • provisões para perdas;
  • gestão de capital regulatório;
  • controles internos e compliance.

Em períodos de desaceleração econômica, aumento do desemprego ou deterioração da renda das famílias, essas estruturas tornam-se ainda mais relevantes para preservar a qualidade da carteira.

Por isso, crescer rapidamente nem sempre significa crescer com segurança. O desafio das fintechs é encontrar equilíbrio entre expansão comercial e controle do risco de crédito.

Como a 99Pay passa a se posicionar frente aos principais concorrentes

A nova licença aproxima a 99Pay das principais plataformas financeiras digitais do país, que nos últimos anos ampliaram significativamente seu portfólio de serviços.

InstituiçãoConta digitalCrédito próprioPossibilidade de captação via CDBEcossistema integrado
99PaySimSimSim, com a nova licençaMobilidade e serviços financeiros
NubankSimSimSimPlataforma financeira
Mercado PagoSimSimSimMarketplace e pagamentos
InterSimSimSimBanco digital completo
PicPaySimSimSimPagamentos e serviços financeiros

A diferença competitiva da 99Pay continua sendo sua integração com o aplicativo de mobilidade urbana, permitindo que usuários concentrem pagamentos, transporte, carteira digital e, futuramente, um número ainda maior de produtos financeiros em um único ambiente.

Essa estratégia acompanha a tendência global dos chamados super apps, que procuram aumentar o tempo de permanência do usuário dentro da plataforma e ampliar as oportunidades de monetização.

O que investidores de renda fixa devem observar

A possibilidade de emissão de CDBs pode abrir uma nova frente de competição no mercado de renda fixa.

Nos últimos anos, investidores passaram a distribuir recursos entre bancos tradicionais, bancos digitais e instituições financeiras de menor porte em busca de rentabilidades mais elevadas.

Caso a 99Pay passe a emitir CDBs, alguns fatores deverão ser analisados antes da aplicação:

  • remuneração oferecida em relação ao CDI;
  • prazo de vencimento;
  • liquidez;
  • classificação de risco da instituição, quando disponível;
  • estratégia de crescimento da carteira de crédito;
  • nível de capitalização da empresa.

Embora os CDBs emitidos por instituições autorizadas possam contar com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), essa proteção possui limites estabelecidos em regulamento e não elimina a importância de avaliar a solidez financeira do emissor.

Para investidores, a chegada de novos participantes tende a aumentar a concorrência por recursos e, em determinados momentos, pode resultar em ofertas mais atrativas de renda fixa.

O investidor também deve prestar atenção

Um detalhe importante é que a possibilidade de emissão de CDBs poderá tornar a 99Pay uma nova competidora na disputa por recursos dos investidores de renda fixa.

Caso a empresa passe efetivamente a emitir esses títulos, eles poderão, em determinadas condições previstas na regulamentação, contar com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dentro dos limites legais aplicáveis.

Isso, porém, não elimina o risco de crédito da instituição emissora.

Antes de investir em qualquer CDB, continua sendo fundamental analisar fatores como:

  • saúde financeira da instituição;
  • patrimônio;
  • liquidez;
  • prazo;
  • remuneração;
  • classificação de risco, quando disponível.

A proteção do FGC reduz parte do risco, mas não substitui uma análise criteriosa da instituição emissora.

Perguntas e respostas

A 99Pay virou banco?

Não. A autorização recebida foi para atuar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), que é uma instituição financeira, mas não um banco comercial.

O dinheiro dos clientes muda de lugar?

Não. A autorização não altera automaticamente a forma de funcionamento das contas existentes.

A empresa poderá oferecer novos CDBs?

A nova licença permite essa possibilidade. A oferta efetiva dependerá da estratégia comercial da companhia.

A cobertura do FGC é automática?

A cobertura depende do tipo de produto emitido e das regras do Fundo Garantidor de Créditos. Em geral, CDBs emitidos por instituições financeiras autorizadas podem ser elegíveis à garantia dentro dos limites legais.

O rendimento de 110% do CDI muda?

Até o momento, a empresa não anunciou mudanças nessa política.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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